Resumo objetivo:
O vereador Osmar Ricardo (PT), aliado do prefeito João Campos (PSB), assinou um pedido de CPI para investigar o caso "fura-fila" no concurso da Procuradoria-Geral do Recife, sendo a 13ª e decisiva assinatura para abertura da investigação. Em retaliação, o prefeito exonerou o secretário Marco Aurélio Filho (PV), fazendo com que Osmar perdesse o cargo de vereador efetivo e retornasse à suplência. No mesmo dia, o presidente da Câmara, Romerinho Jatobá (PSB), arquivou o pedido de CPI, encerrando a iniciativa.
Principais tópicos abordados:
1. A ruptura política entre o PT e o prefeito João Campos, com o apoio do vereador petista a uma CPI proposta pela oposição.
2. A retaliação imediata do prefeito, com a exoneração de um secretário para realocar a cadeira do vereador.
3. A polarização do debate, com acusações de alinhamento com o bolsonarismo e a defesa do ato como uma demanda dos servidores.
4. O arquivamento rápido do pedido de CPI pela presidência da Câmara, frustrando a investigação.
Na segunda-feira (2), a cena política do Recife foi pega de surpresa com a assinatura do vereador governista Osmar Ricardo (PT), presidente municipal do Partido dos Trabalhadores e até então aliado do prefeito João Campos (PSB), em apoio à abertura de uma CPI para investigar o prefeito. O pedido é referente ao caso apelidado de “fura-fila”, envolvendo os aprovados no concurso para a Procuradoria-Geral do município. Horas após a assinatura de Osmar ao pedido de CPI, Campos exonerou o secretário Marco Aurélio Filho (PV), que retorna à Câmara do Recife, devolvendo o petista à condição de suplente. O secretário-executivo Diogo Stanley assume a pasta.
Sexto colocado entre os candidatos da federação PT-PCdoB-PV na eleição de 2024, Osmar Ricardo (PT) ficou como 1º suplente. Ele só assumiu o mandato porque Campos, já no início do mandato, convidou Marco Aurélio Filho (PV) – um dos cinco vereadores eleitos pela federação – para assumir a Secretaria de Juventude e Direitos Humanos. O PT é aliado da gestão desde 2022. Atualmente, o partido ocupa duas secretarias municipais: a de Habitação, liderada por Felipe Cury (nome de confiança da senadora Teresa Leitão); e a secretaria de Meio Ambiente, encabeçada por Oscar Barreto, irmão do vereador Osmar Ricardo.
A decisão de Osmar foi amenizada pelo presidente estadual do PT, o deputado federal Carlos Veras, que classificou como “uma decisão individual do vereador”. Em comentário público numa rede social, o vice-presidente municipal do PT, Felipe Cury, secretário de Campos, disse lamentar “que o presidente do PT Recife tenha feito isso sem debater com o partido. Nunca iremos nos aliar ao bolsonarismo”.
Em nota nas redes sociais, Osmar Ricardo – que é presidente do sindicato dos servidores do Recife (Sindsepre) – negou alinhamento com o bolsonarismo. “Minha adesão à CPI foi uma resposta às cobranças dos servidores, que consideraram o ato do prefeito João Campos um atentado ao serviço público”. Confira parte da nota.
“A CPI não é da direita nem do bolsonarismo. A CPI é do povo. (…) O meu voto acompanha o da vereadora Jô Cavalcanti, do Psol; da vereadora Flávia de Nadegi, do PV e da Federação Brasil da Esperança. Vereadoras progressistas e que estão alinhadas ao campo de esquerda. Sendo assim, é completamente infundada a tentativa de vincular a CPI ao bolsonarismo. (…) Não há, nem houve, incoerência na minha atitude.”
“Convém ressaltar que a CPI seria o momento fundamental para que as explicações necessárias para resolver esse problema fossem apresentadas e que os verdadeiros envolvidos nos fatos fossem identificados. E, assim, as cobranças da sociedade sanassem definitivamente.”
Noutra declaração, ao Blog Dantas Barreto, o petista foi menos formal e até previu a derrota do PSB na eleição estadual. “Me libertei desse povo chamado ‘Campos’, essa oligarquia que vai perder para o Governo do Estado. Foi bom o que aconteceu para o Recife saber que João Campos é um perseguidor. Eu não sou ingrato. Tudo o que fiz por ele não vale?”, afirmou. Ele agora volta a se dedicar exclusivamente às suas atividades sindicais. O Sindsepre está em campanha salarial e realizando protestos frequentes em frente à prefeitura.
O pedido de abertura de CPI precisava de 13 assinaturas entre os 37 vereadores. E a assinatura de Osmar Ricardo foi justamente a 13ª. De iniciativa do vereador bolsonarista Thiago Medina (PL), o pedido de CPI foi assinado pelos bolsonaristas Gilson Machado Filho (PL), Fred Ferreira (PL), Paulo Muniz (PL), Felipe Alecrim (Novo), Eduardo Moura (Novo), Alef Collins (PP), Davi Muniz (PSD), Rubem (PSB, mas de saída), além dos opositores Alcides Teixeira Neto (Avante), Flávia de Nadegi (PV), Jô Cavalcanti (Psol) e Osmar Ricardo (PT).
Tudo deu em nada
No mesmo dia em que o pedido de abertura de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) atingiu o número necessário de assinaturas, o presidente da Câmara do Recife, Romerinho Jatobá (PSB), arquivou o pedido. O arquivamento foi publicado já no Diário Oficial de terça-feira (3). Aliado de Campos, Jatobá alega “ausência de relevância mais que nítida, afinal, busca-se a apuração de fato inexistente”.
A justificativa para o arquivamento também traz que a troca de posições entre candidatos concursados já havia sido resolvida internamente, sem “qualquer impacto para a vida pública e para a ordem constitucional, legal, econômica e social”. A decisão pelo prosseguimento ou não da abertura de CPI cabe ao presidente da casa legislativa.
O autor do pedido de CPI, Thiago Medina, entrou com recursos para tentar impedir o arquivamento. Os pedidos de Medina serão analisados na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), composta por Rinaldo Júnior (PSB), Carlos Muniz (PSB), Gilberto Alves (PRD) e Samuel Salazar (MDB), todos aliados de Campos, sendo Salazar o líder do governo na casa.
Nesta terça-feira (3), João Campos endossou que o pedido de CPI era vazio de conteúdo. “O próprio requerente [o concursado Marko] hoje trabalha na prefeitura, já tomou posse como procurador do município. (…) O presidente [da Câmara] agiu de forma técnica, para não fazer um espetáculo político, porque é ano eleitoral e tem muita gente que deseja aparecer”, afirmou o prefeito. Campos também alega que o episódio não muda a relação entre PSB e PT visando a eleição deste ano.
O caso “fura-fila”
Em dezembro de 2025, Campos nomeou como aprovado num concurso público para a Procuradoria-Geral do município o candidato Lucas da Silva, que realizara a prova na lista de ampla concorrência, ficando em 63º, mas que fora nomeado numa vaga de cota para pessoa com deficiência (PcD). Após o concurso, ele apresentou um laudo com diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA), pedindo para ser trocado da ampla concorrência para a lista PcD. Ele é filho de um juiz que barrou uma investigação contra a gestão Campos. O candidato originalmente aprovado na lista PcD, Marko Batista, entrou com recurso, o caso ganhou repercussão e João Campos retirou da Silva, devolvendo a vaga de Batista.