Resumo objetivo:
A tragédia na Zona da Mata mineira, com 72 mortes e milhares de desabrigados devido a chuvas recordes, não é um evento isolado, mas resultado da combinação da crise climática com um modelo de urbanização predatório e negligente. Especialistas afirmam que a emergência climática intensifica eventos extremos, exigindo respostas do poder público, enquanto apontam que a organização econômica baseada na exploração de recursos agrava o problema.
Principais tópicos abordados:
1. Desastre ambiental e seus impactos: chuvas extremas, destruição, vítimas e desabrigados na Zona da Mata de Minas Gerais.
2. Crise climática como agravante: papel do aquecimento global em intensificar eventos extremos e vulnerabilidades pré-existentes.
3. Falhas estruturais e negligência: urbanização predatória, gestão hídrica inadequada e falta de preparo do poder público.
4. Contexto nacional e global: exemplos de outros eventos climáticos extremos no Brasil e no mundo.
5. Responsabilização: crítica ao modelo econômico (como agronegócio e mineração) e sua contribuição para as emissões de gases de efeito estufa.
Especialistas avaliam que a situação de calamidade enfrentada por Juiz de Fora, Ubá e outros municípios da Zona da Mata de Minas Gerais não é uma fatalidade, mas consequência de uma política de negligência que tem como pano de fundo o atual contexto de crise climática.
O volume de chuvas acumulado na região desde o dia 23 de fevereiro ultrapassou 733 milímetros, mais que quatro vezes o esperado para o mês e o maior índice da história da área, causando encharcamento do solo, desabamentos, inundações e um rastro de destruição que chamou a atenção de todo o Brasil. Ao todo, são 72 mortes e mais de 8,5 mil desabrigados e desalojados. Uma pessoa ainda está desaparecida.
Carla Wstane, doutora em geografia e especialista em gestão das águas urbanas, explica que o que acontece na Zona da Mata não pode ser encarado como um episódio isolado, mas deve ser assimilado pela sociedade e pelo poder público como um alerta sobre a necessidade de dar respostas ao atual contexto de emergência climática.
“A crise climática é real e inegável. E, na Zona da Mata, ela atua como um acelerador de vulnerabilidades que já conhecíamos. A atmosfera retém mais umidade, as tempestades são mais violentas e concentradas, e nosso modelo de cidade, que ignora os ciclos hídricos, colapsa. O que vemos não é apenas chuva: é o resultado de uma urbanização predatória que, ao tratar a natureza como obstáculo, transforma eventos climáticos em tragédias humanitárias evitáveis”, argumenta.
Contexto é global mas impactos são locais
Ao considerarmos que tem se tornado cada vez mais comuns eventos extremos no Brasil e no mundo, a avaliação da especialista é reforçada. Nesta quarta-feira (4), o governo federal, por meio do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, reconheceu a situação de emergência em 16 municípios, localizados, além de Minas Gerais, no Rio de Janeiro e em São Paulo, atingidos por chuvas intensas e inundações.
São eles: Água Boa (MG), Areado (MG), Cataguases (MG), Ewbank da Câmara (MG), Gouveia (MG), Itamarati de Minas (MG), Jaboticatubas (MG), João Pinheiro (MG), Mata Verde (MG), Poté (MG), Angra dos Reis (RJ), Mesquita (RJ), Nova Iguaçu(RJ), São João de Meriti (RJ), Peruíbe (SP) e Ubatuba (SP).
Em 2024, o Brasil também estampou as manchetes de jornais de todo o mundo com as enchentes e alagamentos que atingiram 2,3 milhões de pessoas no Rio Grande do Sul e devastaram cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre.
O interesse da coletividade precisa valer mais que o do grande capital
Quando não são as consequências das chuvas intensas, as cidades têm enfrentado, de forma cada vez mais frequente, os efeitos do calor extremo ou de longos períodos de seca, como explica Marta Freitas, pesquisadora, ambientalista e integrante da coordenação do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM).
