Resumo objetivo:
O artigo analisa a polarização política em debates públicos, observando que a simples apresentação de dados não gera consenso porque os lados opostos partem de "certezas fulcrais" e gramáticas distintas. Essas visões de mundo definem critérios diferentes para o que conta como evidência válida, problema relevante ou solução aceitável. Como saída, sugere-se que, em vez de buscar vencer no embate factual, é necessário disputar os valores que organizam a vida coletiva.
Principais tópicos abordados:
1. A ineficácia de dados e fatos para superar polarizações em debates públicos.
2. O conceito de "desacordo profundo" e "certezas fulcrais" como base de visões de mundo incompatíveis.
3. A diferença entre gramáticas políticas (ex.: foco no indivíduo versus estruturas sociais) que moldam a interpretação da realidade.
4. O agravamento desse impasse no contexto das desigualdades históricas brasileiras.
“Vinte contra um” e a gramática oculta da polarização
Um formato de embate político viraliza na internet e revela fato incômodo: apesar de importantes, dados não convencem. O que está em jogo são as “certezas fulcrais” de mundo. Possível saída: em vez de tentar vencer debate, disputar os valores que organizam a vida coletiva
Publicado 05/03/2026 às 14:45 - Atualizado 05/03/2026 às 14:46
Vira e mexe circula nas redes o mesmo comentário: “colocaram vinte pessoas de esquerda contra uma de direita” ou o inverso. A cena muda de canal, de programa, de formato, mas a sensação é parecida. Um lado se diz vitorioso, o outro se diz injustiçado. E vice-versa. Cada campo acredita que o debate foi desequilibrado, manipulado ou enviesado. O curioso é que, mesmo quando os números se invertem, a percepção de falta de compreensão mútua permanece: e nos fatos mais básicos.
O mesmo ocorre em podcasts políticos que se tornaram palco relevante do debate público recente. Convidados de campos opostos passam horas trocando argumentos, citando dados, evocando estudos, mas raramente há deslocamento real de posição. Ao final, cada lado sai mais convicto de que o outro é desinformado ou age de má-fé.
A explicação mais comum para esse impasse é a ignorância. Se o outro não concorda comigo, deve estar mal informado, enganado por fake news ou não tem acesso aos dados relevantes. A solução pareceria simples: mais fatos, mais números, mais evidências. Mas e se o problema não for falta de informação?
Talvez estejamos diante de algo mais profundo do que desinformação ou ignorância. Em 1985, o filósofo Robert Fogelin chamou de “desacordo profundo” aquelas situações em que as partes não compartilham sequer os critérios básicos do debate. Não discordam apenas das conclusões; discordam do que conta como evidência relevante, argumento legítimo, critério apropriado ou valor prioritário.
Nesses casos, insistir em mais dados não resolve, porque os próprios dados devem ser avaliados a partir de regras e critérios distintos, ou seja, a partir de uma gramática distinta. Ludwig Wittgenstein, em Sobre a Certeza, ajuda a entender por quê. Ele argumenta que nossas práticas repousam sobre “certezas fulcrais”, algumas crenças que não funcionam como hipóteses testáveis, ou empíricas, mas como dobradiças, fulcros, ou eixos que tornam possível o próprio jogo de argumentar, conhecer, e duvidar. Elas não são verificadas como fatos comuns. Na verdade, estas certezas fulcrais organizam o que conta como fato. Essas certezas são aprendidas socialmente. Estruturam critérios, procedimentos e valores, ou seja, nossa gramática. E não mudam simplesmente porque alguém apresentou um gráfico melhor. Mudam quando formas de vida se transformam.
Quando um debatedor liberal insiste em liberdade individual, mérito e responsabilidade pessoal, ele não está apenas defendendo uma política pública. Está operando com uma gramática em que o indivíduo é a unidade central da análise social. Se há desigualdade, a pergunta é: quais escolhas foram feitas? Quais incentivos estão distorcidos? Já quando alguém da esquerda fala em desigualdade estrutural, racismo histórico e concentração de renda, parte de outra gramática. O foco não é a escolha individual isolada, mas as condições históricas que determinam as oportunidades e acessos. “Mérito” e “esforço” já são vistos como categorias atravessadas por relações de poder.
