Principais pontos da notícia:
Pesquisadores ofereceram cristais a chimpanzés, que demonstraram grande interesse por eles, guardando-os e exigindo trocas valiosas (como bananas) para devolvê-los. O estudo, liderado por um cristalógrafo espanhol, buscou entender a atração por cristais tanto em primatas quanto em humanos, incluindo o uso histórico desses minerais. Os resultados sugerem que os chimpanzés são atraídos principalmente pela transparência e forma dos cristais, manipulando-os e priorizando-os sobre pedras comuns.
Principais tópicos abordados:
1. O experimento com chimpanzés e sua forte atração por cristais.
2. A investigação sobre a fascinação humana e pré-histórica por cristais.
3. As possíveis razões (como transparência e forma) para esse interesse compartilhado entre primatas.
Se você der um cristal a um chimpanzé, ele pode não devolver.
Pesquisadores aprenderam isso da pior maneira. Eles deram quartzo, calcita e outros tipos de cristais a chimpanzés em um centro de reabilitação. Os primatas reagiram com grande interesse, e os pesquisadores acabaram precisando trocar grandes quantidades de bananas e iogurte para recuperar o maior cristal. Outros nunca foram recuperados.
O estudo sobre chimpanzés e cristais, publicado na quarta-feira (4) na revista Frontiers in Psychology, foi uma tentativa de entender o que há nos minerais cintilantes que é tão atraente para os primos mais próximos dos primatas: nós. O estudo foi liderado por Juan Manuel GarcÃa-Ruiz, cristalógrafo do Centro Internacional de FÃsica de Donostia, na Espanha.
GarcÃa-Ruiz passou a maior parte de sua carreira investigando as propriedades materiais dos cristais, bem como suas aplicações em pesquisas. Mas ele também está muito interessado no "impacto dos cristais na história da arte e na história da mente", disse. Descobertas de quartzo e outros cristais em sÃtios arqueológicos sugerem que predecessores pré-históricos dos humanos coletavam essas pedras há pelo menos 700 mil anos. Pesquisadores não encontraram evidências de que elas tenham sido transformadas em ferramentas, ornamentos ou qualquer outra coisa útil.
Humanos contemporâneos também adoram cristais e à s vezes atribuem a eles propriedades curativas ou sobrenaturais. "Alguns colegas dizem: 'Temos que dizer à s pessoas que isso é completamente ridÃculo'", disse GarcÃa-Ruiz. "Mas para mim, o importante é dizer à s pessoas por que essa crença existe."
Para descobrir o que atraÃa nossos ancestrais aos cristais, GarcÃa-Ruiz decidiu mostrar alguns a chimpanzés. Ele e sua equipe trabalharam com dois grupos alojados separadamente na Rainfer Fundación ChimpatÃa, perto de Madri, que ajuda chimpanzés resgatados de situações difÃceis.
Para o primeiro experimento, os pesquisadores usaram dois pedestais instalados nos pátios dos chimpanzés. Em um, colocaram um cristal de quartzo multifacetado com cerca de 30 centÃmetros de altura, e no outro, uma rocha de arenito de dimensões semelhantes. (GarcÃa-Ruiz chamou esse experimento de "O Monólito", inspirado no objeto em "2001: Uma Odisseia no Espaço", de Stanley Kubrick.)
Os chimpanzés ficaram loucos pelo cristal.
Em um dos pátios, eles se aproximaram repetidamente do monólito até que a fêmea alfa, Manuela, o arrancou do pedestal. Depois disso, o cristal raramente saiu do campo de visão do grupo, enquanto eles ignoraram amplamente a rocha de arenito. Um vÃdeo mostra um chimpanzé macho de 50 anos chamado Yvan o carregando enquanto escala e come repolho, passando-o entre as mãos e os pés com grande desenvoltura.
No outro pátio, o experimento foi interrompido depois que uma chimpanzé chamada Sandy imediatamente pegou os dois itens de seus pedestais e os levou para os dormitórios, onde os cuidadores humanos geralmente não vão.
O outro grupo também acabou levando o quartzo para o dormitório. Recuperá-lo exigiu as já mencionadas negociações prolongadas com os chimpanzés, o que sugere que os animais "valorizam o cristal", disse GarcÃa-Ruiz.
Para o segundo experimento, os pesquisadores colocaram pilhas de pedrinhas nos jardins, com alguns pequenos cristais incorporados em cada uma. Os chimpanzés imediatamente separaram os cristais das pilhas.
Então os carregaram na boca, giraram-nos na luz e os seguraram diante dos olhos como garimpeiros de antigamente. Quando os pesquisadores finalmente instalaram câmeras dentro dos dormitórios dos chimpanzés, viram que Yvan ainda segurava um enquanto se preparava para relaxar em seu ninho de feno. (A equipe de pesquisa não conseguiu encontrar ou recuperar muitos desses cristais menores, disse GarcÃa-Ruiz.)
Com base em seus dados e observações, os pesquisadores propuseram que os chimpanzés foram atraÃdos pela transparência e forma dos cristais.
Eles também pareciam estar experimentando "algo além da curiosidade", disse GarcÃa-Ruiz. Observá-los deu peso a uma de suas teorias mais especulativas: ele acredita que os cristais, como "o único objeto euclidiano na natureza", podem ter ajudado os humanos a inventar a geometria e desbloquear o pensamento abstrato.
Especialistas externos foram mais cautelosos na interpretação dos resultados.
Os chimpanzés do estudo "aparentemente compartilham nossa própria fascinação por objetos brilhantes e translúcidos", disse Michael Haslam, arqueólogo do Historic Environment Scotland que estuda como os animais usam ferramentas. Mas o histórico desses chimpanzés especÃficos como animais resgatados, junto com o pequeno tamanho da amostra do estudo, torna difÃcil generalizar além disso.
E tirar conclusões mais amplas sobre exatamente por que os chimpanzés gostam de cristais âe se essas caracterÃsticas também atraÃam os ancestrais hominÃdeos dos humanos, ou influenciaram nossos padrões de pensamentoâ vai "alguns passos longe demais", disse Haslam.
Ele acrescentou que outros animais, como os pássaros-cetim, também são atraÃdos por objetos cristalinos.
"Embora a atração seja clara, a motivação subjacente não é", disse.
GarcÃa-Ruiz espera realizar experimentos semelhantes com chimpanzés selvagens. Ao contrário daqueles criados entre humanos, "eles não têm ideia sobre poliedros e geometria euclidiana", disse. "Acho que isso será ainda mais interessante."