O celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, apreendido, contém informações que ameaçam atingir políticos de todo o espectro, com impacto potencialmente ampliado por uma possível delação premiada. A situação é comparada ao auge da Lava Jato, mas com uma diferença crucial: desta vez, há ministros do STF sob suspeita, o que adiciona incerteza ao desfecho. O artigo aponta que, apesar das forças que pressionam por um amplo acordo para encerrar as investigações, o contexto eleitoral e a gravidade dos fatos podem tornar inevitável um aprofundamento das apurações.
Como previsto, o celular de Daniel Vorcaro vai produzindo vÃtimas, incluindo o próprio ex-banqueiro, agora recolhido à prisão preventiva. Pelo teor de colunas de bastidores que leio, o aparelhinho traz munição para causar uma razia tanto nas fileiras da direita como nas da esquerda e do centro. E as revelações contidas no telefone podem ser magnificadas por uma eventual delação premiada de Vorcaro, que vai ficando sem opções.
Já vivemos esse clima antes. O leitor há de se lembrar do auge da Operação Lava Jato e das listas de Janot. A sensação que se tinha ali é a de que poucos polÃticos escapariam. Alguns até caÃram, provisória ou definitivamente, mas a República segue viva e povoada mais ou menos pelas mesmas figuras. Quem passou mais perto de um diagnóstico em 2017 foi o então senador Romero Jucá, com seu vaticÃnio de que seria preciso "estancar a sangria, [...] com o Supremo e com tudo". Curiosamente, ele mesmo, Jucá, caiu, mas a sangria foi estancada. Até multas das empresas que confessaram ilÃcitos foram anuladas.
Como naquela ocasião, assistimos agora a um embate entre forças que querem a continuidade das investigações e as que pressionam por um acordão. Existem, porém, diferenças importantes. A primeira é que, desta vez, há ministros do STF envolvidos em suspeitas e isso acrescenta muitas incertezas em relação ao desfecho.
O Judiciário é, de longe, o mais corporativista dos Poderes, o que em princÃpio joga a favor do acordão, mas não sei se é tão simples. A exemplo de polÃticos do centrão, os magistrados até carregam o caixão até a beira da cova, mas não entram nela junto com o morto. Se surgirem mais fatos contra Toffoli, Moraes ou algum outro, cortar na carne do STF talvez se torne inevitável.
Para adicionar mais camadas de complexidade, o escândalo Master corre em paralelo ao do INSS, igualmente ecumênico, e estamos num ano eleitoral.
Meu saudável ceticismo faz com que eu ponha minhas fichas no cenário do acordão, mas essa é uma aposta que torço para perder.