A Guarda Revolucionária do Irã fechou o Estreito de Hormuz, pressionando economicamente os países dependentes da rota, com a China sendo a mais exposta por ser a principal destinatária do petróleo da região. No entanto, a China possui grandes reservas estratégicas de petróleo, estimadas em 1,1 a 1,3 bilhão de barris, que podem sustentar o país por meses em caso de interrupção total das importações. Além dos estoques, o país pode recorrer a fontes alternativas de abastecimento, como a Rússia e fornecedores das Américas e da África Ocidental, embora a substituição do gás natural liquefeito (GNL) do Catar seja mais complexa.
Principais tópicos abordados:
1. O fechamento do Estreito de Hormuz como ação geopolítica.
2. A vulnerabilidade e a resiliência da China devido às suas reservas estratégicas de petróleo.
3. As fontes alternativas de abastecimento energético para a China.
4. O desafio específico em relação ao fornecimento de GNL.
5. A estrutura legal e setorial dos estoques estratégicos na China.
O fechamento do Estreito de Hormuz pela Guarda Revolucionária do Irã nesta semana foi visto como uma ação articulada para gerar pressão polÃtica e econômica nos paÃses que dependem do trecho para suas trocas comerciais, em especial o petróleo. Nisso, a China, principal destino dos petroleiros que passam por lá, seria a mais afetada âse não fossem suas reservas estratégicas e a capacidade de recorrer a fontes alternativas.
O tamanho das reservas estratégicas chinesas é segredo de Estado. Estimativas de consultorias e pesquisadores, porém, apontam que o paÃs tem armazenado quantidade suficiente para se manter por meses, garantindo sua matriz energética caso o fechamento do trecho não se prolongue.
As estimativas mais conservadoras situam a cifra entre 1,1 e 1,3 bilhão de barris. Um estudo de Michal Meidan, chefe do programa de pesquisa em energia chinesa do Instituto de Estudos de Energia da Universidade de Oxford, indica que esse volume seria suficiente para abastecer o paÃs por entre 110 e 140 dias caso ele parasse completamente de importar petróleo bruto.
Em um cenário de interrupção total apenas do fluxo proveniente do Oriente Médio, que corresponde a cerca de 50% do total importado pela China, o paÃs teria algo em torno do dobro desse prazo para se sustentar. E ainda poderia recorrer a fontes alternativas.
à Folha a pesquisadora afirma que o fechamento de Hormuz representa risco para todas as refinarias chinesas, mas que os estoques podem ser consumidos como substituição.
"Compradores chineses também podem buscar petróleo em outros paÃses, incluindo o Brasil, porém a um custo maior, já que o preço do petróleo e o frete marÃtimo estão subindo", diz.
O problema maior seria com o gás natural liquefeito (GNL), do qual 27% das importações chinesas vêm do Qatar, também afetado pelo conflito. "O GNL é mais difÃcil de substituir, e a perda dos fluxos implica redução de demanda e maior dependência de gasodutos. Mas, no caso do GNL, considerando também o impacto sobre a Europa, a oferta ficará apertada."
Como outros paÃses, a China mantém estoques estratégicos para sua segurança energética, protegendo-se de disrupções de oferta, instabilidade de preços, volatilidade cambial e tensões geopolÃticas âcomo o próprio fechamento do estreito e os desdobramento da guerra comercial com os Estados Unidos.
O armazenamento também ajuda a amortecer o custo de interrupções e o encarecimento do frete, além de mudanças decorrentes de sanções.
Uma alteração na lei de energia chinesa em 2025 incorporou ainda o aumento da estocagem ao arcabouço legal, posicionando o estoque não apenas como uma decisão estatal, mas como um arranjo setorial. O movimento impulsionou o armazenamento e transferiu a responsabilidade e o custo para as empresas estatais e privadas.
Segundo Philip Andrews-Speed, pesquisador sênior no Instituto de Energia da Universidade de Oxford, os estoques de companhias privadas muitas vezes não são contabilizados por estudos ou consultorias, o que pode fazer com que a quantidade armazenada na China seja superior ao estimado.
"A China não tem razão para pânico", diz. "As empresas podem utilizar seus estoques comerciais e reduzir o ritmo de processamento nas refinarias."
Além das reservas, a Rússia âmaior fornecedora fora do Oriente Médioâ será outra alternativa à disposição de Pequim. Apesar das sanções impostas ao paÃs em decorrência da Guerra da Ucrânia, a China segue como seu principal parceiro comercial e continua comprando petróleo bruto russo, entre outros produtos.
Andrews-Speed afirma que contornar as sanções e manter as compras do vizinho trouxe benefÃcios comerciais a Pequim. Por isso, "as linhas de suprimento provenientes da Rússia, tanto por oleodutos quanto por via marÃtima, aumentam a resiliência da China".
"O restante das importações chinesas vem da Ãfrica Ocidental e das Américas, especialmente da região atlântica. Os preços desse petróleo devem subir à medida que a competição por suprimentos se intensificar", declara.