A artista plástica Graça Craidy expõe 12 obras sobre feminicídio na Assembleia Legislativa do RS, integrando o lançamento do Relatório Lilás 2026. A exposição visa denunciar e conscientizar sobre a violência de gênero, tema que a artista aborda desde 2015, coincidindo com a criação da Lei do Feminicídio. O relatório alerta para a grave situação no estado, que lidera as estatísticas nacionais em 2026, registrando um aumento alarmante de casos.
Principais tópicos abordados:
1. A exposição artística de Graça Craidy como forma de denúncia e conscientização sobre feminicídio.
2. A crise do feminicídio no Rio Grande do Sul, destacada pelo Relatório Lilás 2026.
3. O papel da arte e da educação na luta contra a violência de gênero e a cultura machista.
4. A trajetória e o impacto social das obras da artista, expostas em diversas instituições desde 2015.
Desde 2015, a artista plástica gaúcha Graça Craidy produziu uma coleção com cerca de 60 obras sobre feminicídio e violência contra a mulher, a fim de denunciar os crimes e ajudar a conscientizar a população em favor do fim dessas práticas delituosas. Com 20 mulheres assassinadas em janeiro e fevereiro deste ano, o Rio Grande do Sul inicia 2026 como líder nacional nas estatísticas do feminicídio.
Por isso, neste mês de março dedicado às mulheres, 12 obras da artista, do recorte intitulado Meu bem, meu mal, foramn expostas na Assembleia Legislativa do RS, integrando o ato de lançamento do Relatório Lilás 2026, da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Casa. Os quadros, acrílica sobre tela e sobre papel, variam de 60 x 40 cm a 1.80 x 3.60 m. A mostra permanecerá aberta à visitação até as 18h de sexta-feira (6), no Espaço de Exposição Dep. Carlos Santos. A entrada é gratuita.
A primeira exposição de Craidy nessa temática coincidiu com o surgimento da Lei do Feminicídio, que tipificou o assassinato de mulheres por razões de gênero como crime hediondo no país, em 2015. De lá para cá, em praticamente todos os meses de março as obras de sua coleção foram expostas em instituições como Tribunal de Justiça do RS, Justiça Federal, Tribunal Regional do Trabalho, Memorial do Ministério Público, Associação dos Juízes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e Universidade Federal do Paraná (UFPR) – Campo Mourão, entre outras.
As obras da artista também ilustraram capa de livros sobre o tema, como o de autoria da primeira desembargadora gaúcha, Maria Berenice Dias (aposentada), e foram objeto do estudo acadêmico no Instituto de Artes da Ufrgs.
“Até que a morte nos separe”
Além do recorte Meu bem, meu mal – título que alude ao contexto onde geralmente acontecem os crimes, dentro de casa, muitas vezes diante dos filhos, praticado pelo marido, companheiro, namorado ou um ex que não aceita a separação –, Graça também expõe os recortes Até que a morte nos separe – pinturas a partir de fotos das cenas dos crimes publicadas em jornais –, Livrai-nos do Mal – que aponta as violências referidas na Lei Maria da Penha –, Feminicidas, o machismo que mata – na qual os homens são representados com revólveres no lugar do pênis – e Estupro – que retrata abuso sexual coletivo cometido por homens contra uma mulher, como, no momento, repete-se no Rio de Janeiro.
Mudança pela educação
A artista defende que é preciso “mudar a cultura do machismo, do senhor proprietário, da mulher propriedade”, o que, acredita, só vai acontecer pela educação.
Aos 74 anos de idade, Graça Craidy acredita que a arte pode sensibilizar pessoas com poder de interferir para a reversão do atual quadro. “A arte não pode impor igualdade, barrar o gesto nem conter o tiro. Mas quem é tocado pela arte pode.”
Expressionista, ela soma dezenas de individuais e coletivas, em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília; no exterior, já apresentou uma mostra individual na Itália, onde também fez cursos em Roma e Florença.
Relatório Lilás
Com 165 páginas, o Relatório Lilás reúne uma série de textos, entre os quais o do presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos, deputado Adão Pretto Filho (PT). Ele diz que a realidade brutal “exige resposta enérgica, estrutura institucional e, acima de tudo, compromisso com a vida das mulheres”. Dado trazido por Pretto aponta que, em abril de 2025, o RS registrou um aumento de mais de 1.000% nos casos de feminicídio em comparação com o mesmo período do ano anterior. Em um só mês, 11 mulheres foram vítimas de feminicídio.
Em sua 4ª edição, o Relatório Lilás conclui que “a combinação de medidas judiciais céleres, mutirões processuais, capacitação da rede de proteção, educação para a igualdade de gênero e reeducação dos autores de violência, juntamente com o envolvimento em ações promovidas por outros órgãos, tem gerado resultados significativos”.
O documento destaca o trabalho realizado com os Grupos Reflexivos de Gênero, “que têm demonstrado notável eficácia na redução da reincidência. Essa abordagem reconhece que o enfrentamento efetivo da violência doméstica requer não apenas a punição dos agressores, mas também sua reeducação e transformação comportamental”.
As conclusões do relatório assinalam que “o conjunto dessas iniciativas representa um importante avanço na construção de uma sociedade mais igualitária e livre de violência, alinhando-se aos objetivos da Agenda 2030 da ONU e contribuindo para a efetivação dos direitos humanos das mulheres”.
Casos consumados e tentados
O Brasil registrou 6.904 vítimas de casos consumados e tentados de feminicídio em 2025, o que representa um aumento de 34% em relação ao ano de 2024, quando houve 5.150 vítimas. Foram 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, totalizando quase seis (5,89) mulheres mortas por dia no país. Os dados são do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina/PR (Lesfem/UEL).
No início de fevereiro, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário firmaram o Pacto Brasil entre os Três Poderes para Enfrentamento do Feminicídio.