O conflito, então, não é apenas factual. É gramatical. Cada lado opera com critérios distintos sobre o que é problema, o que é solução e o que conta como evidência relevante. Isso não significa que fatos não importem ou que tudo seja relativo. Significa que fatos falam dentro de uma gramática. E quando as gramáticas divergem profundamente, o debate empaca.
No Brasil periférico, esse impasse é agravado por desigualdades históricas profundas. Não estamos diante de uma sociedade homogênea com desacordos pontuais. Estamos diante de formas de vida que experimentam Estado, mercado, violência e cidadania de maneiras radicalmente distintas. Tratar a polarização como mera ignorância sobre fatos é politicamente confortável. Supõe que o problema está no nível da informação. Mas muitas vezes estamos diante de embates sobre regras básicas do jogo.
É por isso que proponho um giro normativo. Em vez de perguntar apenas “quem está certo?”, “o que é verdadeiro?”, deveríamos perguntar: quais regras estão organizando estas imagens de mundo? Quais certezas estão sendo tomadas como óbvias?
Quando alguém afirma que “o mercado é naturalmente mais eficiente que o Estado”, isso não é apenas uma hipótese empírica. É a expressão de uma certeza fulcral, de uma regra de leitura do mundo. Organiza antecipadamente o que será considerado desperdício, intervenção indevida ou liberdade econômica. Da mesma forma, quando alguém sustenta que “o Estado deve garantir direitos sociais”, não está apenas defendendo uma política específica, mas explicitando uma prioridade normativa que articula sua imagem de mundo.
O erro recorrente é tratar esses embates como se fossem apenas disputas sobre dados. Mas muitas vezes estamos vendo colisões entre gramáticas diferentes, entre formas de vida distintas. Se a disputa é gramatical, ela também é política no sentido mais profundo. Não basta convencer o outro com informações e mais dados. É preciso disputar as regras que definem o que conta como legítimo, racional e desejável em seus jogos de linguagem mais básicos.
Isso é o que podemos chamar de soberania gramatical (Silva, 2026): a capacidade coletiva de participar da definição das regras que organizam a vida comum. Não se trata de relativismo, mas de reconhecer que regras não são neutras. São sustentadas por instituições, mídias, mercados e estruturas de poder. A gramática liberal, por exemplo, não se mantém apenas por argumentos bem formulados. Ela é reforçada por práticas econômicas e pedagógicas, por sistemas jurídicos e por dispositivos midiáticos. Gramáticas críticas, por sua vez, dependem materialmente também de movimentos sociais, universidades públicas, sindicatos e redes comunitárias.
Se queremos compreender a polarização brasileira, precisamos ir além da explicação epistêmica da ignorância de informações ou do acesso a dados. O que está em jogo não é apenas quem tem mais dados, mas quais regras organizam e queremos que organizem nossa vida coletiva (Praxedes e Silva, 2025; Santana e Silva, 2025).
Disputar a linguagem da política é disputar a política da linguagem (Silva, 2026). E isso exige algo mais difícil do que apresentar estatísticas: exige tornar visíveis os eixos conceituais e certezas fulcrais que estruturam nossos desacordos. Enquanto não fizermos isso, poderemos continuar colocando vinte contra um — ou um contra vinte — que o resultado será o mesmo: muito barulho, pouca transformação.
Referências
FOGELIN, R. J. The logic of deep disagreements. Informal Logic, v. 7, 1985.
PRAXEDES, Fábio; SILVA, Marcos. Gaslighting as grammatical violence: a Wittgensteinian epistemological reading. Prometeus, v. 17, n. 47, 2025.
SANTANA, Jefferson; SILVA, Marcos. Sobre democracia racial, violência gramatical e certezas fulcrais: como um mito se torna regra no imaginário brasileiro. ethic@, Florianópolis, v. 24, p. 1–32, ago. 2025.
SILVA, Marcos. Um Modelo Neopragmatista de Alavancagem Gramatical. Trans/Form/Ação: revista de filosofia da Unesp, Marília, v. 49, n. 1, e026003, 2026a.
WITTGENSTEIN, L. On certainty. Oxford: Blackwell, 1969.
Marcos Silva, do departamento de Filosofia da UFPE, pesquisador do CNPq e presidente da Sociedade Brasileira de Filosofia Analítica.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para [email protected] e fortaleça o jornalismo crítico.