O artigo argumenta que a cassação da concessão da Enel em São Paulo seria uma medida precipitada e contraproducente, comparando-a a desmontar um avião em pleno voo. O autor destaca a complexidade técnica e os pesados investimentos da rede, defendendo que falhas recentes têm causas estruturais e compartilhadas, como a gestão arbórea da cidade. A solução proposta, em vez da ruptura, é um trabalho coordenado entre município, regulador e concessionária para resolver os problemas de forma gradual e estável.
Há momentos em que a polÃtica prefere o barulho da marreta ao trabalho paciente do engenheiro.
Falar em cassar a concessão da Enel na cidade de São Paulo pode soar como gesto de autoridade. Mas, na prática, é como decidir desmontar o motor de um avião em pleno voo porque houve turbulência.
Energia elétrica não é um serviço que se troca como quem troca o plano de internet. Não é cancelar um contrato e apertar um botão. Estamos falando da maior cidade do paÃs, com uma das redes de distribuição mais complexas da América Latina.
Um interventor não chega com manual mágico de instruções. Ele herda um sistema vivo, interligado, cheio de histórico técnico e decisões acumuladas ao longo de anos. Conhecimento operacional não se transfere por decreto. Ou seja, se chega uma chuva violenta e com um interventor pilotando, arriscamos de ficar sem luz um mês inteiro ai o tiro sairia pela culatra.
E há outro ponto que precisa ser dito com clareza: a italiana Enel não entrou no Brasil para brincar. Trata-se de um dos maiores grupos globais do setor elétrico. Em São Paulo, está uma das centrais tecnológicas mais modernas do mundo para gestão de rede. Houve investimento pesado âinclusive bem superior ao originalmente previsto no contrato de concessão. Isso não é opinião; são dados.
Houve falhas? Sim. Eventos climáticos extremos expuseram vulnerabilidades. Mas transformar um problema estrutural em justificativa para ruptura abrupta é como trocar o pneu furado incendiando o carro inteiro.
Também não podemos ignorar o elefante na sala: o manejo arbóreo da cidade é um problema antigo. Ãrvores mal podadas, conflitos históricos entre fiação aérea e urbanismo desordenado. A rede elétrica convive com decisões municipais acumuladas ao longo de décadas. Não se resolve isso apontando um único culpado.
Em ano eleitoral, a busca por um bode expiatório é quase um ritual. à mais fácil escolher um vilão do que assumir responsabilidades compartilhadas. Pena que não seja possÃvel cassar alguém pelo trânsito crônico da cidade âtalvez essa fosse outra manchete conveniente.
Cassar a concessão pode parecer firme, mas envolve anos de disputa jurÃdica, possÃvel indenização bilionária, retração de investimentos e insegurança regulatória. O custo não fica na manchete âfica na conta de luz e na estabilidade do sistema.
O caminho sério é outro. Trabalho a quatro mãos. MunicÃpio, regulador e concessionária sentados à mesma mesa, com metas objetivas e cronograma claro. Resolver gradualmente o que é estrutural.
Apagar a luz para trocar a lâmpada nunca foi uma boa estratégia. Construir é mais difÃcil do que acusar; mas é o único caminho que realmente mantém a cidade iluminada.
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