Resumo objetivo: A composição da chapa de direita para as eleições em São Paulo ainda está em negociação, com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) confirmado para a reeleição. As principais indefinições envolvem a acomodação do PSD de Gilberto Kassab na chapa (para vice-governadoria ou Senado) e a escolha entre os nomes de André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP) para as demais vagas. A definição depende do equilíbrio entre a força eleitoral do bolsonarismo (PL/PP) e a capilaridade municipal e governabilidade oferecidas pelo PSD, em um contexto de rusgas na relação entre Tarcísio e Kassab.
Principais tópicos abordados:
1. A indefinição na formação da chapa de direita paulista, com apenas a candidatura de Tarcísio sacramentada.
2. As negociações e tensões para acomodar o PSD de Gilberto Kassab, balançando entre sua capilaridade municipal e a força eleitoral do bolsonarismo (PL/PP).
3. O conflito de interesses e as rusgas na relação entre Tarcísio de Freitas e Gilberto Kassab.
4. A articulação política em dois níveis: a estadual (chapas em SP) e a nacional (onde o PSD busca uma terceira via à Presidência).
A composição da chapa da direita em São Paulo para as eleições deste ano ainda não está totalmente definida. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tentará a reeleição ao governo do estado e, até o momento, os nomes com mais musculatura para disputar compor a chapa como vice e tentar uma vaga no Senado são o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), André do Prado (PL), e o ex-secretário de Segurança Pública e deputado federal, Guilherme Derrite (PP), respectivamente. Apesar das movimentações e da articulação entre as siglas aliadas, a definição dos dois nomes ainda depende de acertos entre as legendas da base, e somente o nome de Tarcísio está sacramentado.
Nas costuras, um quarto elemento precisa ser acomodado: o PSD de Gilberto Kassab, um dos principais fiadores da campanha de Tarcísio em 2022. Atualmente, o partido ocupa a vice-governadoria com Felício Ramuth, que deve deixar o PSD em breve, segundo apurou a reportagem do Brasil de Fato. Além disso, Gilberto Kassab comanda a Secretaria de Governo do Estado de São Paulo.
Com outras siglas na mesa de negociação, o espaço do PSD na chapa paulista segue indefinido. No plano nacional, Gilberto Kassab não deve embarcar na candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), nome defendido por Tarcísio de Freitas. A direção do partido trabalha para lançar uma alternativa ao presidente Lula (PT) e ao campo bolsonarista, com a construção de uma candidatura própria ao Planalto. Na sexta-feira (6), o PSD convocou os membros do partido para um encontro com os nomes cotados da legenda à Presidência da República: os governadores Ratinho Jr., do Paraná, Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ronaldo Caiado, de Goiás.
Em São Paulo, uma alternativa em avaliação nos bastidores é o PSD manter o comando da Secretaria de Governo e emplacar a segunda vaga na corrida ao Senado. Essa última opção, no entanto, parece mais distante. Nos bastidores, a crença é de que uma vaga ficará com a direita e outra com a esquerda.
Mas resta saber qual arranjo será suficiente para contemplar Gilberto Kassab e Tarcísio de Freitas, cuja relação enfrenta rusgas. A avaliação é que Kassab utilizou a estrutura do governo para expandir a estrutura do PSD entre os municípios paulistas, como mostrou o resultado das eleições de 2024. A investida do cacique teria gerado ciúmes em Tarcísio. A situação escalou quando Kassab declarou que o governador precisa criar a sua própria “identidade” em relação a Jair Bolsonaro e que “gratidão é uma coisa e submissão é outra”, em entrevista ao Uol, no início de fevereiro.
Do outro lado, Tarcísio é descrito por aliados como uma pessoa difícil de agradar e a quem está reservado o direito de bater o martelo sobre a chapa em São Paulo.
