Resumo objetivo:
Foi localizada a única fotografia conhecida da casa de Tia Ciata, figura central na popularização do samba e na cultura afro-brasileira no Rio de Janeiro. A imagem, parte do acervo histórico da cidade, resgata a memória da "Pequena África", região demolida durante reformas urbanas que apagaram marcos históricos. O artigo destaca a importância de Ciata como matriarca cultural e seu papel como anfitriã de músicos pioneiros do samba.
Principais tópicos abordados:
1. A descoberta da rara fotografia da casa de Tia Ciata e seu valor histórico.
2. O papel central de Tia Ciata na formação do samba e da cultura afro-brasileira.
3. O apagamento histórico de locais como a Praça Onze devido a intervenções urbanísticas.
4. A representação de Tia Ciata na literatura, notadamente por Mário de Andrade.
A frase "Uma imagem vale mais que mil palavras", ora atribuÃda a Confúcio, filósofo e polÃtico chinês, ora ao editor americano Arthur Brisbane, que a popularizou no século 20, ao dizer: "Use uma imagem. Ela vale mil palavras", se aplica bem à única fotografia localizada da casa onde morou Hilária Batista de Almeida (1854-1924), a Tia Ciata, que chegou ao Rio de Janeiro, aos 22 anos, ainda no perÃodo da escravidão.
Negra, livre e mãe de santo, Ciata usou sua casa na Praça Onze para popularizar o samba carioca, gênero que influenciou muito a criação do conceito de Carnaval, por meio das escolas de samba, numa época de grande efervescência da vida cultural brasileira.
Músicos como Pixinguinha, Sinhô, João da Baiana e Heitor dos Prazeres, que cunhou a expressão Pequena Ãfrica, região onde moravam Ciata e enorme contingente de ex-escravizados, eram assÃduos frequentadores do lugar. "Pelo Telefone", samba de autoria de Donga e Mauro Almeida, considerado o primeiro gravado no paÃs, foi composto e cantado sobre a proteção da velha baiana.
A localização da imagem rara da casa de Tia Ciata, no número 117 da rua Visconde de Itaúna, pelo Arquivo Geral da Cidade é muito relevante para a história da fotografia no Brasil. Ela provavelmente foi tirada por Uriel ou Aristógiton Malta, filhos de Augusto Malta, o fotógrafo oficial da Prefeitura de 1905 a1938.
Ela é parte da coleção de 14 mil fotos do acervo de Henrique Dodsworth, que foi prefeito interventor do chamado Distrito Federal de 1937 a 1945, ou seja, no auge da ditadura do Estado Novo, no governo de Getúlio Vargas.
A antiga Praça Onze de Junho, que existiu por 150 anos e foi demolida na década 1940 para a construção da avenida Presidente Vargas, sob o comando de Dodsworth, é mais do que o conjunto de logradouros apagados da memória histórica do Rio de Janeiro. à a constatação de um crime, que inclui também o fim do antigo morro do Castelo, marco de nascimento da cidade, e a abertura da avenida Central, durante a era do "Bota Abaixo", aqui a cargo do seu tio, o engenheiro Paulo de Frontin.
Tia Ciata teve grande importância para música, religião de matriz africana e cultura.
Em 1923, ao brincar o Carnaval no Rio, Mário de Andrade provavelmente teve contato com a candomblecista, se referindo a ela com a precisão de quem conviveu e se aproximou.
Ele a retrata, com liberdade, no romance "MacunaÃma" (Ed. Antofágica). No livro o modernista também descreve "a macumba que se rezava" na casa da matriarca baiana: "Tia Ciata era uma negra velha com um século de sofrimento, javevó e galguincha com a cabeleira branca esparramada feito luz em torno da cabeça pequenina. Ninguém mais não enxergava olhos nela, era só osso duma compridez já sonolenta pendependendo pro chão de terra".
Em outro trecho, o personagem MacunaÃma participa de uma de suas sessões:
"Era uma macumba séria e quando santo aparecia, aparecia de deveras sem nenhuma falsidade. Tia Ciata não permitia dessas desmoralizações no zungu dela e fazia mais de 12 meses que Ogum nem Exu não apareciam no Mangue. Todos desejavam que Ogum viesse. MacunaÃma queria Exu só pra se vingar de Venceslau Pietro Pietra".