Resumo objetivo:
A peça "A Sabedoria dos Pais", escrita por Miguel Falabella para Natália do Vale, aborda o divórcio de um casal idoso e o recomeço amoroso da personagem principal. A atriz retorna aos palcos após mais de 20 anos, interpretando uma mulher que equilibra indignação com afeto ao lidar com a traição do marido.
Principais tópicos abordados:
1. A peça teatral e seu enredo sobre divórcio e reinício na terceira idade.
2. A carreira e trajetória artística de Natália do Vale, com foco em seu retorno ao teatro.
3. A parceria histórica entre a atriz e o diretor Miguel Falabella.
4. A evolução dos personagens interpretados por Do Vale, transitando entre comédia, crítica social e dramas familiares.
Em "A Sabedoria dos Pais", peça de Miguel Falabella, em cartaz em São Paulo, sobre um casal de longa data que decide se divorciar, a personagem de Natália do Vale decide recomeçar a vida amorosa na terceira idade e reflete a sua carreira ampla de mulheres irreverentes.
Escrita pelo diretor especialmente para ela, a figura explosiva recorre a diferentes palavrões ao descobrir a traição cometida pelo marido, mas acha um modo de manter o seu carinho por ele e se distancia da moral duvidosa que a guiou pela novela "O Outro" em 1987. A diferença entre papéis não aparenta ter diminuÃdo a animação que sentia na época do folhetim, em que trabalhou com Falabella pela primeira vez.
"Antes das redes e da rapidez atual, Miguel telefonava de madrugada e passávamos horas e horas falando sobre projetos futuros", diz ela, que dividiu com o artista uma dupla de irmãos trambiqueiros âdisposta a tudo para ir atrás do dinheiro do empresário vivido por Francisco Cuocoâ na produção de Aguinaldo Silva.
Houve um tempo, porém, em que as malandragens da televisão e o divã no teatro eram realidade distante, quando a prioridade era a graduação em filosofia e aulas particulares de geografia que pagavam as suas contas. Ainda assim, deixou os desejos falarem mais alto, achou tempo para um curso de artes cênicas e foi descoberta por nomes da TV Cultura, que fizeram dela apresentadora antes do mergulho nas novelas.
Embora o prestÃgio tenha disparado de lá para cá, o seu perfil reservado, distante das redes sociais e que costuma recusar as classificações mais pomposas atribuÃdas à ela, permaneceu uma constante. Com a voz calma e paciente, ela descreve à Folha a supresa que funcionárias suas sentiram após vê-la na temporada carioca de "A Sabedoria dos Pais".
"O público pode não perceber, mas, no teatro, todo dia é diferente. As reações da plateia provocam o ator, e, a cada apresentação, um pulo ou inflexão muda. Tudo pode acontecer de maneira um pouco diferente", explica Do Vale, que vive o seu retorno aos palcos depois de mais de duas décadas. Em frente às cortinas, aliás, a sua personagem revela uma intensidade muito distante daquela com que responde à reportagem.
Logo na primeira cena, na busca por respostas sobre uma suposta amante, Júlia confronta Mauro, parceiro interpretado por Herson Capri, com todas as forças. Na mesma noite, assim que ele conclui seu discurso ao receber um prêmio, ela rouba o microfone, improvisa injúrias e torna públicos os desafetos. Nada que a impeça, na volta para casa, de debater com doçura o futuro dos filhos perante a separação.
Entre a sabedoria do envelhecer e facetas mais extremas da humanidade, a mulher reúne caracterÃsticas dos rostos que Do Vale acumulou em seu repertório. No caso da parceria com Falabella, os estratagemas de "O Outro" deram lugar, dois anos mais tarde, à "A Partilha", um dos textos mais vindouros do encenador.
No palco, onde quatro irmãs se juntam para lamentar a morte da mãe, a comédia reforçou a capacidade da atriz de ironizar os piores aspectos da sociedade brasileira. As motivações de sua Selma âque se envolve com amargor nas conversas sobre a herança familiarâ lembram, inclusive, de modo menos exagerado, à s da vilã Andréia Souza, personagem de "Cambalacho" que almejava a ascensão social a qualquer custo.
Apesar das falhas de caráter, Do Vale nunca deixou de agradecer à oportunidade, que impulsonou seu alcance na esteira de atrações como "Saramandaia" e "Ãgua Viva". Uma década após "A Partilha", agora numa interpretação mais espirituosa, ela se viu outra vez entre os elos fraternais de Selma com o espetáculo "A Vida Passa".
Minimalista, a continuação reforçou o elenco enquanto força principal da encenação e fez do humor um reflexo do amadurecimento daquelas personagens. Pouco depois, foi a vez de uma versão audiovisual da peça original, que não envolveu Falabella e nem Do Vale, mas incluiu Capri ao expandir eventos da trama.
Sete anos separaram a estreia do filme e a primeira vez em que os três trabalhariam juntos. Lançada em 2008, a novela "Negócios da China", dirigida pelo dramaturgo, reuniu os atores em um escandoloso caso amoroso e, mais tarde, em "Em FamÃlia", foi a vez de Manoel Carlos desenvolver uma paixão entre os dois.
"O Miguel sempre desenvolveu um olhar para questões contemporâneas, especialmente ligadas à famÃlia", afirma Capri, que diz ver o tÃtulo da peça como menção aos saberes que cruzam gerações. "Elas são questões sérias, mas que ele desenvolve com bastante leveza, e que dizem respeito a cada um de nós."
Convidado para o projeto após anos de planos adiados entre Do Vale e Falabella, ele também cita tópicos como a misoginia e o etarismo. Hoje, sete anos depois de sua última novela, "A Dona do Pedaço", a atriz demonstra querer enfrentar estigmas do tipo de cima do palco.
As longas gravações de episódios são uma ideia que hoje a desagradam, e certas conquistas parecem ter se materializado para o conforto de casa. "Acho bonito como a peça coloca essa possibilidade do amor na terceira idade", diz. "Podemos nos apaixonar, amar e até transar. Tenho um exemplo disso dentro em minha própria vida. Tudo é possÃvel."