Resumo objetivo:
Após a morte do líder supremo Ali Khamenei, os EUA, diante da falta de uma revolta popular interna, consideram fomentar uma guerra civil no Irã apoiando grupos separatistas curdos. Em resposta, o Irã realizou ataques a bases de milícias curdas no Curdistão iraquiano, visando conter possíveis ações transfronteiriças. O conflito expandiu-se ainda para o Azerbaijão, com um ataque de drones a um aeroporto em Nakhchivan, aumentando as tensões regionais.
Principais tópicos abordados:
1. A estratégia dos EUA para destabilizar o Irã através do apoio a grupos separatistas curdos.
2. Os ataques retaliatórios do Irã contra bases curdas no Iraque.
3. A expansão do conflito para o Azerbaijão e os riscos de uma escalada regional.
4. O contexto histórico da repressão aos curdos no Irã e a complexidade étnica da região.
Com o fracasso em incitar uma grande revolta popular após a morte do lÃder supremo Ali Khamenei no ataque, o governo de Donald Trump estuda uma arriscada aposta numa guerra civil para derrubar a teocracia.
Em um novo desenvolvimento na guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel no sábado passado (28), o Irã promoveu ataques a vizinhos nesta quinta-feira (5) devido ao temor de que Washington incite separatismos a partir de grupos étnicos comuns aos dois lados das fronteiras.
O próprio Trump ligou para dois lÃderes de milÃcias curdas iranianas baseadas no Iraque, segundo múltiplos relatos ratificando informação do site Axios. O presidente ofereceu "ampla cobertura aérea" para uma operação transfronteiriça.
Dado o cipoal étnico-confessional da região, é mais um barril de pólvora que o fogo do conflito pode incendiar. "Grupos separatistas não devem pensar que surgiu uma brisa e eles devem tentar agir", disse o poderoso secretário do Conselho Supremio de Segurança Nacional, Ali Larijani, a figura mais forte hoje da polÃtica iraniana.
A ação mais dura foi justamente contra o Curdistão iraquiano, onde Teerã disse ter atingido sete bases de milÃcias que atuam de forma semiautônoma e estão em contato com os americanos. "Atacamos as sedes de grupos curdos opositores à revolução [islâmica do Irã] com três mÃsseis", disse a agência estatal Irna.
O Iraque já havia sido objeto da retaliação iraniana pela guerra, com drones e mÃsseis lançados contra bases americanas na região. Em Irbil, no norte do paÃs, as ações foram feitas por grupos rebeldes pró-Irã bancados por Teerã.
O ataque ocorre após a revelação de que há um plano da CIA, a agência de espionagem americana com longa história na região, para fornecer armas aos curdos iraquianos para que eles atravessem a fronteira e fomentem um movimento separatista no Irã.
Um porta-voz do Partido da Liberdade do Curdistão, um desses grupos iraquianos, disse na quarta (4) que suas forças foram procuradas pelos americanos e que estão de prontidão na área fronteiriça.
As provÃncias da fronteira oeste da teocracia têm maioria curda, etnia que compõe cerca de 10% dos 93 milhões de iranianos âo maior grupo é o persa, com aproximadamente 50% da população. Sob o regime islâmico instalado em 1979, os curdos sofreram grande repressão em sua busca por autonomia.
Houve inúmeros conflitos ao longo dos anos, mas em 2022 eles foram evidenciados ao mundo quando uma jovem curda iraniana, Mahsa Amini, morreu na cadeia após ser presa por usar um véu islâmico de forma que não agradou a uma patrulha da polÃcia religiosa.
O caso disparou enormes protestos no paÃs, só suplantados pela onda de manifestações do começo deste ano, duramente reprimida e que serviu de desculpa inicial para Trump avançar o plano de atacar o Irã.
O presidente do Curdistão iraquiano, Nechirvan Barzani, buscou baixar as tensões. A região, disse ele, "não deve ser parte de nenhum conflito".
O problema é que os grupos armados pela CIA, segundo os relatos disponÃveis, são dissidentes do governo local. à uma confusão enorme, pois os americanos são aliados de Bagdá, que não quer ver a guerra entrar em seu território.
Mas o movimento mais surpreendente do dia ocorreu no Azerbaijão, primeiro paÃs sem presença de militares americanos ou ocidentais que foi atingido pela guerra. Ao menos quatro pessoas ficaram feridas quando dois drones iranianos atingiram o aeroporto de Nakhchivan.
As Forças Armadas em Teerã negaram, em curto comunicado na mÃdia estatal, terem sido as autoras do ataque.
A região é um encrave azeri entre o Irã e a Armênia, e o terminal atingido fica a cerca de 10 km da fronteira iraniana. "O ataque contraria a lei internacional e contribui para as tensões elevadas na região", afirmou a chancelaria em Baku.
O embaixador iraniano no paÃs foi chamado para receber o protesto e um pedido de explicações. O governo azeri disse que se reserva o direito de "tomar as medidas de resposta apropriadas", sem se explicar.
No Irã, cerca de 25% da população é azeri étnica, mas o grupo é bastante integrado à vida social e polÃtica do paÃs. O lÃder supremo Ali Khamenei, morto no ataque de sábado, era um deles, por exemplo. Os azeris são aderentes do xiismo, ramo minoritário do Irã centrado em Teerã âcurdos são na sua maioria sunitas.
Duas das 31 provÃncias iranianas se chamam Azerbaijão, e a etnia é prevalente também em outras duas.
Isso dito, Teerã sempre desconfiou das intenções de Baku, onde defensores do chamado Grande Azerbaijão ficaram especialmente salientes após a vitória do paÃs sobre a vizinha Armênia acerca do controle do encrave de Nagorno-Karabakh, em 2023.
Além disso, o governo azeri é associado à Turquia, rival regional do Irã, e a Israel, que forneceu tecnologia militar vital. Além disso, Trump foi fiador de um acordo de paz entre Baku e Ierevan no ano passado, e está bancando a criação de um corredor econômico ligando Nakhchivan ao território principal do Azerbaijão.
Nesse sentido, o ataque mais limitado e depois negado ao aeroporto pode servir como um tiro de advertência acerca de intenções secessionistas.
Por fim, há relatos de que grupos da etnia balochi, que representa apenas 2% dos iranianos, estão se organizando com a ajuda americana no Paquistão, na fronteira leste da teocracia.
Até aqui, além de Israel, a retaliação iraniana atingiu outros sete paÃses no Oriente Médio. Houve também ataques pontuais contra uma base britânica em Chipre, e um mÃssil foi interceptado pela Otan rumo à Turquia na quarta.