Principais pontos da notícia:
A atriz Maria Ribeiro, intérprete de Sinhá Vitória no clássico "Vidas Secas" (1963), faleceu aos 102 anos na Suíça. Sua carreira no cinema, iniciada tardiamente aos 40 anos após ser descoberta pelo diretor Nelson Pereira dos Santos, tornou seu rosto um símbolo do Cinema Novo. A notícia também traça um perfil biográfico, desde sua origem humilde na Bahia até sua mudança para o Rio de Janeiro, onde trabalhou em laboratórios cinematográficos antes de se tornar atriz.
Principais tópicos abordados:
1. O falecimento e a idade centenária de Maria Ribeiro.
2. Sua atuação emblemática em "Vidas Secas" e sua importância para o Cinema Novo.
3. A descoberta tardia para a carreira artística e a relutância inicial em aceitar o papel.
4. Um resumo de sua trajetória de vida, origem familiar e carreira cinematográfica.
Quando "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, ganhou as telonas, em 1963, raiou uma estrela. Maria Ribeiro estreava como Sinhá Vitória, matriarca da famÃlia de retirantes que foge da seca no sertão. A baiana deu à personagem a atuação contida de que precisava.
Mas a intérprete quase não aceitou o papel. Ela trabalhava em um laboratório de revelação de filmes, quando Nelson Pereira dos Santos a observou. O diretor dizia enxergar nela o que precisava, mas demorou a convencê-la a gravar.
"Ela era bem diferente da personagem, sempre muito elegante, de salto alto, cabelo curto. Depois de um bom diálogo, ele a convenceu. Como ela não tinha nenhuma prática, ele explicava que âa câmera que vai até você, você não precisa ir até a câmeraâ", diz a filha Wilma da Silva, 80.
As cenas impactantes em preto e branco fizeram de seu rosto um dos sÃmbolos do Cinema Novo. Era o pontapé para uma carreira de muitas décadas. A segunda personagem foi Dionorá em "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" (1965). Ainda fez "Os Herdeiros" (1969), "Perdida" (1976) e "A Terceira Margem do Rio" (1994).
Os últimos trabalhos foram o documentário "Como Se Morre no Cinema" (2002), contando a própria história, e "As Tranças de Maria" (2002), dando vida a Sá Virgilia. Também estrelou o curta-documentário "Maria Ribeiro" (2010), fruto do encontro com o jornalista LuÃs Osete em sua terra natal.
Era de batismo Maria Ramos da Silva, nascida em Sento Sé (BA), em 1923. Caçula de sete irmãos de uma famÃlia de trabalhadores rurais, cresceu no Boqueirão. O povoado hoje está submerso nas águas do rio São Francisco após a construção da barragem de Sobradinho.
Aos três anos, foi passar uns dias com uma tia em Juazeiro e, por falta de barco para voltar, acabou ficando. Dois anos depois, seguiram em um vapor para Pirapora (MG), onde cresceu.
Mais uma mudança veio aos 15, para o Rio de Janeiro. Em terras cariocas, trabalhou cedo, em fábricas e com tipografia.
Durante uma temporada em Minas Gerais, conheceu o jornalista José Emiliano da Silva, com quem teve sua filha.
Foi ao retornar para o Rio que sua vida e a sétima arte se encontraram. Trabalhou no Cine Pathé e depois na LÃder Cine Laboratórios. Teve contato com nomes como Herbert Richers, Glauber Rocha e Cacá Diegues, além de Nelson, que mudou seus rumos já aos 40 anos.
Em 1964, mudou-se para a Europa, onde a filha estudou cinematografia. Mas ficava na ponte aérea para o Brasil, mantendo negócios.
Muitas de suas memórias estão descritas em poesias que deixou e a famÃlia pretende transformar em um livro.
Partiu definitivamente do Brasil em 2024 para morar em Genebra, na SuÃça, onde morreu no dia 29 de dezembro, aos 102 anos, após um derrame.
Deixa a filha Wilma e uma neta, Karenine, 46, além de oito bisnetos, sendo dois de seu neto Krishna, que também morreu ano passado.
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