“Estamos vivenciando vários problemas decorrentes da emergência climática no mundo todo. Nós temos calor excessivo, frio, chuvas intensas, escassez de água, alguns lugares com desertificação, etc. A organização de meteorologia ligada à ONU informou recentemente que 2025 foi um dos três anos mais quentes dos 176 anos que eles monitoram. Nós tivemos calor excessivo na França, chegando a mais de 40°C; tsunamis na Espanha; fortes chuvas na região de Valença; e diversas outras questões”, destaca.
Agronegócio e mineração: os responsáveis pela crise climática
Diante desse cenário, na avaliação dos especialistas, a tragédia que acometeu Juiz de Fora, Ubá e outros municípios mineiros também está inserida nesse contexto mais amplo de crise climática e, dessa forma, possui responsáveis.
Wstane argumenta que a situação, além de não ser isolada, também não pode ser considerada uma fatalidade por ser produto da forma como o capitalismo organiza as atividades e a exploração de recursos e territórios.
Segundo o Observatório do Clima, 74% das emissões dos gases de efeito estufa (GEE) — que influenciam diretamente na intensificação do fenômeno do aquecimento global — no Brasil são em decorrência do agronegócio. Em Minas Gerais, o agronegócio é responsável por 54% das emissões dos GEE.
“O agronegócio de exportação, focado no lucro do grande capital, seca mananciais com técnicas de irrigação arcaicas e destrói a regulação natural do microclima. É uma lógica onde o lucro privado é garantido à custa da resiliência hídrica de toda a população”, destaca a geógrafa.
As cidades ainda não se preparam
Além da emissão dos GEE, o desmatamento e as mudanças no uso da terra também estão na origem da emergência climática. Carla Wstane observa que, assim como o agronegócio, o atual modelo de mineração — setor expressivo em Minas Gerais — também tem um “impacto devastador”.
“A relação é direta. A mineração não apenas impermeabiliza o solo e assorea rios, ela nos coloca sob a ameaça permanente das barragens de rejeitos. Com o aumento da frequência de cheias extremas, o risco de rompimento dessas estruturas cresce exponencialmente. É uma bomba-relógio negligenciada”, alerta.
A avaliação da geógrafa é reiterada por Marta Freitas, que explica a “arquitetura” do agronegócio e da mineração, além dos danos gerados por esses setores.
“O agronegócio produz desmatamento massivo para transformar áreas nativas e matas em pasto. Isso emite gases de efeito estufa, danifica o solo e contamina a água. Também é um setor que polui o nosso solo e águas com os agrotóxicos, venenos que também são prejudiciais à saúde humana. Um dos maiores riscos dessa atividade é o esgotamento dos recursos hídricos, já que cerca de 70% de toda água potável existente no Brasil é consumida pelo agronegócio”, argumenta.
A coordenadora do MAM destaca ainda que o caso da mineração não é diferente, uma vez que o setor também é responsável pelo desmatamento de grandes áreas, consumo excessivo de água, contaminação hídrica por metais pesados e poluição do ar.
“Em Minas Gerais, além da questão da degradação ambiental, de todo o comprometimento do clima e da contribuição que essas duas atividades dão para crise climática, nós ainda temos os crimes das mineradoras”, chama a atenção Freitas.
É preciso repensar o planejamento das cidades
Diante desse cenário, o médico sanitarista e coordenador do Projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marcus Vinícius Polignano, acrescenta ainda mais um elemento. Segundo ele, nossas cidades não estão preparadas para lidar com os impactos da crise climática.
O analista destaca que, em uma catástrofe como a de Juiz de Fora, era “evidente” que os solos e rios não teriam capacidade de amortecimento do impacto daquele expressivo volume pluviométrico em um curto período de tempo. Dessa forma, para Polignano, é essencial repensar também a modulação e os projetos de cidades.
