Resumo objetivo:
O ex-presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro, mencionou em mensagens particulares ter participado de jantares com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira após suas eleições. As conversas, obtidas pela quebra de sigilo, revelam a rede de relacionamentos de Vorcaro com autoridades e citam um projeto de lei que beneficiaria bancos médios. O banqueiro foi preso novamente na Operação Compliance Zero, que investiga o esquema fraudulento do Banco Master baseado na venda de CDBs com taxas irreais.
Principais tópicos abordados:
1. Relações com o poder: Os encontros e conversas de Daniel Vorcaro com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira.
2. Contexto da fraude: A operação policial (Compliance Zero) e o esquema fraudulento do Banco Master, que usava CDBs com taxas altíssimas e garantia do FGC para captar recursos.
3. Interferência política: A menção a um projeto de lei do senador Ciro Nogueira que alteraria regras do setor financeiro, beneficiando bancos médios como o Master.
O ex-presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou que jantou com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), em fevereiro de 2025, após o parlamentar ter sido eleito para a chefia da Casa. O banqueiro faz referência ao encontro em mensagens que constam na sua quebra de sigilo telefônico, obtidas pela Folha.
A conversa de Vorcaro é com a namorada, Martha Graeff, em 26 de fevereiro de 2025 âMotta foi eleito no dia 1º daquele mês.
"Tô aqui em BrasÃlia trabalhando amor (sic)", afirmou o ex-banqueiro à companheira por volta das 19h30. A influenciadora tenta ligar para ele à s 20h30, sem resposta. Ele explica: "Tô num jantar na residência oficial com Hugo e seis empresários".
A reportagem procurou a equipe de Motta por WhatsApp às 23h40 desta quarta-feira (4), e não obteve retorno até o momento.
Em março do ano passado, Vorcaro fez à namorada outra menção a um encontro com Motta, e também a "Ciro", em provável referência ao senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP, a quem chamou de "grande amigo" em outra conversa. O banqueiro também cita que eles chegaram para falar com um homem chamado Alexandre na reunião.
"Me manda mensagem quando acabar aÃ. Você está com gente aÃ? Ou está me ignorando de propósito?", questiona Graeff, por volta das 0h20 do dia 3 de março.
Vorcaro responde: "Estou sim, acabou chegando Hugo e Ciro aqui pra falarem com Alexandre. Não deve demorar. Mas se vc for dormir eu saio e te chamo (sic)".
Antes de ser preso, Vorcaro cultivou diversas conexões com figuras importantes. Além disso, o banco contratou o escritório de familiares do ministro Alexandre de Moraes (STF) no valor de R$ 3,6 milhões mensais para auxiliar na defesa dos interesses da instituição financeira.
Em uma conversa de maio de 2024, Graeff pergunta com quem Vorcaro estava e ele responde: "Ã um senador. Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida".
Meses depois, em agosto, Vorcaro voltou a mencionar o senador em conversa com a namorada. "Ciro [Nogueira] soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes! Está todo mundo louco. (...) Todo mundo me ligando. Sentiram o golpe".
Vorcaro se refere a uma alteração proposta pelo senador à proposta de Emenda Constitucional 65, sobre a independência financeira do Banco Central. Pela proposta, os valores cobertos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos) subiriam para R$ 1 milhão por CPF âhoje, a cobertura vai até R$ 250 mil.
Os CDBs (Certificados de Depósito Bancário), tÃtulos de renda fixa, do Master ofereciam taxas que chegaram a 140% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário) e usavam em sua campanha de marketing a cobertura pelo FGC, para sugerir que estava livre de riscos.
A iniciativa foi alvo de crÃticas de agentes do setor bancário, que já desconfiavam do crescimento acelerado do Master e da capacidade do banco em honrar o pagamento dos CDBs prometidos a investidores.
A FRAUDE NO MASTER
A quebra do Master foi engendrada em uma estratégia agressiva do banco de vender CDBs (Certificados de Depósito Bancário) pagando taxas bem acima do mercado. Esses tÃtulos, quando adquiridos até o valor de R$ 250 mil, são garantidos pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos) â e era com base nisso que Vorcaro alavancava as captações.
A partir do final de 2024, no entanto, o Master começou a ter dificuldades em rolar os pagamentos a detentores de tÃtulos.
A suspeita dos investigadores é de que o Master tenha usado o negócio com o BRB (Banco de BrasÃlia) para esconder a fabricação de carteiras falsas de crédito consignado. Isso inflou o balanço do Master, ainda de acordo com as investigações.
Vorcaro foi solto em novembro, mas preso novamente nesta quarta-feira (4), em nova fase da operação Compliance Zero.