Resumo objetivo:
A Polícia Federal prendeu o ex-presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro, e obteve mensagens que revelam seu contato próximo com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira. Nas conversas, Vorcaro menciona jantares e encontros com os políticos, além de comentar uma proposta legislativa de Ciro que beneficiaria bancos médios como o Master, conhecida como "emenda Master". As investigações também apontam um suposto esquema de pagamentos a autoridades organizado por Vorcaro e seu operador financeiro.
Principais tópicos abordados:
1. A prisão de Daniel Vorcaro e as mensagens obtidas pela PF.
2. Os encontros e a proximidade relatada com os políticos Hugo Motta e Ciro Nogueira.
3. A menção à PEC 65, a "emenda Master", que amplia garantias do FGC e beneficiaria o Banco Master.
4. As suspeitas de um esquema de pagamentos a autoridades organizado por Vorcaro.
O ex-presidente do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso pela Polícia Federal (PF) nesta quarta-feira (4), afirmou que jantou com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), em mensagens com a namorada Martha Graeff, em 26 de fevereiro de 2025. “Tô aqui em Brasília trabalhando, amor”, afirmou o ex-banqueiro. “Tô num jantar na residência oficial com Hugo e seis empresários.”
As mensagens foram obtidas após a quebra de sigilo telefônico realizada pela PF, à qual a Folha de S. Paulo teve acesso.
No mês seguinte, Vorcaro citou novamente um encontro com Motta e, desta vez, com “Ciro”, em provável referência ao senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP. O ex-banqueiro também se referiu ao político como “grande amigo”. “Acabou chegando Hugo e Ciro aqui pra falarem com Alexandre. Não deve demorar. Mas se você for dormir, eu saio e te chamo”, disse à namorada.
Em outra conversa, de maio de 2024, Vorcaro responde à pergunta da namorada sobre com quem ele estava naquele momento. “É um senador. Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida”, responde.
Em agosto, ele voltou a citar Ciro ao comentar a Proposta de Emenda à Constituição 65, apresentada pelo senador, que propõe mudanças no regime jurídico do Banco Central. Na conversa, afirmou que o parlamentar havia lançado um projeto com forte impacto sobre o sistema financeiro. “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro. Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes. Está todo mundo louco. Todo mundo me ligando. Sentiram o golpe”, disse.
Naquele momento, Ciro havia apresentado uma emenda que ampliava a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A mudança passou a ser chamada de “emenda Master”, por beneficiar o banco. Os CDBs (Certificados de Depósito Bancário) da instituição chegaram a oferecer rendimentos de até 140% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário) e, nas campanhas de marketing, destacavam a proteção do FGC para transmitir a ideia de baixo risco.
Em outra troca de mensagens com Martha, Vorcaro comenta o casamento de Duda Nogueira, filha de Ciro, e diz que gostaria que a namorada o acompanhasse na cerimônia, realizada em agosto de 2024. Martha pergunta qual é o sobrenome de Ciro e se ele era pai de Duda. Vorcaro confirma. Em seguida, Vorcaro pergunta se Martha pretende ir ao casamento. “Eu queria que você fosse comigo. Se você ficar, dá para ir”, escreve.
No fim do mesmo mês, ele afirma que conversaria com Fabíola, sua ex-esposa. Martha responde dizendo que já havia pensado nisso e sugere que ele mencione abertamente o casamento da filha de Ciro para evitar constrangimentos. “Que ótimo, amor, eu estava pensando nisso, inclusive de você falar também do casamento da filha do Ciro abertamente, pra evitar uma situação chata de antemão. Não vai ser uma conversa fácil. Boa sorte, amor. Aqui torcendo”, diz a namorada.
Em nota à imprensa, a assessoria de Ciro Nogueira afirmou que o senador troca mensagens com centenas de pessoas, o que não significa proximidade com todos. “Ciro Nogueira volta a destacar que está tranquilo quanto às investigações da Polícia Federal nas denúncias que envolvem o empresário, uma vez que não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em apuração”, completou.
