Resumo objetivo:
Donald Trump anunciou uma guerra indefinida contra o Irã sem apresentar uma justificativa convincente de ameaça iminente, diferindo da abordagem de governos anteriores que buscavam construir apoio público para conflitos. Seu governo demonstra indiferença em relação à opinião pública, como evidenciado pela baixa adesão popular à guerra e pela falta de esforços para fabricar um consenso ou uma narrativa coerente sobre a necessidade do conflito.
Principais tópicos abordados:
1. A declaração de guerra de Trump ao Irã sem justificativa clara ou urgência.
2. A indiferença do governo Trump em relação ao apoio público, contrastando com a campanha de propaganda anterior à Guerra do Iraque.
3. A falta de esforço para construir uma narrativa coerente ou apresentar fatos que legitimem o conflito.
Na noite de sexta-feira, Donald Trump anunciou o início de uma guerra sem prazo definido contra o Irã. Em seu discurso confuso de oito minutos, ele enumerou uma série de crimes, supostos e reais, cometidos pelo Irã, remontando à crise dos reféns de 1979. No entanto, ele fez pouco esforço para argumentar que o país representa uma ameaça iminente aos Estados Unidos em 2026, a ponto de a guerra ser a única opção. Aliás, como disse Branko Marcetic, da revista Jacobin, a guerra parece tão manifestamente desnecessária que “nem mesmo o homem que a está travando parece saber por que a iniciou”.
Uma semana antes, seu embaixador em Israel, Mike Huckabee, concedeu uma entrevista ao comentarista de direita Tucker Carlson. Nunca disse uma palavra gentil sobre Carlson antes, e não pretendo começar agora, mas a entrevista incluiu uma troca de ideias notável sobre a opinião pública.
Carlson: Qual a porcentagem de estadunidenses que apoiam uma guerra com o Irã?
Huckabee: Não sei. Você sabe?
Carlson: Sim. Vi os números ontem. Acho que estava em torno de 21%.
Huckabee: Certo.
Carlson: Isso é suficiente para justificar uma guerra com o Irã?
Huckabee: Não vivemos num mundo em que se faz uma pesquisa para descobrir se a nossa polícia deve seguir uma determinada direção.
Este é um nível de indiferença declarada em relação às opiniões da população que se poderia esperar de um diplomata do século XVIII a serviço do Antigo Regime francês pré-revolucionário. A grande maioria do público discorda das decisões do rei? Bem, e daí? Não é da conta deles!
Na preparação para a invasão do Iraque por George W. Bush em 2003, ele e sua administração passaram vários meses trabalhando arduamente para conquistar o apoio da opinião pública. No discurso sobre o estado da União, proferido dois meses antes do início da guerra, Bush dedicou dezenas de parágrafos a alegações de que o ditador iraquiano Saddam Hussein possuía “armas de destruição em massa” (ADM) que ele poderia compartilhar com a Al-Qaeda. Seu vice-presidente, Dick Cheney, advertiu de forma sombria que, se os estadunidenses esperassem por uma “prova irrefutável” sobre as ADM do Iraque, essa “prova irrefutável” poderia ser uma “nuvem em forma de cogumelo” sobre uma cidade estadunidense.
Um mês antes do início da invasão, o secretário de Estado de Bush, Colin Powell, amplamente considerado um dos moderados mais confiáveis dentro do governo, fez um discurso no Conselho de Segurança das Nações Unidas apresentando os argumentos a favor da guerra. Powell exibiu um frasco de antraz e compartilhou gravações interceptadas de motoristas de caminhão iraquianos falando sobre “caminhões especiais”, que Powell garantiu aos seus espectadores serem referências a um laboratório móvel de armas químicas.
Tudo não passou de uma teia de mentiras. Mas o que se destaca, em contraste com a guerra que Trump acabou de iniciar no Irã, é que o governo Trump parece não se importar em fabricar consenso. Trump, Huckabee e o resto da turma simplesmente não consideram o consentimento do público relevante.
Na semana passada, Trump fez o discurso sobre o estado da União mais longo da história dos EUA. A transcrição tem dez mil palavras. Nela, há apenas dois parágrafos sobre o Irã. Três dias antes de iniciar uma guerra para mudar o regime em um país quatro vezes maior que o Iraque e com uma capacidade de autodefesa muito maior do que os iraquianos tinham em 2003, o Irã parecia ser a última coisa na mente do presidente.
“A atitude de Trump aqui, como em tantos outros assuntos, parece ser: ‘Quem vai me impedir?’”
