Resumo objetivo:
O Jalapão, no Tocantins, é um destino natural de acesso difícil, que exige veículos 4x4 e é frequentemente visitado por meio de excursões guiadas. Apesar de seu baixo número de visitantes em comparação com parques mais famosos, a região oferece atrativos únicos, como os fervedouros (com água turquesa que não permite afundar) e formações rochosas como a Pedra Furada.
Principais tópicos abordados:
1. Acessibilidade e logística: Dificuldade de acesso por estradas de terra e a necessidade de veículos 4x4 ou excursões guiadas partindo de Palmas.
2. Atrativos turísticos: Descrição dos principais pontos de interesse, como os fervedouros (fenômeno único da região) e a Pedra Furada.
3. Perfil do turismo: Baixa visitação em comparação com outros parques brasileiros e a experiência prática de um roteiro de vários dias, com hospedagem em cidades como Mateiros.
Das tantas joias naturais do Brasil, o Jalapão talvez seja a mais bem guardada. Famoso pelo azul-turquesa dos seus fervedouros, o parque estadual recebeu apenas 50 mil visitantes em 2025 â16% a mais do que no ano anterior, mas ainda pouco perto dos parques mais visitados, como o das cataratas do Iguaçu (2 milhões de visitantes em 2025) e Jericoacoara (1,2 milhão).
Quem visita logo entende o porquê desses números. O Jalapão fica no interior do Tocantins, distante 300 quilômetros de Palmas âa maior parte deles em estradas de terra e areia. Chegar e se locomover só é possÃvel de 4x4, e com alguma experiência.
Por isso, a maneira mais comum de visitar o parque é com excursões de agências, que já incluem todos os deslocamentos, guias, atrativos, pernoites e até refeições. Mesmo estando 24 horas sob a tutela de um guia, a viagem não deixa de ser uma grande e divertida aventura off-road.
Esses passeios partem de Palmas cedo pela manhã, assim que as primeiras araras-canindé, sÃmbolo do estado, gralham pelo céu da capital âum belo presságio das belezas naturais que virão. A não ser que o seu grupo tenha fechado um carro inteiro, é nesse momento que se conhecem quem serão os seus companheiros de aventura, num clima meio Big Brother mesmo. Ter a sorte de cair em um grupo bacana é fundamental âcoisa que, felizmente, não faltou a este repórter.
Isso porque boa parte dos próximos dias serão no aperto e no sacolejo da 4x4. Para não ficar pesado, o guia propõe um revezamento de lugares, para que ninguém passe muito tempo apertado no fundão, nem monopolize o banco do passageiro. Justo.
Muitos roteiros incluem uma primeira parada na lagoa do Japonês, onde uma gruta de pedras pontiagudas com água azul-turquesa, absolutamente cristalina, cheia de peixinhos que beliscam rende boas fotos. Nadar ali até pose ser um deleite, mas no fim das contas não é assim tão imperdÃvel âo que vem depois é bem melhor.
à o caso, por exemplo, da Pedra Furada, um dos sÃmbolos do Jalapão. à uma grande elevação com grandes cavidades erodidas pelos ventos e que emolduram a imensidão do planalto, cravejado de algumas outras formações como aquela. A visita percorre uma pequena trilha que contorna esse mirante natural, numa sequência de paisagens que emocionam pela composição e pelas cores.
No roteiro percorrido pela reportagem, de cinco dias, o primeiro pernoite foi em Ponte Alta do Tocantins, enquanto todos os outros foram em Mateiros, cidadezinha de pouco menos de 3.000 habitantes (quase metade deles quilombolas), que é o principal ponto de apoio para visitar fervedouros e cachoeiras do Jalapão.
Apesar do nome, a água dos fervedouros não é quente. O termo vem da aparente fervura da água ao ressurgir do solo. O fenômeno, que só existe no Jalapão, acontece graças à combinação da forte pressão do lençol freático com a leveza da areia bem fininha do solo da região, que na mão lembra madrepérola, só que em pó.
O maior barato dos fervedouros é a ilusão que eles provocam nas pessoas. Nas beiradas, em geral, a areia é firme, mas bastam alguns passos e ela fica movediça, engolindo as pernas até a altura dos joelhos, mais ou menos. A profundidade, conta o guia, pode chegar a 35 metros. Mas, para além da curiosa sensação, não há risco algum. à que a pressão da água é tão forte que afundar se torna uma tarefa impossÃvel.