Peso eleitoral x governabilidade
Nas tratativas, entra na conta o equilíbrio entre a governabilidade entregue por Gilberto Kassab, que comanda o PSD com a maior capilaridade municipal no estado, com 206 prefeitos entre os 645 municípios, e a força eleitoral do PL e do bolsonarismo, que tem em sua órbita o PP.
Mariana Chaise, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acredita que, embora o PSD garanta estabilidade institucional, “o PL possui ativos mais valiosos para uma disputa eleitoral imediata, pressionando Tarcísio a se alinhar formalmente à legenda” e deixando a legenda de Kassab em segundo plano.
“De um lado, tem o Kassab e o PSD, um organizador de coalizão, que oferece uma quantidade imensa de prefeituras, o que não é nada desprezível, é muito importante. Esses prefeitos organizam e auxiliam a coalizão e são uma espécie de ativo eleitoral, porque fazem palanques nas suas cidades”, afirma a cientista política.
No entanto, Chaise acredita que o apoio a Tarcísio dos prefeitos que orbitam o PSD são automáticos e não depende tanto de uma vaga do partido na chapa devido aos entroncamentos já existentes entre as legendas. Soma-se a isso o eleitorado “altamente mobilizado” do PL. “Eu diria que tem uns 15% pelo menos, que se identificam com essas figuras”, diz.
Nesse contexto, “para um candidato a governador, esse segundo núcleo do PL parece bastante mais interessante no momento”. Ainda assim, Tarcísio terá de “acomodar os elementos desses dois lugares, do PSD e do PL”. “É óbvio que o Tarcísio vai ter que oferecer algum lugar para o PSD dentro da composição dele. Hoje, o Kassab exerce esse papel muito importante de secretário do governo, que inclusive foi o que permitiu ampliar essas prefeituras. Nesse eventual segundo governo Tarcísio, o PSD terá que receber algo igualmente valioso.”
Projeto de poder de Kassab não passa por competitividade nas urnas
Também na avaliação de Lincoln Telhado, cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB), o PSD deve se manter no papel de bastidor nas articulações dada a sua “condição amorfa”, menos vinculada a pautas ideológicas e identitárias. Hoje, o partido compõe o secretariado de Tarcísio, mas também está presente na Esplanada dos Ministérios — Carlos Fávaro na Agricultura, Alexandre Silveira em Minas e Energia e André de Paula na Pesca — e em aliança com governadores de esquerda em outros estados. O senador Otto Alencar (PSD-BA) confirmou que o seu partido vai apoiar a reeleição do governador Jerônimo Rodrigues (PT) em 2026, por exemplo.
Nesse sentido, “há uma equação que o comando do partido não pode romper de forma tão brusca. Ele [Kassab] tende a deixar correr um pouco mais solto e tentar negociar com o Tarcísio uma solução para compor junto com ele”, afirma o docente. “Se o PSD for escanteado da chapa do Tarcísio, vai fazer o quê? Lançar um opositor ou um concorrente ao Tarcísio? Acho muito difícil. É mais fácil tentar compor a chapa, talvez negociar uma posição para o Senado ou outra solução.”
Paralelamente, Telhado argumenta que o “projeto de poder” de Kassab “não necessariamente busca ser competitivo nas urnas”. Desde 2018, o PSD intensificou a estratégia de filiar quadros consolidados de outras siglas. Naquele ano, a legenda avançou sobre prefeitos que estavam no PSDB. O movimento se repetiu nos ciclos municipais de 2020 e 2024, quando o PSD ampliou presença e passou a concentrar o maior número de prefeituras no estado de São Paulo. Parte da articulação foi construída ainda no período pré-eleitoral de 2024.
Portanto, Telhado explica que a lógica do PSD não está centrada na aposta em candidaturas majoritárias de confronto direto, mas na atração de lideranças com base eleitoral consolidada e capital político próprio. “Você pode observar isso até no Senado. O PSD filiou vários senadores de outros partidos e eles têm uma bancada grande capturando esses parlamentares. O pessoal se elege e eles vêm depois e atraem os políticos tradicionais”, afirma.