Nos últimos meses, o governo não só deixou de fazer campanha para angariar apoio público, como também não se dá ao trabalho de apresentar uma versão coerente dos fatos. Quando Trump bombardeou o Irã no ano passado, o governo alegou que a operação havia destruído “completamente” o programa nuclear iraniano e atrasado em uma geração qualquer perspectiva de desenvolvimento da bomba pelo país. Quando Trump anunciou uma guerra com objetivos extremamente vagos, uma guerra que começou com o assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, o máximo que ele conseguiu fazer foi insinuar vagamente que o Irã estava tentando retomar o desenvolvimento do programa. Mas, de alguma forma, essa é considerada uma ameaça tão grave, tão urgente, que a guerra precisava ser iniciada imediatamente, enquanto as negociações entre os Estados Unidos e o Irã estavam em curso.
Trump enfatizou bastante a alegação, como afirmou no breve desvio sobre o Irã em seu discurso sobre o estado da União, de que o Irã “já desenvolveu mísseis que podem ameaçar a Europa e nossas bases no exterior, e está trabalhando para construir mísseis que em breve atingirão os Estados Unidos da América”. Mas qualquer pessoa cuja memória remonte a 2025 se lembrará de que a liderança iraniana é tão cautelosa que, mesmo após o último bombardeio surpresa de Trump, contentou-se com uma retaliação em grande parte simbólica, disparando alguns mísseis contra uma base estadunidense no Catar e avisando o país vizinho com antecedência para garantir que não causassem danos suficientes que levassem a uma escalada séria. Devemos acreditar que o mesmo regime está tão desesperado para cometer suicídio nacional que teria disparado mísseis balísticos intercontinentais contra os Estados Unidos no momento em que os desenvolveu?
Não é de admirar que apenas 21% do público — ou seja, apenas cerca de dois terços, mesmo da base mais fiel de apoiadores do MAGA, que normalmente apoia qualquer decisão do presidente — quisesse uma guerra com o Irã. Mas o presidente simplesmente não se importa.
Em 2002, o Congresso votou a favor da autorização para o uso da força militar no Iraque. Muitos democratas foram assombrados por seus votos a favor da guerra por muitos anos. Desta vez, Trump nem se deu ao trabalho de pedir a aprovação do Congresso. A Constituição especifica que os presidentes não podem entrar em guerra sem autorização do Congresso, mas a atitude de Trump aqui, como em tantos outros assuntos, parece ser: “Quem vai me impedir?”
Guerra e democracia
No primeiro dia de combates, mais de cento e cinquenta meninas foram mortas quando um míssil atingiu uma escola. Uma imagem de uma mochila ensanguentada circulou amplamente nas redes sociais. Em meio à confusão da guerra, surgiram diversas alegações sobre a autoria do míssil. Dos Estados Unidos? De Israel, que participou do ataque? Do próprio Irã, que teria atingido a escola acidentalmente ao tentar revidar? As evidências atuais apontam para os Estados Unidos. Mas, seja qual for a verdade, uma coisa é certa: incidentes como esse se repetirão inúmeras vezes se a guerra se prolongar.
As principais vítimas da guerra serão o povo iraniano, bem como as populações dos outros países onde os combates já se alastraram. Mas esta guerra, como todas as outras guerras estúpidas do passado, será uma péssima notícia para a classe trabalhadora estadunidense.
Em seu discurso de sexta-feira à noite, Trump disse que devemos estar preparados para ver “heróis estadunidenses” morrendo no Irã. O que ele não disse, e nem precisava dizer, é que todos nós sabemos perfeitamente quem serão esses “heróis estadunidenses”.
“A guerra revela a extensão e a selvageria das desigualdades de uma sociedade de maneiras que poucas outras coisas conseguem.”
A guerra revela a extensão e a selvageria das desigualdades de uma sociedade como poucas outras coisas conseguem. Em países bombardeados, os ricos têm muito mais facilidade para se refugiar em locais seguros, enquanto os pobres são deixados para morrer. Em países que enviam soldados para lutar no exterior, os corpos que retornam em caixões cobertos com a bandeira estadunidense são sempre os de filhos da classe trabalhadora. E Trump sequer se deu ao trabalho de fazer uma campanha de propaganda para convencê-los de que seu sacrifício era necessário.
Declarar guerra contra um país que não representa nenhuma ameaça minimamente realista aos Estados Unidos seria ultrajante mesmo que apenas 21% da população fosse contra. Mas o que Trump está fazendo no Irã é ainda pior, porque a obscenidade da própria guerra é agravada pelo profundo desprezo de Trump pela democracia.
No sábado, Trump anunciou que a operação continuaria “durante toda a semana, ou pelo tempo que for necessário para atingirmos nosso objetivo de PAZ EM TODO O ORIENTE MÉDIO E, NA VERDADE, NO MUNDO TODO!” Em outras palavras, os combates, as mortes e o potencial sacrifício de “heróis estadunidenses” durarão o tempo que ele quiser.
O resto de nós não será consultado.
é professor de filosofia e autor de Give Them An Argument: Logic for the Left. Ele faz um quadro semanal chamado "The Debunk", no The Michael Brooks Show.