Resumo objetivo:
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, adotou uma postura diplomática independente dos EUA ao negar o uso de bases aéreas espanholas para operações contra o Irã e ao criticar publicamente a abordagem belicista de Donald Trump. Segundo analistas, essa posição visa consolidar a Espanha como um contraponto progressista na Europa e evitar a escalada de conflitos no Oriente Médio, refletindo também a opinião majoritária da população espanhola. A medida gerou ameaças comerciais de Trump, mas recebeu apoio institucional da Comissão Europeia, embora destaque a falta de unidade do bloco europeu no conflito.
Principais tópicos abordados:
1. A posição diplomática independente da Espanha em relação aos EUA e ao conflito no Oriente Médio.
2. A análise da estratégia de Sánchez como contraponto progressista a Trump na Europa.
3. A divisão na União Europeia quanto ao alinhamento com os interesses norte-americanos.
4. As motivações geopolíticas por trás dos ataques, com foco no papel de Israel.
‘Ao negar uso de bases, Sánchez assume papel de contraponto a Trump na Europa’, avalia especialista
Para Moussa Bourekba, do Centro de Assuntos Internacionais de Barcelona, premiê espanhol tenta desempenhar papel diplomático para evitar escalada do conflito no Oriente Médio
Ao contrário de diversos países europeus, como França, Reino Unido e Alemanha, que adotaram uma postura alinhada aos interesses de Washington, o governo espanhol foi na contramão e condenou os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã. A atitude de Pedro Sánchez está de acordo com a população da Espanha: segundo uma pesquisa do Centro de Investigações Sociológicas (CIS), divulgada em fevereiro, cerca de 80% dos espanhóis acham que o presidente Donald Trump representa um perigo para a paz mundial.
Nesta quarta-feira (04/03), o premiê espanhol reafirmou seu posicionamento, afirmando que deve haver outras alternativas do que a ideia do mundo “só resolver seus problemas por meio de conflitos e bombas”.
Para o especialista em Oriente Médio Moussa Bourekba, do Centro de Assuntos Internacionais de Barcelona (CIDOB), a posição do primeiro-ministro espanhol tem sido consistente e estratégica.
“Pedro Sánchez se negou a participar do Conselho da Paz de Gaza, não apoiou o ataque norte-americano à Venezuela e agora se posiciona contra Trump no Irã. Ele busca se consolidar como referência da alternativa progressista na Europa, contrapondo-se ao governo reacionário de Trump”, disse.
Segundo Bourekba, a Espanha tenta desempenhar um papel diplomático ativo para evitar a escalada do conflito: “podemos observar isso quando vemos que ao mesmo tempo Sánchez é crítico ao regime iraniano, mas também não apoia o ataque unilateral dos EUA e de Israel”.
Guerra econômica
Enquanto isso, França mobilizou um porta-aviões para o Mediterrâneo e enviou caças para bases nos Emirados Árabes, demonstrando alinhamento estratégico com Washington. Já o Reino Unido autorizou que os Estados Unidos utilizem as bases do país britânico.
Por sua vez, o governo espanhol tomou uma decisão contrária ao governo britânico. Sánchez negou o uso das duas bases aéreas norte-americanas, que estão no sul do país, para operações contra o Irã — o que provocou Trump, que ameaçou cortar todo o comércio com a Espanha.
“Essas ameaças são parte da diplomacia coercitiva do presidente norte-americano. Isso não surpreende porque esse é o comportamento que ele tem com qualquer líder que vai contra seus interesses”, afirmou o especialista
Nesse ponto, a Comissão Europeia se solidarizou com a Espanha e anunciou que se for necessário o grupo vai atuar para defender os interesses do país ibérico.
Porém, de acordo com Bourekba, a Europa não está unida neste conflito. “Sánchez tem criticado a ideia de dois pesos e duas medidas que o bloco está mostrando, pois os outros países pensam que é melhor não ter Trump contra, custe o que custar.
Interesses por trás dos ataques
O motivo real do ataque norte-americano, segundo Bourekba, parece estar mais ligado a Israel do que qualquer estratégia clara dos Estados Unidos. “Não parece que Trump tenha um motivo claro e coerente para ter começado este conflito. Vimos como o presidente foi mudando suas justificativas o tempo todo. Por isso eu acredito que realmente o que desencadeou e quem o convenceu a começar esta guerra foi Israel”.
O analista lembra a luta histórica pela hegemonia regional entre Irã e Israel. Segundo ele, o objetivo do governo israelense é consolidar sua posição como único poder dominante na região, muitas vezes construindo ou exagerando ameaças para justificar ações militares.
“Os israelenses continuam mostrando sua capacidade de criar sistematicamente um inimigo em prol de dizer que o seu objetivo é manter a segurança. Historicamente Israel exagerou e até mesmo construiu essas ameaças que diz receber constantemente. Na minha opinião é errado pensar que o objetivo de Israel e dos EUA é só uma troca de regime no Irã¨.
“Os israelenses continuam mostrando sua capacidade de criar sistematicamente um inimigo em prol de dizer que o seu objetivo é manter a segurança. Historicamente, Israel exagerou e até mesmo construiu essas ameaças que diz receber constantemente. Na minha opinião é errado pensar que o objetivo de Israel e dos EUA é só uma troca de regime no Irã”.
Os bombardeios dos EUA e de Israel, que começaram no último sábado (28/02), já causaram mais de mil mortes somente no Irã, de acordo com a Agência de Notícias dos Ativistas de Direitos Humanos (HRANA).