Resumo objetivo:
O artigo relata que o trabalho remoto está sendo associado a um aumento nas taxas de fecundidade, conforme demonstrado por um estudo internacional. A flexibilidade reduz o tempo de deslocamento e facilita a conciliação entre vida profissional e familiar, incentivando alguns casais a terem mais filhos. No entanto, essa tendência contrasta com a pressão de muitas empresas pelo retorno presencial aos escritórios.
Principais tópicos abordados:
1. A relação entre trabalho remoto/flexível e o aumento das taxas de fecundidade.
2. O conflito entre a flexibilidade laboral (demandada por funcionários) e a pressão pelo retorno ao escritório (imposta por muitas empresas).
3. O debate sobre o papel das empresas e governos na resolução da crise de baixa natalidade.
Com uma bebê chorando no banco de trás do carro estacionado em frente à escola primária da filha mais velha, a empresária Nicole Greene, 39, ri ao discutir como o trabalho remoto poderia ajudar a aumentar as taxas de fecundidade.
A fundadora de uma consultoria de comunicação diz que a decisão de migrar sua agência inteiramente para o trabalho remoto foi um fator determinante não apenas para atrair talentos em um setor predominantemente feminino, mas também para decidir que poderia ter outro filho.
à medida que mais pessoas optam por ter menos filhos enquanto empregadores pressionam para que os funcionários voltem ao escritório, a decisão de Greene reflete uma tensão mais ampla entre trabalho e famÃlia. De acordo com uma pesquisa financiada pelo Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, seu cálculo de que o trabalho remoto torna possÃvel aumentar a famÃlia não é incomum.
Com base em dados de 38 paÃses, acadêmicos do King's College London, da Universidade Stanford e da Universidade Princeton concluÃram que o trabalho remoto poderia desempenhar um papel significativo no enfrentamento da queda nas taxas de fecundidade.
"A flexibilidade do trabalho está emergindo como uma das formas mais promissoras e baratas de ajudar as pessoas a terem as famÃlias que dizem querer", afirma Cevat Giray Aksoy, professor associado de economia do King's e economista-chefe de pesquisa do relatório.
"Nos paÃses mais ricos, as mulheres ainda dizem que o tamanho ideal de famÃlia é um pouco acima de dois filhos, mas a fecundidade real está estagnada em torno de 1,7 ou 1,8".
Com base em dados coletados entre 2023 e inÃcio de 2025, em um total de 11 mil adultos pesquisados, o estudo descobriu que a fecundidade âincluindo nascimentos realizados e planos declarados para mais filhosâ era maior para aqueles que trabalham de casa pelo menos um dia por semana.
Para casais em que ambos os parceiros trabalhavam de casa pelo menos uma vez por semana, a fecundidade total era 14% maior em comparação com quando nenhum dos dois trabalhava âequivalente a 0,32 filho por mulher. Os resultados se mantêm quando controlados por fatores como educação, idade ou estado civil.
A ligação entre trabalho remoto e fecundidade, diz Aksoy, passa pela redução do tempo de deslocamento e maior controle sobre o dia.
"A exigência tradicional de escritório das 9h à s 18h é um problema porque não coincide com o horário escolar", diz Greene. Trabalhar de casa permitiu que sua famÃlia saÃsse de um pequeno apartamento em Londres para uma casa maior, onde foi possÃvel ter outro filho.
à medida que paÃses enfrentam a queda nas taxas de fecundidade, Aksoy diz que governos e empresas deveriam levar o trabalho remoto a sério. No entanto, muitas empresas estão caminhando na direção oposta, exigindo o retorno ao escritório.
Bancos de Wall Street como o JPMorgan exigiram que os funcionários retornassem cinco dias por semana. A rede varejista Boots exigiu que funcionários do escritório central comparecessem a semana toda; a THG, sediada em Manchester, monitora a presença de segunda a sexta; e empresas como o HSBC alertaram que a baixa frequência poderia afetar as avaliações de desempenho.
Chefes dizem que funcionários presenciais permitem decisões mais rápidas, maior supervisão e uma cultura empresarial mais forte. Um CEO disse ao Financial Times que "não é responsabilidade das empresas resolver a crise de fecundidade de um paÃs". Embora o projeto de lei de direitos trabalhistas do Reino Unido inclua o direito "desde o primeiro dia" para funcionários solicitarem trabalho flexÃvel, ele tem enfrentado resistência.
