Resumo objetivo: Ministros latino-americanos e caribenhos reuniram-se na Conferência Regional da FAO para debater a transformação dos sistemas agroalimentares no combate à fome. O relatório apresentado alertou para a vulnerabilidade da região, marcada pela dependência da exportação de commodities e da importação de insumos tecnológicos, além de riscos climáticos e macroeconômicos. Foram discutidos cenários futuros, desde um colapso social até uma transição para sustentabilidade, com sugestões focadas em governança, tecnologia, distribuição de renda e equidade para mulheres e jovens no campo.
Principais tópicos abordados:
1. Vulnerabilidades estruturais: Dependência regional da exportação de produtos agrícolas não processados e da importação de insumos tecnológicos, com ciclos de preços das commodities impactando a dívida externa.
2. Riscos e desafios: Pressões climáticas, instabilidades macroeconômicas, geopolíticas e a persistente insegurança alimentar, que afeta desproporcionalmente mulheres e jovens rurais.
3. Cenários e estratégias futuras: Discussão de caminhos possíveis, desde um cenário pessimista de crise até um de sustentabilidade, com propostas de ação focadas em governança, financiamento, inovação (como bioeconomia) e desenvolvimento rural equitativo.
Ministros de diferentes países da América Latina e do Caribe discutiram nesta quinta-feira (5) os desafios e estratégias para a transformação dos sistemas agroalimentares visando o combate à fome. O debate ocorreu durante a 39º Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), no Palácio do Itamaraty, em Brasília (DF).
O relatório apresentado aos chefes dos Estados apontou as tendências a longo prazo e os desafios persistentes da região. Segundo o documento, os países passaram por flutuações cíclicas nos fluxos transfronteiriços, relacionadas diretamente com os ciclos dos preços dos produtos básicos. Como consequência desse movimento, a dívida externa aumentou, aprofundando as interdependências internacionais.
No caso dos sistemas agroalimentares, esse desequilíbrio estrutural reflete uma dependência da demanda mundial por produtos agrícolas não processados e, ao mesmo tempo, da importação de bens que exigem uso intensivo de tecnologia, como máquinas, fertilizantes e pesticidas.
O subdiretor-geral da FAO, Rene Orellana, disse que o levantamento reconhece os inúmeros riscos e incertezas presentes na região e destacou as vulnerabilidades encontradas como pressões climáticas, aspectos macroeconômicos, geopolítica, comércio, conflitos e o acesso à dietas saudáveis.
“Esta análise não se restringe à região, que é complexa. Abrange o mercado comum do Sul, a América Central e o Caribe, com suas diversas condições e línguas, incluindo inglês, espanhol e idiomas locais. Portanto, buscamos que esta estratégia e a análise do futuro promovam a adaptação e o aprimoramento do sistema”, declarou.
O debate explorou quatro caminhos possíveis para o futuro da região. No cenário mais pessimista, chamado de “Corrida para o abismo”, a falta de reformas estruturais e a queda nos preços das commodities poderiam levar a crises sociais. No outro extremo, o cenário de “Sustentabilidade” exige uma mudança de paradigma em que os sistemas agroalimentares sejam resilientes e equitativos.
O ministro da Agricultura de Bahamas, Jomo Campbell, pontuou que os sistemas precisam nutrir as pessoas e não somente os mercados e defendeu a proteção de recursos na garantia de uma vida saudável. “A agricultura tem se tornado um caminho para a dignidade e a prosperidade. Os sistemas agroalimentares modernos nos permitem produzir mais e alcançar os mercados mundiais. A tecnologia tem sido a ponte para isso. Precisamos proteger nossos recursos e garantir uma vida sustentável.”
Outro ponto de destaque foi a denúncia das barreiras persistentes para mulheres e jovens no campo. O documento alerta para um “envelhecimento rural” preocupante e para o fato de que as mulheres ainda enfrentam dificuldades sistemáticas no acesso à terra e ao crédito, sendo elas as mais afetadas pela insegurança alimentar.
Sugestões
A análise prospectiva da FAO identifica quatro “desencadeadores” fundamentais para mudar a realidade do campo e da mesa: a governança institucional, a conscientização dos consumidores, a democratização das tecnologias e, centralmente, a distribuição de renda e riqueza. Entre as principais medidas a serem tomadas, a organização destaca:
- Estabilidade macroeconômica e administração fiscal;
- Financiamento da transformação dos sistemas agroalimentares;
- Reformas fiscais e tributárias em favor da equidade e da redistribuição;
- Abordagens inovadoras: bioeconomia e economias circulares;
- Desenvolvimento rural e equidade territorial.