Resumo objetivo:
O Senado aprovou a ampliação da licença-paternidade de 5 para 20 dias, medida vista como um avanço, porém ainda insuficiente frente às necessidades das famílias e aos padrões internacionais. A notícia destaca que a mudança esbarra em uma questão cultural profunda: a associação do cuidado aos papéis femininos e a falta de preparo dos homens para exercer a paternidade ativa. Especialistas defendem a necessidade de um "letramento emocional" masculino desde a escola e a conexão dessa pauta com a redução da jornada de trabalho para uma efetiva transformação social.
Principais tópicos abordados:
1. Aprovação e limitações da ampliação da licença-paternidade.
2. Crítica à visão cultural que atribui o cuidado às mulheres e exclui os homens.
3. Defesa da educação emocional e parental masculina desde a infância.
4. Desigualdades no acesso à licença, especialmente para populações negras e periféricas.
5. Conexão entre paternidade ativa, condições de trabalho exaustivas e equidade social.
O Senado aprovou a ampliação da licença-paternidade de 5 para 20 dias, um avanço, mas ainda muito aquém das necessidades reais das famílias brasileiras e das práticas adotadas em outros países. Para além do número de dias, a medida escancara uma questão estrutural: a sociedade ainda entende o cuidado como atributo feminino, e os homens não são preparados para exercê-lo.
“Essa aprovação é muito necessária. A gente sabe que todo o cuidado fica a cargo das mulheres. O homem não é socializado para o cuidado na sociedade em geral. É um avanço, sem dúvida. Porém, a gente precisa trazer um letramento para que esse homem se aproxime de fato do cuidado”, destaca Humberto Baltar, consultor e educador parental, fundador do coletivo Pais Pretos, no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
A demora para ampliar a licença é observada como causas culturais, principalmente na percepção de que o cuidado é algo exclusivamente feminino. “Essa é a visão cultural que prevalece não só no Brasil, mas no Ocidente como um todo. E um outro ponto é que o próprio homem muitas vezes é negado desse direito de exercer a paternidade.”
Baltar defende que a mudança precisa começar cedo, trabalhando o letramento emocional do homem na fase escolar também. “Precisamos falar sobre isso enquanto sociedade para que a gente possa de fato trazer outros ganhos como a extensão dessa licença”, pontua.
“O machismo faz com que a gente entenda que tudo que é voltado para o feminino é inferior. O cuidado acaba também sendo enxergado como inferiorizado. Por isso, esse letramento emocional, esse letramento parental para os homens é tão fundamental”, aponta.
O Instituto Vidas Raras mostra que, no caso das famílias atípicas, 80% dos homens abandonam os lares. Nesse cenário, Baltar explica que é “porque o cuidado não é um atributo masculino, principalmente quando esse cuidado é essencial, no caso de uma criança com deficiência.”
Ele lembra que mesmo as mulheres que têm companheiros muitas vezes exercem o cuidado sozinhas. “A gente precisa preparar esse homem desde o puerpério. O programa pré-natal do parceiro, muito pouco conhecido, precisa ser mais veiculado para que esses homens entendam que ele tem papel no parto, no aleitamento e na primeiríssima infância.”
Baltar faz uma conexão fundamental com a pauta da redução da jornada. “A percepção social que é criada, especialmente entre as classes populares, é a ideia do que o trabalho significa. Quanto mais você trabalha, mais digno você é. Só que o que não se fala é que, quando você trabalha de forma exaustiva numa escala 6×1, você não tem acesso a essa parentalidade.”
Ele lembra que 56% da população é negra e está majoritariamente no subemprego. “A licença de 20 dias não vai ser acessada por toda a população de maneira equânime. Precisamos lutar por essa extensão agora, conectando as pautas.”
Baltar explica a abordagem do coletivo Pais Pretos que fundou. “Muitas vezes pensam que falar sobre parentalidade preta é falar sobre racismo e discriminação. A gente foca principalmente no legado ancestral africano, que fala sobre a pauta do cuidado de um outro lugar.”
“É normal estar perdido. O homem precisa naturalizar esse lugar de vulnerabilidade para que, de fato, ele possa abraçar esse cuidado de forma integral. A gente consegue, através de grupos de formação, levar esse homem a se permitir cuidar, se emocionar, chorar, reconhecer os medos”, conclui.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.