Em outras mensagens, Vorcaro cita uma espécie de fila de pagamento a autoridades com o seu operador financeiro e cunhado, Fabiano Zettel, que também foi preso nesta quarta-feira (4). O esquema funcionaria da seguinte forma: Vorcaro passava uma relação de pagamentos a serem realizados a Zettel, que, por sua vez, elencava uma lista de prioridade. Aos mais próximos, o pagamento poderia esperar. “Esse é muito de casa, podemos pagar depois”.
Além disso, Vorcaro chamou Jair Bolsonaro (PL) de “idiota” ao criticar uma publicação feita pelo ex-presidente no X sobre a fraude no Banco Master. “O pior de ontem foi o Bolsonaro postado. Recebi mais de mil mensagens no Instagram”, disse Vorcaro à Martha Graeff, em 13 de julho de 2024.
Na publicação, Bolsonaro compartilhou uma reportagem do jornal O Globo que informava que gerentes da Caixa haviam sido demitidos após barrar uma operação de R$ 500 milhões considerada arriscada e atípica. A transação envolvia a compra de títulos do banco Master. “Os senhores não leram errado. Impediram de acontecer e foram DEMITIDOS. Não é mais questão de todo dia, mas sim a cada hora. Por isso o sistema está agindo com tanto afinco em suas ações”, escreveu Bolsonaro.
“Idiota. Depois todos os amigos, o próprio Ciro [Nogueira] ligou. Mas não tinha como tirar. Cara é um beócio”, disse Vorcaro. “Twitter é terra de ninguém”, responde Martha.
Vorcaro preso
As prisões realizadas nesta quarta-feira (4) integram a terceira fase da Operação Compliance Zero. A investigação apura a possível prática de crimes como ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos. As condutas são atribuídas a uma organização criminosa.
De acordo com os investigadores, o esquema envolve a comercialização de títulos de crédito falsos por meio do Banco Master. O nome da operação faz referência à “ausência de mecanismos eficazes de controle interno” nas instituições envolvidas. Segundo a apuração, essa falha teria permitido a ocorrência de gestão fraudulenta, lavagem de recursos e manipulação de mercado.
Na decisão que autorizou a operação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça afirmou que Zettel seria o responsável por repasses financeiros para “A Turma”. O grupo é descrito como uma organização articulada dedicada a vigiar e coagir pessoas consideradas adversárias.
Com base em relatórios da Polícia Federal, Mendonça descreve “A Turma” como uma “estrutura utilizada para realizar atividades de monitoramento e coleta de informações de interesse do grupo investigado, bem como pela prática de atos de coação e intimidação de pessoas”. Entre os alvos estariam concorrentes empresariais, ex empregados e jornalistas.
Em mensagens trocadas com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado no celular de Vorcaro como Felipe Mourão e apelidado de Sicário, o banqueiro diz ao comparsa que teria de “moer essa vagabunda”, em referência a uma empregada que o estaria ameaçando.
Mendonça afirmou que Sicário era o “responsável pela execução de atividades voltadas à obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e neutralização de situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo investigado”. Segundo as investigações, ele recebia pagamentos mensais de R$ 1 milhão. Mourão teve morte encefálica na Superintendência da Polícia Federal em Belo Horizonte após ser preso e tentar tirar a própria vida.
O ministro também mencionou a “natureza violenta” da organização ao citar diálogos entre Mourão e Vorcaro sobre um jornalista que havia publicado reportagem considerada desfavorável aos interesses do banqueiro. “Deveria colocar gente monitorando esse indivíduo. Para levantar tudo sobre ele”, escreveu Vorcaro. Mourão respondeu que iria “cuidar disso”.
Em outra mensagem, Vorcaro afirmou: “quero mandar agredir ele. Arrebentar toda a arcada dentária. Num latrocínio”, ao se referir ao jornalista. Na manhã desta quarta-feira (4), o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, afirmou ser o alvo das mensagens citadas na decisão judicial.
“Diante de todos esses diálogos, constata-se a existência de fortes evidências de que Vorcaro ordenou a Mourão que forjasse um roubo, ou criasse situação análoga, para lesionar violentamente o referido jornalista e, com esse episódio, silenciar a imprensa que ousasse expressar posicionamento contrário aos seus interesses particulares”, escreveu o ministro André Mendonça.