Resumo objetivo:
Os ataques de Israel e EUA ao Irã, que incluem a morte de Ali Khamenei e destruição de infraestrutura, não têm como objetivo a ocupação territorial, segundo analista. O conflito focaliza principalmente a relação estratégica do Irã com a China, especialmente em petróleo e influência geopolítica, enquanto os EUA priorizam a força militar e as sanções. Apesar da tensão, avalia-se que não há risco de guerra mundial, pois não há confronto direto entre grandes potências, e a China evita envolver-se militarmente.
Principais tópicos abordados:
1. Ofensiva militar contra o Irã e seus impactos.
2. Objetivos geopolíticos dos EUA, com foco em conter a influência chinesa.
3. Papel da China e sua estratégia de não envolvimento em conflitos.
4. Análise sobre a improbabilidade de uma guerra mundial.
Os bombardeios de Israel e Estados Unidos contra o Irã completam quase uma semana, marcados pelo assassinato do líder supremo Ali Khamenei, destruição de prédios políticos, emissoras de TV, grupos de comunicação e civis mortos durante a agressão.
Para Reginaldo Nasser, analista internacional e professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a ocupação não é um objetivo do governo dos Estados Unidos desta vez. Como comparação, ele cita as operações no Afeganistão e no Iraque. “Washington gastou trilhões de dólares e não conseguiu efetivamente dominar o território”, explica ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
Para o analista, o ponto deste conflito mira especialmente a relação do Irã com a China, evidente no fornecimento de petróleo e fortalecido pela localização estratégica do Irã, entre Oriente Médio e Ásia.
“Em primeiro lugar, é preciso estar atento que, no momento, são duas lógicas bem distintas que movem os Estados Unidos e China. Enquanto Washington opta pela força, mesmo através de sanções econômicas, Pequim, por outro lado, tem ganhado durante esses últimos 10 anos uma projeção devido à aproximação comercial, econômica, investimentos e infraestrutura no mundo inteiro”, destaca.
Nasser chama atenção para a Arábia Saudita, que, hoje está indo no centro das questões, “porque tem base militar norte-americana e sempre foi aliada dos Estados Unidos, mas a China compra mais petróleo da Arábia Saudita do que do Irã”.
Enquanto estrategistas dizem que é preciso sempre ter um objetivo principal, de médio ou longo alcance e há a especulação de que Trump opera com vários objetivos para evitar a comprovação de um eventual fracasso, o analista pondera que “todos esses objetivos podem estar presentes” na ofensiva da Casa Branca contra Teerã.
Nasser também é contrário à narrativa de que Trump é “mais belicista” comparado a outros ex-presidentes dos EUA. Ele lembra que o conflito começou no ano passado com o chamado “eixo da resistência” construído pelo Irã – com o Hezbollah no Líbano, os houthis no Iêmen, as milícias no Iraque e na Síria.
Mas a resposta nesse cenário foi uma ação do serviço de inteligência de Israel, que se infiltrou no Hezbollah e começou uma série de atentados, decapitações. Aniquilaram a liderança do grupo de resistência libanês. Além disso, Israel atacou a embaixada do Irã na Síria e depois o próprio país persa.
“O Irã estava na mesa de negociação com os Estados Unidos. E o ataque de Israel foi possível devido à infiltração do serviço de inteligência. As pessoas se assustaram com a facilidade com que Israel fez isso. A partir daí, abriram-se as portas para atacar o Irã quando quisessem”, destaca.
Apesar do Irã ter um alto poder de destruição de ataque e estar demonstrando isso, por outro lado, o sistema de defesa de Teerã é muito frágil. “Os Estados Unidos e Israel estão atacando de forma quase livre”, acrescenta.
No meio de uma grande preocupação de acontecer uma terceira guerra mundial, Nasser relembra que as duas grandes guerras tinham algo em comum: grandes potências em conflito direto.
“Não é o caso. Você pode ter tensões regionais, mas não guerra mundial porque justamente não tem grande potência envolvida diretamente”, descarta a possibilidade que é pautada desde 11 de setembro.
Sobre a China, Nasser explica que os estrategistas chineses estudam o colapso da União Soviética, e com isso Pequim consegue evitar dois fatores. “Primeiro é uma economia integrada ao mundo e não um bloco fechado, segundo que não se envolve em conflitos militares globais. Alguns podem ver isso como fraqueza num primeiro momento, mas ela está assistindo.”
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