Resumo objetivo:
O Teatro Baccarelli, inaugurado no final de 2023 em Heliópolis, é o primeiro teatro brasileiro localizado dentro de uma favela, com capacidade para 533 lugares e infraestrutura moderna e versátil. O espaço é a realização de um sonho do maestro Silvio Baccarelli, fundador do instituto homônimo que atende anualmente 1.650 crianças e jovens de baixa renda por meio do ensino musical e formação cidadã. Apesar da inauguração do teatro, a instituição enfrenta desafios financeiros mensais, mantendo-se principalmente por meio de leis de incentivo e patrocinadores.
Principais tópicos abordados:
1. A inauguração e as características do Teatro Baccarelli, primeiro teatro do Brasil em uma favela.
2. A história e a metodologia do Instituto Baccarelli, focada na inclusão social pela música.
3. O impacto social do projeto, formando músicos e cidadãos.
4. Os desafios financeiros para a manutenção das atividades do instituto.
São Paulo tem inúmeras salas de concertos, mas nenhuma tão especial. O Teatro Baccarelli, inaugurado no final do ano passado na estrada das Lágrimas, em Heliópolis, na zona sul da cidade, é o primeiro do Brasil situado dentro de uma favela. E não se trata de uma instalação pequena e precária.
Tem 533 lugares e é um espaço moderno e versátil, com uma acústica impecável, capaz de receber desde apresentações de música erudita, ópera e balé até exibições de filmes e shows de funk, rap e trap.
A sala foi um sonho do ex-padre, maestro e filantropo Silvio Baccarelli (1931-2019), um brasileiro exemplar. Ele dedicou parte da vida a integrar na sociedade crianças de baixa renda por meio da música.
Sensibilizado por um incêndio que atingiu a favela em 1996, ele criou um instituto com seu nome, uma das organizações mais respeitadas do paÃs, que atende 1.650 alunos e alunas por ano. A partir de um grupo inicial de 36 crianças, fundou a Orquestra Sinfônica de Heliópolis, cujo diretor artÃstico hoje é o maestro Isaac Karabtchevsky.
A escola de música é o eixo em torno do qual orbitam todas as ações do instituto. "As crianças, a partir de dois anos, fazem a vida aqui dentro", diz João Almeida, diretor de marketing da organização. "E embora nem todos se tornem músicos, eles desenvolvem disciplina, obstinação e seriedade, que podem ser direcionadas para qualquer carreira".
Nesse caminho de aprendizado, as crianças ficam duas vezes por semana e uma hora por dia na escola. Numa segunda fase, a frequência aumenta para quatro vezes e os alunos têm aulas de partitura, coral e instrumento.
Além disso, as crianças recebem três refeições por dia. Para ser aluno do Baccarelli é necessário estar matriculado em uma escola pública. O instituto conta com quatro orquestras e 19 corais e se mantém basicamente com as verbas de 20 grandes patrocinadores por meio de leis de incentivo à cultura. Ainda há poucos contribuintes pessoa fÃsica, mas está sendo criada uma campanha para doação de R$ 40 por mês.
"Agora que inauguramos um teatro, todos acham que estamos ricos, mas no Baccarelli falta dinheiro todo mês", afirma Almeida. "Os recursos que entram são usados na formação de alunos, pagamento de funcionários e músicos e na alimentação." Para erguer o teatro, o instituto conseguiu uma autorização para captar R$ 40 milhões, mas o custo total atingiu R$ 49 milhões.
Vários músicos na escola brilham hoje em orquestras nacionais e internacionais, como a municipal de São Paulo, a de Ouro Preto, a Osesp e a sinfônica de Lucerna, na SuÃça.
No próximo domingo (8), às 17 horas, haverá a apresentação (R$ 20) de duas obras marcantes do repertório europeu, a "Sinfonia no 104", de Joseph Haydn, e as "Metamorfoses Sinfônicas", de Paul Hindemith, sob a regência do maestro Ira Levin.
Heliópolis é a segunda maior favela de São Paulo, superada por Paraisópolis. Segundo a pesquisa "Favelas e Comunidades Urbanas: Resultados do Universo", do IBGE, com dados do Censo 2022, sua população é de 55.583. Mas estimativas de associação de moradores indicam que moram ali mais de 200 mil.