A 12ª edição da MITsp apresenta espetáculos baseados nas obras do francês Édouard Louis, dirigidos pelo alemão Thomas Ostermeier, cujas narrativas sobre violência social e política dialogam diretamente com a realidade brasileira, especialmente no combate à homofobia. A mostra também expande sua plataforma nacional (MITbr) com foco regional no Centro-Oeste e realiza o PERFORMA 12H, dedicado à performance negra, reforçando seu compromisso com a diversidade. Paralelamente, o evento gera impacto econômico significativo em São Paulo, com a criação de centenas de postos de trabalho.
Principais tópicos abordados:
1. Programação artística (obras de Édouard Louis dirigidas por Thomas Ostermeier)
2. Relevância social e política dos temas (violência, homofobia, representatividade)
3. Expansão e iniciativas curatoriais (MITbr no Centro-Oeste e PERFORMA 12H)
4. Impacto econômico da mostra
A 12ª edição da Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), que acontece entre os dias 6 e 15 de março, traz na programação dois espetáculos adaptados de obras do escritor francês Ãdouard Louis com direção do alemão Thomas Ostermeier. A escolha não é casual: as "autobiografias polÃticas" de Louis, que dissecam a violência em suas múltiplas camadas sociais, encontram eco direto na realidade brasileira.
"O Brasil tem histórico de ser um dos paÃses mais violentos do mundo contra a população trans e travesti, sabemos também que se apanha e morre por ser gay neste paÃs", afirma Antonio Araujo, idealizador e diretor da MITsp ao lado de Guilherme Marques. "O espetáculo 'História da Violência', por mais perturbador que possa ser, é um libelo poético contra a homofobia. E não apenas a homofobia de um crime, mas aquela presente nas situações familiares, no trabalho, no cotidiano da população LGBTQIAPN+."
A parceria com Ostermeier não é novidade para a mostra, embora esta seja a primeira vez que o diretor alemão pisa em solo brasileiro especificamente para a MITsp. Em 2013, ele esteve no paÃs com "Um Inimigo do Povo", de Ibsen, trazido pelo Sesc. A relação, no entanto, se aprofunda: segundo Araujo, há um desejo mútuo de desenvolver um trabalho com atrizes e atores brasileiros. "A vinda destes espetáculos é uma espécie de aproximação ou de primeiro passo em relação a isso."
Sobre o olhar de Ostermeier para os clássicos, Araujo destaca que suas encenações "trazem personagens tensionadas por seus contextos sociais, que nos colocam diante de situações limites". No caso das obras de Louis, "a violência vem sempre atravessada por aspectos sociais e polÃticos. E no jogo entre o material literário e a encenação, a violência ganha ainda outras dimensões. Ela gera não apenas incômodo e perturbação, mas também uma consciência crÃtica que surge da dor, do desconforto, da situação traumática."
Um dos movimentos curatoriais mais significativos desta edição é a expansão da MITbr â Plataforma Brasil para o Centro-Oeste, em parceria com o Itaú Cultural, por meio do programa Conexões. Desde agosto de 2025, a chamada pública contemplou artistas de todas as regiões do paÃs, mas agora com um recorte regional especÃfico.
"Não considero uma reparação porque nosso olhar sempre esteve voltado à s diversas áreas do paÃs", explica Araujo. "O que ocorreu agora foi a realização de um projeto já existente no Itaú Cultural dentro do contexto da MITbr. Uma parceria onde todos saem ganhando: a MITbr ganha, pela primeira vez, um foco regional, e o Conexões e os artistas ganham a possibilidade de serem vistos por vários programadores e curadores nacionais e internacionais."
Paralelamente, a mostra realiza o PERFORMA 12H, evento dedicado exclusivamente à performance negra, com curadoria de Rodrigo Severo, cuja tese de doutorado investigou a performance negra no Brasil. O projeto, segundo Araujo, era um desejo antigo da direção, gestado antes mesmo da primeira edição da MITsp em 2014.
"Evidentemente, há uma reparação histórica a ser feita em relação à s populações negras e indÃgenas brasileiras, sem a qual não haverá futuro possÃvel para este paÃs", afirma o diretor, rebatendo a ideia de que tais trabalhos seriam "anexos" à programação principal. "Não acredito que sejam trabalhos anexos, pois têm igual peso aos outros trabalhos da MITbr e a presença de artistas negros nacionais e internacionais, sempre fez parte da programação."
Para além das questões artÃsticas e sociais, a MITsp movimenta a economia da cidade de São Paulo. Guilherme Marques, que divide a direção com Araujo, apresenta os números: "A cada edição, a MITsp gera algo em torno de 300 postos de trabalho diretos e mais de mil indiretos. Temos uma grande movimentação também na rede hoteleira, restaurantes e outros serviços que são diretamente afetados."
O desafio atual é ampliar esse impacto com planejamento. "Nós lançamos a data com antecedência, mas só anunciamos a programação com um mês antes da estreia. Nossa ideia é conseguirmos lançar com seis meses de antecedência a programação completa. Isso teria um impacto muito maior nesse turismo cultural ou, como prefiro chamar, nessa economia da cultura."
No campo da internacionalização, os números são expressivos: a MITbr já levou 40 espetáculos brasileiros para o exterior. Esse resultado, explica Marques, é fruto de um trabalho sistemático iniciado em 2017, com cursos e discussões sobre a preparação de profissionais para festivais e teatros internacionais.
"Antonio Araujo costuma dizer que temos artistas e produções com potenciais diálogos para além do Brasil. A presença de programadores nacionais e internacionais, para nós, representa algo fundamental para ampliar a circulação das artes cênicas brasileiras." Nesta edição, cerca de 100 curadores estrangeiros são esperados â ao longo dos anos, mais de 370 já passaram pela mostra.
Marques faz, no entanto, um alerta: "Além da vinda de programadores, acho fundamental polÃticas públicas consistentes nas três esferas do poder para que artistas, grupos e festivais consigam receber essas produções como também contribuir para a circulação internacional."
As Ações Pedagógicas e os Olhares CrÃticos são pilares da MITsp desde sua fundação. A inspiração, segundo Araujo, vem de experiências históricas como o festival coordenado por Ruth Escobar, que durante anos foi "importante não apenas para a cena paulistana, mas referência para artistas, teóricos, pesquisadores e curadores de todo o paÃs".
"Nossa ideia, desde a primeira edição, era gerar essa possÃvel potência de troca e discussões", afirma. "Por isso, acredito que essas ações paralelas aos espetáculos contribuem nessa formação." O retorno desse investimento, argumenta, não se mede apenas durante os dias de festival, mas na constituição de uma rede de pensamento crÃtico sobre as artes cênicas que se estende ao longo de todo o ano e por todo o território nacional.
A 12ª MITsp promete, assim, articular violência polÃtica, reparação histórica, impacto econômico e formação mantendo-se fiel à sua vocação de ser mais que uma mostra de espetáculos, mas um espaço de reflexão sobre o Brasil e o mundo contemporâneos.