O governo espanhol, ao contrário de aliados europeus como França e Reino Unido, condenou publicamente os ataques dos EUA e Israel ao Irã e negou o uso de suas bases aéreas para essas operações, alinhando-se com a opinião da maioria de sua população. Esta posição independente, analisada como uma estratégia para consolidar uma liderança progressista na Europa, provocou ameaças comerciais do presidente Donald Trump e revelou uma falta de unidade na resposta europeia ao conflito. Especialistas apontam que os ataques parecem ter sido motivados principalmente por interesses israelenses de hegemonia regional, com os EUA atuando sem uma estratégia clara e coerente.
Principais tópicos abordados:
1. A posição diplomática independente e crítica da Espanha em relação aos ataques ao Irã.
2. A divisão na postura dos países europeus frente ao conflito e às pressões dos EUA.
3. A análise das motivações por trás dos ataques, com foco no papel e nos interesses de Israel.
Ao contrário de diversos países europeus, como França, Reino Unido e Alemanha, que adotaram uma postura alinhada aos interesses de Washington, o governo espanhol foi na contramão e condenou os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. A atitude de Pedro Sánchez está de acordo com a população da Espanha: segundo uma pesquisa do Centro de Investigações Sociológicas (CIS), divulgada em fevereiro, cerca de 80% dos espanhóis acham que o presidente Donald Trump representa um perigo para a paz mundial.
Nesta quarta-feira (04/03), o premiê espanhol reafirmou seu posicionamento, afirmando que deve haver outras alternativas do que a ideia do mundo “só resolver seus problemas por meio de conflitos e bombas”.
Para o especialista em Oriente Médio Moussa Bourekba, do Centro de Assuntos Internacionais de Barcelona (CIDOB), a posição do primeiro-ministro espanhol tem sido consistente e estratégica.
“Pedro Sánchez se negou a participar do Conselho da Paz de Gaza, não apoiou o ataque norte-americano à Venezuela e agora se posiciona contra Trump no Irã. Ele busca se consolidar como referência da alternativa progressista na Europa, contrapondo-se ao governo reacionário de Trump”, disse.
Segundo Bourekba, a Espanha tenta desempenhar um papel diplomático ativo para evitar a escalada do conflito: “podemos observar isso quando vemos que ao mesmo tempo Sánchez é crítico ao regime iraniano, mas também não apoia o ataque unilateral dos EUA e de Israel”.
Guerra econômica
Enquanto isso, França mobilizou um porta-aviões para o Mediterrâneo e enviou caças para bases nos Emirados Árabes, demonstrando alinhamento estratégico com Washington. Já o Reino Unido autorizou que os Estados Unidos utilizem as bases do país britânico.
Por sua vez, o governo espanhol tomou uma decisão contrária ao governo britânico. Sánchez negou o uso das duas bases aéreas norte-americanas, que estão no sul do país, para operações contra o Irã — o que provocou Trump, que ameaçou cortar todo o comércio com a Espanha.
“Essas ameaças são parte da diplomacia coercitiva do presidente norte-americano. Isso não surpreende porque esse é o comportamento que ele tem com qualquer líder que vai contra seus interesses”, afirmou o especialista
Nesse ponto, a Comissão Europeia se solidarizou com a Espanha e anunciou que se for necessário o grupo vai atuar para defender os interesses do país ibérico.
Porém, de acordo com Bourekba, a Europa não está unida neste conflito. “Sánchez tem criticado a ideia de dois pesos e duas medidas que o bloco está mostrando, pois os outros países pensam que é melhor não ter Trump contra, custe o que custar.
Interesses por trás dos ataques
O motivo real do ataque norte-americano, segundo Bourekba, parece estar mais ligado a Israel do que qualquer estratégia clara dos Estados Unidos. “Não parece que Trump tenha um motivo claro e coerente para ter começado este conflito. Vimos como o presidente foi mudando suas justificativas o tempo todo. Por isso eu acredito que realmente o que desencadeou e quem o convenceu a começar esta guerra foi Israel”.
O analista lembra a luta histórica pela hegemonia regional entre Irã e Israel. Segundo ele, o objetivo do governo israelense é consolidar sua posição como único poder dominante na região, muitas vezes construindo ou exagerando ameaças para justificar ações militares.
“Os israelenses continuam mostrando sua capacidade de criar sistematicamente um inimigo em prol de dizer que o seu objetivo é manter a segurança. Historicamente Israel exagerou e até mesmo construiu essas ameaças que diz receber constantemente. Na minha opinião é errado pensar que o objetivo de Israel e dos EUA é só uma troca de regime no Irã¨.
“Os israelenses continuam mostrando sua capacidade de criar sistematicamente um inimigo em prol de dizer que o seu objetivo é manter a segurança. Historicamente, Israel exagerou e até mesmo construiu essas ameaças que diz receber constantemente. Na minha opinião é errado pensar que o objetivo de Israel e dos EUA é só uma troca de regime no Irã”.
Os bombardeios dos EUA e de Israel, que começaram no último sábado (28/02), já causaram mais de mil mortes somente no Irã, de acordo com a Agência de Notícias dos Ativistas de Direitos Humanos (HRANA).