Resumo objetivo:
O presidente Lula afirmou que a crise alimentar em Cuba não é causada por incapacidade produtiva, mas por um bloqueio externo de motivação ideológica. Em paralelo, o governo brasileiro anunciou o envio de um carregamento de alimentos e insumos agrícolas para a ilha. Durante a conferência da FAO, Lula defendeu que o combate à fome seja uma prioridade política na região e criticou as relações históricas de exploração e os gastos globais com guerras e armamentos.
Principais tópicos abordados:
1. Crise em Cuba: A atribuição da fome e da crise energética ao bloqueio econômico externo, e não à incapacidade do país.
2. Ajuda humanitária: O anúncio do envio de alimentos e insumos agrícolas do Brasil para Cuba.
3. Combate à fome: A defesa de que a segurança alimentar deve ser uma decisão política prioritária, não tratada como ação residual.
4. Crítica geopolítica: A condenação a relações históricas de exploração, a corrida armamentista e as guerras, contrastando com a defesa da América Latina como zona de paz.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, nesta quarta-feira (4), que a crise alimentar em Cuba não pode ser atribuída à incapacidade do país de produzir. Ao discursar na abertura da 39ª Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para a América Latina e o Caribe, em Brasília (DF), ele disse que a ilha “está passando fome”, porque não querem que tenha “certas coisas que todo mundo deveria ter direito”.
A cerimônia ocorreu no Palácio do Itamaraty e marca o principal fórum regional da FAO para definir as prioridades de 2026 e 2027, com foco no combate à fome e à má nutrição na região. O encontro reúne ministros, autoridades e representantes de países latino-americanos e caribenhos, além do diretor-geral da FAO, Qu Dongyu.
No discurso, Lula citou diretamente o caso cubano ao falar do que chamou de “perseguição ideológica”. “Cuba não está passando fome porque não sabe produzir. Cuba não está passando fome porque não sabe construir a sua energia. Cuba está passando fome porque não querem que Cuba tenha certas coisas que todo mundo deveria ter direito. Não se cuida de Cuba por uma perseguição ideológica. Então não vamos ajudar Cuba porque Cuba é um país comunista?”, disse.
A fala ocorre em um momento de agravamento da crise energética e de abastecimento na ilha, em função do bloqueio econômico de décadas e da ordem executiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que ameaça impor sanções a países que “direta ou indiretamente” vendam ou forneçam petróleo a Cuba, o que ampliou a escassez de combustível e os riscos humanitários. O coordenador residente da ONU em Cuba, Francisco Pichón, chegou a defender a criação de uma “exceção humanitária” para envio de petróleo ao país.
Nesse contexto, o governo brasileiro anunciou que enviará, nesta semana, um carregamento de alimentos e insumos para a produção agrícola em Cuba. A informação foi divulgada pelo ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, durante a própria conferência da FAO. Segundo Teixeira, os insumos serão comprados no Brasil com recursos do governo brasileiro e depois disponibilizados à ilha.
‘Quando vamos acordar?’
Lula também conectou o debate sobre fome ao papel dos países latino-americanos e caribenhos na defesa da soberania e na crítica a relações históricas de exploração.
“Não é justo que depois de 525 anos ou 533 anos que fomos descobertos, a gente ainda viva sendo uma das regiões mais pobres do planeta Terra e mais injustas. Quando tinha ouro, levaram o nosso ouro. Quando tinha prata, levaram a nossa prata. Levaram o nosso suor com salário muito barato durante muito tempo. Quando é que nós vamos acordar para dizer que nós não queremos submissão?”, afirmou.
Na mesma passagem, Lula afirmou que a América Latina e o Caribe formam “a única zona de paz no planeta Terra”. “Nós somos a única zona do mundo de paz. A única zona de paz no planeta Terra somos nós”, disse. O presidente também mencionou que, no Brasil, a Constituição estabelece a opção de não possuir armas nucleares.
Ao fazer o apelo, o presidente disse que a região tem condições de garantir comida para sua população e defendeu que a pauta da fome seja tratada como decisão política. “A gente não pode tratar a questão da fome como se fosse uma questão de ONGs. Como se fosse assim: ‘se sobrar, tem. Se não sobrar, não tem’. Tem que ser tratado como uma questão de prioridade. Prioridade zero”, declarou.
O presidente ainda retomou críticas à agenda internacional marcada por guerras e pela corrida armamentista. Ele disse que armas “não são feitas para construir ou para produzir alimento” e sustentou que conflitos “destroem” e “diminuem a produção de alimentos”. Lula também sugeriu uma teleconferência entre os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, para discutir “se o que vai resolver o problema da humanidade é mais guerra ou mais paz”.