A crise do Ocidente e a provocação de Raul Zibechi
Publicado 04/03/2026 às 17:16
Ideólogos e filósofos decretaram, no final do século passado, o chamado “fim da História”: o triunfo do Ocidente capitalista, democrático e iluminista perante os perigos e espectros do Oriente exótico, bárbaro e incivilizado. Se não foram essas as exatas palavras registradas nos autos e obras de autores como Francis Fukuyama, sabemos que foi esse o seu significado primevo. Tal narrativa rasteira e enviesada aos ditames ideológicos dos Estados Unidos à época tornou-se bem conhecida de todos aqueles que compreendem, minimamente, o cenário geopolítico das últimas décadas.
Macrorregiões e os seus Estados — alguns muito novos e desorganizados por décadas de ingerência estrangeira com pendores neocoloniais — reorganizaram-se no tabuleiro global do breve século XX da maneira como conseguiram após os anos paranoicos de Guerra Fria. Cada qual na tentativa de se desenvolver e criar as condições materiais mínimas para a sobrevivência de suas populações e territórios.
Todos, por óbvio, sob o domínio expansionista do modo de produção capitalista, o modelo “triunfante” deste presente eterno: ao seu encargo, uma acumulação desenfreada de capitais e o extrativismo destrutivo de nossas riquezas naturais, além das abissais desigualdades sociais e da violência cotidiana que os permeiam. Era o fim do “socialismo real” soviético e da utopia de sociedades livres, sem grilhões e sem opressões. Pois bem. Os grilhões permaneceram como “elemento natural” de nossas relações sociais, uma pena. Fim da História: assim decretou o Norte.
No entanto, entre as décadas finais de 1980 e a história vivida, os instantes que pulsam no tempo presente, um abismo se abriu sob os nossos pés: tal ordem triunfante se decompõe rapidamente. Diante disso, um olhar retrospectivo e crítico de ambas as temporalidades — mesmo que próximas cronologicamente — carece, portanto, de certo enfrentamento. Afinal, como uma pretensa ordem estável e “última”, infalível, portanto, como o ponto final na trajetória dos povos humanos nesta terra, esfacelou-se assim tão rapidamente?
Outro incômodo brota ao pensarmos especificamente o continente americano e a América Latina nesse interregno, nosso território de análise: as lideranças, movimentos e agrupamentos políticos e sociais progressistas acreditaram nesse ato derradeiro? Se assim fosse, no plano da realidade concreta, findada a História, nada mais se reformaria ou revolucionaria, nada se transformaria ou se movimentaria; seria aceito e seria, por isso, submetido.
A caducidade do “fim da História” evidencia-se quando observamos o continente latino-americano e a sua conjuntura histórica dos últimos anos. Enquanto uma onda de comportamentos, práticas e uma formatação ininterrupta de subjetividades neofascistas se espalha pelos trópicos após décadas progressistas (1996-2016), como um retorno do sombrio adquirindo novas roupagens, atrelada agora aos barões da tecnologia e da mídia, algumas (frágeis) barreiras contra a barbárie generalizada e a selvageria política se mantêm, temporariamente. É o caso do México, da Colômbia e do Brasil, países com históricos sangrentos, desde a luta pela conquista do Estado por forças nacional-populares como forma de superar os problemas estruturais de seus povos — tarefa nunca cumprida — até a brutalidade policial e militar com que seus Estados nacionais trataram (e ainda tratam, mesmo sob governos à esquerda) setores consideráveis de suas populações e essas mesmas lutas. E seus alvos são seculares, coloniais, para dizer o mínimo: populações negras (descendentes de ex-escravizados), etnias e comunidades originárias, trabalhadores precários e marginalizados (mulheres e migrantes, principalmente), lideranças populares, sindicais e, não obstante, professores e defensores dos mais básicos direitos humanos, tão negligenciados por suas democracias.