“As cidades ainda não se preparam. Quando vemos o que aconteceu na Zona da Mata, são cenas de moradias morro acima e nas beiradas dos córregos e de rios. Então, é preciso fazer realmente um novo desenho das possibilidades. Em função de chuvas excessivas e de outros riscos geológicos, as populações dessas regiões têm que ser protegidas ou removidas dessas áreas. É possível prevenir”, defende o pesquisador.
Na avaliação de Polignano, é inadmissível que a sociedade siga tratando essas tragédias como algo impossível de ser evitado. Ele cita a atual condição de Belo Horizonte como um exemplo de possibilidade de avanço.
“Há mais de 25 anos, BH tem uma política pública de identificação dessas áreas de riscos, onde a prefeitura vai gradativamente fazendo contenções, obras de proteção e atenção, visando que sejam diminuídas as possibilidades de desmoronamento e, consequentemente, os riscos para as famílias. E, nos últimos anos, mesmo com chuva e muita gente morando em áreas de morro, a cidade reduziu a quantidade de tragédias”, explica.
‘Descaso planejado’: a responsabilidade do governo Zema
O coordenador do Projeto Manuelzão também destaca que, para adaptar as cidades visando a mitigação dos efeitos da emergência climática, é preciso vontade política e recursos financeiros empenhados com esse objetivo.
Em meio à tragédia, uma apuração do jornal O Globo indicou que, entre 2023 e 2025, a gestão de Zema reduziu em 96% as despesas com enfrentamento às consequências das chuvas. O valor teria passado de R$ 135 milhões para apenas R$ 6 milhões. Zema publicou uma nota em seus canais de comunicação dizendo que a informação não é verdadeira, mas, segundo o veículo jornalístico, os dados foram obtidos no Portal da Transparência de Minas Gerais.
Além da falta de destinação adequada de recursos, Carla Wstane também destaca que a gestão do governador tem operado um “desmonte” da política ambiental em Minas Gerais, flexibilizando licenciamentos e enfraquecendo a fiscalização do setor.
“A gestão Zema escolheu o caminho da irresponsabilidade ambiental em nome de uma ‘desburocratização’ que, na prática, é um desmonte. Não é apenas sobre flexibilizar o licenciamento, é sobre a omissão deliberada. Houve uma redução drástica no investimento em infraestrutura de prevenção a inundações. Eles fragmentam políticas de saneamento e urbanismo para que nenhum setor seja realmente responsável quando o desastre acontece. É um descaso planejado”, denuncia.
Sociedade precisa se mobilizar
Diante de um poder público estadual negligente, Marta Freitas enfatiza que a sociedade precisa se mobilizar e exigir legislações mais severas, além de projetos e recursos para a prevenção de desastres, “e não apenas para respostas depois que o desastre acontece”.
“Isso é algo carente no Brasil inteiro, mas em Minas Gerais, pela sua característica, é muito mais grave. Precisamos promover a qualidade de vida para populações vulneráveis. O discurso que se fala nessas horas é de que ‘o problema é que a população ocupou áreas de risco’. Mas a realidade é que cada um mora onde consegue morar. O que falta é política social para proteger essa população”, defende.
Além dessas medidas imediatas, Carla Wstane defende que, estruturalmente, é preciso repensar o papel do Estado, que, na avaliação dela, deveria agir como um regulador e não ser cooptado pelos interesses dos setores econômicos que ajudam a intensificar a crise climática.
“O Estado precisa parar de ser balcão de negócios e agir como regulador. Precisamos de um planejamento integrado que trate saneamento e preservação de bacias como uma prioridade orçamentária inegociável. Universalizar o tratamento de esgoto e implementar metas reais de descarbonização não são medidas opcionais, são medidas de sobrevivência. Precisamos de um novo pacto socioambiental onde o interesse da coletividade e a preservação dos aquíferos valham mais do que as licenças facilitadas para o grande capital. Sem justiça hídrica, não há desenvolvimento, há apenas a próxima tragédia anunciada”, finaliza.