Cada fervedouro tem sua caracterÃstica própria. Há o mais fundo, o maior em superfÃcie de água, o que tem formato de coração⦠Mas em todos a proposta é a mesma: tomar um bom banho de água doce e brincar de afundar sem nunca conseguir. Além de bonitos, são muito divertidos, a ponto de ficarmos deslumbrados como uma criança descobrindo algo novo.
De todos os fervedouros, o mais interessante é o dos Buritis, onde Lino recebe os visitantes com um espesso e saboroso suco de caju e com histórias de épocas em que o turismo ainda nem existia por aquelas bandas. Como quando ele foi picado por uma cobra e, dado o isolamento da região, teve de se automedicar com o próprio chocalho da cascavel âe sobreviveu. Parece história de pescador, mas a cicatriz na perna está lá.
Como as visitas aos fervedouros são sempre em grupo, não há muito espaço para contemplação. Nos dias mais movimentados, a fila de turistas limita a diversão a 15 ou 20 minutos, e ir em um atrás do outro pode parecer um tanto repetitivo. Por isso, é bom combinar com o seu guia e com o seu grupo um roteiro com, no máximo, um fervedouro por dia, e usar o restante do tempo em outras atrações mais diferentes.
Uma delas é o cânion Sussuapara, praticamente uma maquete do cerrado, tido como a esponja do Brasil. A pequena trilha que leva até ele é quente e árida, já que a vegetação, além de aparentemente seca e até suja da poeira da terra, mal faz sombra. Mas quando se chega perto do cânion tudo fica mais verde. Dentro dele revelam-se grandes raÃzes, que penetram fundo no solo em busca da água que parece surgir do nada, cavando o cânion a cada dia.
Outro lugar que certamente vale passar mais tempo é o quilombo Mumbuca, formado no começo do século 20 por ex-escravizados baianos que migraram em busca de terras com abundância de água. A comunidade resistiu ao longo das décadas graças à tradição do capim dourado, outro sÃmbolo da região, iniciada por Laurentina e por sua filha, Guilhermina, conhecida como dona Miúda.
Um memorial tocado pelas netas de Miúda conta a história do lugar e da atividade que, impulsionada pelo turismo, segue sendo fonte de renda para a comunidade. Muitos passeios só passam por lá, mas a comunidade também permite hospedagens. à possÃvel reservar com agências de turismo de base comunitária.
à o ideal, principalmente para curtir com calma a prainha do Mumbuca, um dos pontos altos da viagem. A beira do rio tem um balanço e uma plataforma de salto e também uma pequena trilha que leva até umas pedras mais acima no rio, onde é possÃvel se sentar, contemplar e tomar sol ouvindo nada mais além do barulho da água. Depois, e só se jogar e voltar flutuando até a praia.
Se as infinitas estradas de terra são uma constante no Jalapão, o próprio caminho releva alguns atrativos. Como o Recanto das Dunas, um ponto de apoio instalado no meio do nada, de onde se tem uma visão perfeita da serra do EspÃrito Santo, gigantesca elevação rochosa que é outra marca do Jalapão. Os guias comandam um revezamento para que os grupos façam a tradicional foto sobre o carro, com a serra ao fundo. Mas também vale muito a pena só deixar a vista se perder nos inúmeros quilômetros da imensidão daquela paisagem.
Outro mirante imperdÃvel para a mesma serra são as dunas do Jalapão, que mais parecem um pedaço dos Lençóis Maranhenses perdido no meio do Tocantins. A diferença é que, ali, a areia é alaranjada ânão só pela luz do pôr do sol, mas pela presença de ferro nas rochas de arenito da serra, de onde vem toda aquela areia.
Mas não há nada que seja mais divertido e encantador no Jalapão do que a cachoeira do Formiga. à uma cascata de água cristalina, pequena e funda, com queda dâágua forte, mas ao mesmo tempo bastante segura. Isso porque parte da água forma um redemoinho que joga o visitante de volta ao deque lateral, enquanto que a outra parte forma um riozinho bem lento em meio à mata, ideal para contemplação. Ela é bastante frequentada e também por isso vale um dia inteiro do roteiro âno vaivém dos grupos, à s vezes é possÃvel ficar sozinho ali.
O caminho de volta a Palmas é bem diferente do de ida. Isso porque o trajeto passa por outra estrada, que vem sendo asfaltada para a chegada do aeroporto de São Félix do Tocantins, que deve ser entregue ainda neste ano.
Com a chegada dele, a população local antevê uma grande mudança no perfil do turismo local, uma vez que a viagem ao Jalapão talvez perca aquele quê de excursão off-road que, apesar do perrengue, é o seu maior charme.