Hoje, nessas latitudes, governos democráticos negociados por frentes e agrupamentos à esquerda, com vieses humanistas e solidários nada extremistas como os seus opositores, compreenderam, melhor que nas últimas décadas (1996-2016), que “estabilidade” e “união” não fazem mais parte do vocabulário eleitoral e político, apesar de tentativas vãs. Figuras como Lula, por exemplo, insistem no erro. O outro lado da moeda, no entanto, não parece seguir as mesmas regras “democráticas” e “civilizadas”, como o caso argentino vem demonstrando, quando inundaram as ruas nos últimos dias, com força e valentia, centenas de milhares de trabalhadores contra a Reforma (Anti)Trabalhista de Javier Milei, que desestrutura e desequilibra ainda mais o mundo do trabalho argentino. A repressão nas ruas evidencia o estado de coisas nesta América.
Lideranças como Cláudia, Petro e Lula compreendem o momento, o carcomido espírito do tempo, mas não há nada no horizonte que aponte para eventuais mudanças estruturais, radicalismos ou extremismos de seus respectivos mandatários. Mais improvável ainda que pequenos grupos e partidos à extrema-esquerda logrem algum êxito real. Portanto, em Nossa América continuamos ligados às grandes potências de maneira dependente — pacífica, sob cercos militares ou ameaças econômicas diversas. Como é o caso cubano e venezuelano hoje, em que a ilha se encontra sob o estreitamento do permanente bloqueio econômico (dificultando o acesso a remédios básicos nos hospitais, por exemplo) e a ingerência norte-americana na tomada do petróleo da República Bolivariana, controlada, desde a invasão estadunidense no início de 2026, por empresas e negociatas do grande irmão do Norte.
Os governos mexicano, colombiano e brasileiro permanecem reorganizando forças para produzir o mínimo de esperança e expectativas materiais aos seus povos em um tabuleiro global movediço, em rápida e violenta fragmentação. Em outras palavras: tentam produzir consenso onde não há mais terreno para tal, como se ainda acreditassem no caduco “fim da História”. Enquanto esses consensos globais se desintegram, os quais seriam os pilares da democracia liberal-representativa e seus grandes blocos apontados como modelos e o “fim-último” sob a liderança vigiada dos EUA, caminhamos na escuridão para um cenário mais pantanoso: o “retorno da História” não como continuação do que foram as últimas três décadas, mas como colapso.
“Colapso” como confusão e fragmentação de um mundo desorientado. Tal colapso é fabricado, evidentemente, pois não foi apenas o vocabulário político de poucos anos atrás que fraturou-se, e, por isso mesmo, o parco entendimento e a pobreza ideológica das maiorias a respeito das coisas e do mundo, mas práticas e negociações, dentro e fora de seus respectivos países, parecem estranhas a esse novo mundo em frangalhos. As forças desintegradoras — neofascistas — não apresentam uma resolução para o que está posto, mas perpetuam a sua continuação, aprofundando-a. Não produzem o colapso, são o colapso.
Mais do que a linguagem (o diálogo, as tratativas civilizadas, a diplomacia etc.) como força política da expressão dos anseios de seus cidadãos, o uso da palavra e a manutenção de sua força para a fabricação de consensos se desintegram perante os nossos olhos. Polarizações e assimetrias, portanto, serão cada vez mais constantes e radicais, já que não compreendemos mais uns aos outros. Mais que o “fim da História”, estamos diante de sua aceleração. As contradições não são mais enfrentadas politicamente na busca de resoluções, mas são vistas como fatos, agora, “coerentes” desse jogo. O poder advém da desunião provocada e da performance daqueles que se nutrem dela, da confusão gerada e da exaustão de todos nós por likes, cliques, fotos…
Se a busca pelo consenso e essa pretensa estabilidade política e econômica gestadas pelo Ocidente do século passado não mais existem, pois maculadas pelas próprias potências guardiãs da “moralidade” e da tradição europeia e estadunidense nos últimos anos, o que nos restaria? Ou melhor: o que podemos esperar de um mundo em que a ilusão do “fim da História” acometeu a todos e que, neste momento, mostra o seu anverso distópico e cruel?