No entanto, outras empresas veem a possibilidade de trabalhar de casa como uma forma de atrair e reter talentos. "Trabalho flexÃvel é uma estratégia de talentos, não um benefÃcio de estilo de vida", diz Rachel Gilley, CEO da empresa de comunicação Clarity Global.
A pesquisa sugere que o trabalho flexÃvel deveria estar disponÃvel para homens e mulheres se quiser aumentar a fecundidade. A análise de dados da Pesquisa Populacional Atual dos EUA descobriu que, quando a taxa de trabalho remoto em uma ocupação aumentou em 7 pontos percentuais, a fecundidade entre mulheres nessa ocupação subiu 8,5%. Quando o mesmo aumento se aplicou à s ocupações de ambos os parceiros, a fecundidade aumentou 13,8%.
A flexibilidade também pode tornar possÃvel passar por tratamentos de fertilidade. Quando a rede de supermercados Co-op introduziu licença para tratamentos em 2022, a CEO Shirine Khoury-Haq revelou que havia passado por fertilização in vitro.
Anastasia Shubareva-Epshtein, fundadora e CEO do aplicativo de bem-estar Carea, diz que em sua rede o trabalho remoto é frequentemente creditado por ajudar mulheres a passarem por tratamentos de fecundidade.
Claire McNeil, CEO da Timewise, organização sem fins lucrativos focada em trabalho flexÃvel, diz que trabalhar de casa "reduz o atrito" em torno de cuidados infantis e presença parental. O custo dos cuidados infantis aumentou tanto que uma renda dupla familiar agora é necessária.
Para alguns pais, o descompasso entre o horário comercial das 9h à s 18h e os horários de creche significa que o trabalho flexÃvel é essencial. "Sem trabalho flexÃvel e trabalho remoto, eu não estaria trabalhando ou não teria um filho", diz Chloe Benson, assessora de imprensa na Henley Business School, que tem uma filha de 18 meses.
Embora a queda nas taxas de fecundidade tenha provocado ações de muitos governos, poucas intervenções focaram no trabalho remoto. No mês passado, o governo francês escreveu para mulheres e homens de 29 anos lembrando-os de ter filhos.
No ano passado, a Hungria nacionalizou clÃnicas de fertilização in vitro e introduziu empréstimos para casais casados que são perdoados se tiverem mais filhos. A Itália introduziu um "bônus bebê", e a Polônia eliminou o imposto de renda para famÃlias com dois ou mais filhos. Uma construtora sul-coreana, a Booyoung, ofereceu aos funcionários um bônus de US$ 75 mil por cada bebê.
Algumas evidências sugerem que pagamentos em dinheiro antecipam gestações que aconteceriam de qualquer forma. Um artigo do Institute of Economic Affairs descobriu que "incentivos financeiros têm sucesso limitado e não abordam as causas raiz do declÃnio das taxas de natalidade".
à primeira vista, a expansão do trabalho remoto após a pandemia teve sucesso limitado em provocar um baby boom. As taxas de fecundidade continuaram a cair; no Reino Unido foi de 1,4 em 2024, novo recorde de baixa pelo terceiro ano consecutivo.
A Tommy's, instituição de caridade para gravidez e bebês, diz que muitas mulheres adiaram a gravidez devido a temores sobre o efeito da Covid e restrições ao parto. O fechamento de clÃnicas de fertilidade também afetou as taxas de natalidade.
Aksoy diz que o colapso de natalidade e a revolução do trabalho remoto não deveriam ser discutidos separadamente âacrescentando que a fecundidade poderia ter sido menor sem a expansão do trabalho remoto. O artigo estimou que, em 2024, o trabalho remoto foi responsável por 8,1% da fecundidade nos EUA, ou 291 mil nascimentos a mais por ano.
Para Josie Corbett, profissional de comunicação na FTI, a decisão de aumentar sua famÃlia foi possibilitada pela mudança para trabalhar mais de casa desde a pandemia, em parte porque seu marido está nas forças armadas. "A flexibilidade foi a diferença entre eu poder voltar ao trabalho ou não."