Resumo objetivo:
A peça "A Sabedoria dos Pais", de Miguel Falabella, aborda o fim de um casamento de longa data, explorando conflitos conjugais e o envelhecimento, com atores veteranos como Natália do Vale e Herson Capri. O texto também discute uma tendência no teatro atual de misturar ficção e realidade, usando histórias pessoais e relações familiares para criar intimidade no palco. Além disso, analisa como a busca por autenticidade e controle na era digital influencia as narrativas teatrais, aproximando o público da vida privada dos artistas.
Principais tópicos abordados:
1. A peça "A Sabedoria dos Pais" e sua temática sobre divórcio e terceira idade.
2. A tendência no teatro de misturar vida real e ficção, com exemplos de outras obras.
3. A influência das redes sociais e da busca por controle na criação teatral contemporânea.
4. A colaboração de longa data entre Falabella e os atores principais.
Ciúmes, amantes e conflitos rotineiros podem acabar com qualquer casal perfeito. Pelo menos é o que acontece em "A Sabedoria dos Pais", espetáculo de Miguel Falabella sobre o fim do casamento de três décadas entre um dramaturgo e sua mulher.
O divórcio viraliza, e os anos passam conforme acompanhamos as crises e recomeços desse par. Foram dois papéis feitos sob medida para Natália do Vale, aos 72, e Herson Capri, aos 74, que, apesar de nunca terem sido casados na vida real, já formaram um par romântico na televisão.
No Teatro Bradesco, em São Paulo, onde a produção está em cartaz após uma temporada de sucesso no Rio de Janeiro, eles repensam a terceira idade. Bem-humorada, com piadas sobre a exposição nas redes sociais, a peça ilustra, por meio da ficção, como a intimidade dos artistas âe a consequente confusão entre público e privadoâ têm se tornado uma tendência nos palcos.
à o que está por trás de monólogos que misturam fantasia e realidade, como "Peça Infantil: A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay", que chega ao Teatro Cultura ArtÃstica, no centro da capital paulista, neste sábado. No espetáculo, a infância do ator Chay Suede se cruza com uma complexa trama episódica iluminada por uma obra do século 18.
Há ainda peças que reúnem familiares em cena, como "O Retorno", espetáculo sobre maternidade que reuniu Helena Ranaldi e seu filho, Pedro Waddington, e que estava em cartaz até semana passada. Agora, no final de março, ambos vão estrelar uma nova peça, esta dirigida por Ricardo Waddington, pai de Pedro.
Abordagens desse tipo ajudam a sustentar uma arte que, por natureza, depende do encontro ao vivo, do corpo a corpo. Em paralelo, no mundo das redes sociais, a intimidade é algo apenas simulado entre os Ãdolos, seus fãs e seguidores, como lembra o pesquisador Ivan Andrade.
Estudioso da influência das novas mÃdias sobre as artes cênicas e diretor assistente de Gabriel Villela, hoje em cartaz com uma montagem da tragédia "Medea", Andrade sugere que o atual excesso de estÃmulos e informações alimenta uma busca por controle que também se reflete nos palcos.
"Desde o surgimento do drama burguês [no século 18], o teatro se afastou da âfortunaâ, ou seja, da ideia do destino que não pode ser controlado", afirma. "Hoje, não só o homem acha que controla a natureza, como pensa ser capaz de moldar a realidade pelo celular. O real passa a depender da ficção e do modo com que as pessoas se apresentam."
Em "A Sabedoria dos Pais", os protagonistas elogiam a proximidade de Falabella ao longo do processo. Em ensaios, quando frases já estavam na ponta da lÃngua, o encenador os proibia de decorar diálogos, atento a gestos que pudessem dar mais autenticidade à s atuações.
"Quando ele escreve para a gente, dá a impressão de que Miguel nos observa o tempo todo", afirma Do Vale, que colaborou com o diretor pela primeira vez em 1987, quando interpretaram irmãos trambiqueiros na novela "O Outro". A relação que surgiu, descreve ela, transcendeu as telas e deu à luz uma grande amizade.
Por mais que tenha se juntado ao grupo depois, Capri completa um trio com eles. Em "Negócio da China", por exemplo, folhetim de 2008, Falabella também dirigiu outro casal formado pelos dois.