Perante a distopia anunciada e sobre a qual estaremos umbilicalmente conectados como parte (em termos geopolíticos) deste Ocidente triunfante, agora em pedaços, relembro Raúl Zibechi em seu Territórios em Rebeldia (2022): “Pretender evitar o colapso é inútil porque deveríamos convencer a maioria qualificada da população mundial a tomar outro rumo. Impossível. A degradação do ser humano é demasiada para que se mudem os modos de vida sem uma catástrofe. Mais ainda, duvido que uma catástrofe possa nos mudar”. Por isso, quando pensamos a América Latina, não podemos negligenciar a força de um passado que insiste em não passar e de um acúmulo de situações e acontecimentos que se desdobram desde o período colonial — que, sob certos aspectos, ainda não se encerrou.
Sobre isso, Zibechi, este intelectual uruguaio enternecido e radical, escreve: “De fato, há uma guerra contra os povos. Uma guerra colonial para se apropriar dos bens comuns, pressupondo a aniquilação daquelas parcelas da humanidade que são obstáculo para o roubo desses bens, seja porque vivem sobre eles, porque resistem a ser espoliados, seja simplesmente porque sobram, no sentido mais cruel de serem desnecessários para a acumulação de riquezas”.
Em um continente de utopias e expectativas decrescentes, violência e brutalidade cotidianas e desmedidas, percebemos que, para o capitalismo e seus barões, tais parcelas e setores humanos são facilmente descartáveis quando os mínimos consensos e civilidades caem por terra — sobrevivem aos barrotes, em morros e vielas, sob enchentes e tragédias ambientais, troca de tiros e extenuantes jornadas de trabalho, alienantes no sentido mais frívolo do termo. Sob os fragmentos da velha ordem pós-Guerra Fria, dependente e violenta sob a ótica latino-americana, seguem os países de Nossa América em sua jornada na busca por um futuro distinto daquele prometido pelo neofascismo global e suas vertentes tropicais, do colapso das democracias institucionais e da onda rosa pregressa, além dos consensos mais prometidos que entregues por suas lideranças e frentes (lembremos: as débeis barreiras que ainda nos protegem da barbárie).
Se não fazemos parte da maquinaria global que fabrica e, consequentemente, deságua no colapso vivido, como produtores da desordem generalizada via oligopólios virtuais e práticas governamentais autoritárias, da confusão e do desencantamento da realidade, sabemos de que lado estamos. Como Zibechi nos lembra, assim como apontam diferentes intelectuais latino-americanos de nosso tempo, carecemos de um retorno aos clássicos do pensamento social crítico deste continente, às suas teorias, seus argumentos, obras e reflexões que abordam temáticas caras a este mundo sob uma ótica radical. Precisamos compreendê-lo uma vez mais, sim. Mas isso não basta.
Se nos vemos enredados em percepções tão apregoadas ao século passado, nosso autor aponta para a atualidade de nosso pensamento: “uma infinidade de trabalhos sobre fábricas recuperadas, agricultura sustentável e familiar, saúde comunitária, tradicional e alternativa, educação popular e universidades, incluindo alguns artigos sobre formas de poder não estatal nos territórios autogeridos pelos movimentos sociais”. Novas formas de abordar, sentir e viver entre um mundo que não morreu e aquele que ainda não nasceu. Reler o mundo, reinterpretá-lo para, então, produzirmos algo distinto do colapso que avança.
Como escreveu lindamente o uruguaio que abraço teoricamente neste texto, se vivemos o colapso, ótimo, ao menos compreendemos a sua fatalidade. Pois bem, será este o nosso momento místico: “olhar o horror de frente, trabalhar a dor e o medo, avançar de mãos dadas, para que as lágrimas não turvem nossa jornada”.
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