No último domingo (22), durante o evento que marcou a filiação do senador Efraim Filho ao PL, em João Pessoa, um pastor orou por Flávio Bolsonaro e, em um "ato profético", declarou entregar "o Brasil e o futuro" ao pré-candidato à Presidência. Diante do fato, muitos evangélicos, como eu, lamentaram o messianismo e a idolatria para com um polÃtico.
Esse não é um caso isolado. A politização das igrejas evangélicas é real. à o que revela um estudo nacional realizado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem), sediado na UFPR. Mas quantos fazem isso e até que ponto essa estratégia funciona?
A maioria dos pastores não adota essa prática. Dados coletados em fevereiro de 2025 indicam que 34,1% afirmaram que lideranças de sua igreja apoiaram algum candidato nas eleições municipais de 2024 â proporção cerca de duas vezes maior que entre católicos (16,9%).
Embora a polÃtica esteja presente nos púlpitos de um terço das igrejas brasileiras, esse posicionamento é rejeitado pela maioria dos fiéis. No mesmo levantamento do INCT ReDem, 75,2% dos evangélicos declararam-se contrários à ideia de que lideranças religiosas façam campanha eleitoral durante os cultos. Por que, então, essa prática existe?
à simples: usar o púlpito como palanque dá resultado. Segundo o estudo, evangélicos que frequentam igrejas politizadas tiveram 7 pontos percentuais a mais de votos em Bolsonaro em 2022 do que aqueles que frequentam igrejas sem mobilização eleitoral. Em igrejas politizadas, Bolsonaro teve 62,4% dos votos; nas demais, 55,4%.
à positivo para o polÃtico, mas não para as igrejas e para o cristianismo. O último censo do IBGE mostrou desaceleração no crescimento evangélico. Em 2022, o segmento cresceu 5,2 pontos percentuais â0,8 ponto a menos que no censo anterior.
Também cresce o fenômeno dos desigrejados âpessoas que se declaram evangélicas, mas deixaram de frequentar igrejas. Parte dessa desaceleração parece estar ligada à insatisfação com a presença excessiva da polÃtica nas igrejas.
Indiferentes a esses dados, os pré-candidatos já buscam apoio nas igrejas e nos gabinetes pastorais. Flávio Bolsonaro participou de cultos com Pablo Marçal e André Valadão, além de se reunir com lideranças da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Do outro lado, Luiz Inácio Lula da Silva tem recebido apoio indireto do deputado Otoni de Paula, que se afastou do bolsonarismo e passou a contestar a ideia de que ser de esquerda é pecado.
Para as igrejas, o melhor caminho aos candidatos seria dialogar diretamente com esse eleitor, reconhecer sua autonomia polÃtica e compreender suas demandas. Mas lideranças têm outros estÃmulos para se abrirem para candidatos, porque quando esse apoio ocorre, há também a expectativa de que seja revertido em vantagens para denominações após a eleição.
Os efeitos da atuação de pastores não são desprezÃveis. Em disputas acirradas, podem fazer diferença. A direita tem vantagem por sua proximidade com lideranças e por representar valores conservadores. Ainda assim, pastores engajados politicamente deveriam se perguntar até que ponto vale a pena insistir em uma prática rejeitada pela maioria dos fiéis e que fere os interesses evangelizadores de sua fé.