Conhecido pelos vilões sedutores de novelas como "Renascer" e, mais recentemente, "Beleza Fatal", Capri encarna, agora, um autor de teatro disposto a expurgar seus defeitos ânem que para isso tenha de tirar sarro de si. à uma estratégia que faz da investigação de falhas humanas um processo mais confortável.
"Comédias românticas são deixadas de lado a partir de uma certa idade, mas questões sobre o amor não desaparecem conforme envelhecemos", diz Falabella, que tem 68 anos e se aposentou recentemente dos musicais como ator âum outro filão cada vez mais pautado pela união da vida privada e da visibilidade midiática.
Diante de um calendário que, nos últimos tempos, celebrou figuras como Tarsila do Amaral, Tom Jobim e Rita Lee, Falabella agora está à frente de um musical sobre Gilberto Gil, que estreia em agosto. Ele promete algo distante de "artigos da Wikipédia", mas há quem veja um bocado de preguiça nesse tipo de dramaturgia.
Jorge Takla, prestigiado diretor de óperas e musicais, diz não ter interesse pelo estado atual desse mercado. "Você pega as músicas, amarra com a história de vida do protagonista e o público aparece para ver o seu artista favorito. Os verdadeiros musicais exigem anos de testes e ajustes, processo criativo que abandonamos no Brasil."
Se as máscaras de "A Sabedoria dos Pais" distanciam os atores de seus personagens, noutros casos o instrumento dramático sequer é utilizado âao menos, não com a mesma intensidade. Exemplo disso é "Cantos da Lua", espécie de stand-up com canções que disseca a vida de Luana Piovani.
Ao comentar as pressões estéticas impostas à s mulheres, seu elo com a religião e outros episódios que, como a ex-modelo diz, ilustram uma persona que "nunca se escondeu", Piovani usou a comédia para caminhar entre assentos e encarar a plateia. A peça âque estreou em Lisboa, em 2024, e foi apresentada em São Paulo até fevereiroâ selecionava causos diferentes a cada noite, em busca de espontaneidade.
Já no ano passado, com um texto menos improvisado, o lendário Othon Bastos resumiu suas nove décadas de vida num monólogo elogiado pela crÃtica. Em paralelo, perto dos 60, Claudia Raia expurgou os dramas femininos nas esquetes de "Cenas da Menopausa".
Antes disso, a jornalista MarÃlia Gabriela e seu filho Theodoro Cochrane fizeram do teatro o lugar ideal para "A Ãltima Entrevista de MarÃlia Gabriela", na qual satirizaram o sensacionalismo dos portais de fofoca.
Enfim, não faltam estratégias para aproximar a ficção da realidade de quem sobe ao palco. Desde montagens minimalistas âcomo o recente "O Figurante", em que Mateus Solano repensa seu próprio trabalhoâ até mirabolantes âcomo "A Vida", de Nelson Baskerville, com uma roleta que alternava entre relatos da trajetória dos atores em cena.
Não por acaso, na edição deste ano, a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp, recebe o autor francês Ãdouard Louis, expoente da autoficção que exorciza demônios em espetáculos inspirados em seus livros.
Por um lado, para Andrade, esse fenômeno inspira "curtos-circuitos" interessantes, especialmente quando os limites da ficcionalização não são bem definidos aos espectadores. Por outro, podem reduzir a imaginação, conforme o que se vê em cena é mais literal.
"O teatro burguês jogou tudo para o âmbito familiar", afirma. "Hoje, essa famÃlia sequer é imaginada. Ela é a famÃlia real, a famÃlia daquela pessoa que fala com você, e deixa de existir um ser imaginário entre ator e plateia."
Miguel Falabella discorda que o interesse por celebridades se sobrepõe às peças. Ele classifica as redes como uma forma de atrair jovens e diz que as artes cênicas são preservadas por um público fiel. "A gente trabalha para uma bolha, que vai ao teatro para acompanhá-lo de modo plural. No processo, acompanham também as nossas mudanças."
"A internet é o mundo do eu, onde todos fingem ser melhores do que você", diz o diretor. "Gosto de falar sobre as pequenas alegrias da vida e de um mundo onde cabem todos. Gosto de falar da gente."