Apesar de manter relações diplomáticas, comerciais e militares com países como Turquia, China, Rússia, Coreia do Norte e Venezuela, o Irã se vê isolado e sem apoio concreto diante dos ataques recentes dos Estados Unidos e de Israel. Especialistas atribuem essa solidão à política externa iraniana, que priorizou o investimento em milícias regionais em vez de alianças sólidas, resultando em parcerias baseadas em conveniência e não em compromissos de defesa mútua. O incidente com um míssil iraniano abatido pela OTAN no espaço aéreo turco, negado pelo Irã, ilustra a fragilidade e as tensões nessas relações, mesmo com nações vizinhas.
Principais tópicos abordados:
1. O isolamento diplomático e militar do Irã no conflito atual, apesar de suas parcerias anteriores.
2. A natureza instrumental das relações do Irã com outros países (baseadas em necessidade, não em aliança firme).
3. A política externa iraniana e seu foco no apoio a milícias regionais como o Hezbollah e o Hamas.
4. O incidente específico envolvendo um míssil iraniano e a Turquia, membro da OTAN.
Apesar de ter sido tratado como pária pelo Ocidente e isolado pelas sanções dos Estados Unidos, o governo islâmico revolucionário do Irã manteve laços diplomáticos, comerciais e militares com vários paÃses.
A Turquia e a Ãndia mantiveram relações comerciais e de segurança com o Irã. A China recorreu ao Irã para obter petróleo barato. A Coreia do Norte, a Venezuela e a Rússia consideraram o Irã um aliado na sua luta contra o Ocidente e conspiraram com Teerã para desenvolver tecnologia militar e subverter sanções.
Agora que o Irã se encontra sob ataque dos Estados Unidos e de Israel, esses amigos, vizinhos e parceiros têm pouco mais do que palavras para oferecer à República Islâmica âe podem se tornar alvos.
Na quarta-feira (4), a Turquia disse que a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) abateu um mÃssil balÃstico lançado do Irã que se dirigia ao espaço aéreo turco. Na quinta (5), o Irã negou ter mirado a Turquia.
Sem verdadeiros aliados, é uma guerra solitária para o Irã.
Isso é resultado, dizem especialistas, da polÃtica externa do Irã, que evitou compromissos com outros paÃses enquanto investia em milÃcias que compartilham seu ódio religioso pelos Estados Unidos e Israel.
Essas milÃcias não podem ajudar o Irã agora. As mais formidáveis delas, o Hezbollah no LÃbano e o Hamas na Faixa de Gaza, foram esmagadas pelas guerras com Israel. A milÃcia houthi no Iêmen e os grupos armados iraquianos apoiados pelo Irã podem atacar navios no Mar Vermelho ou forças americanas no Iraque. Mas é improvável que tais ataques mudem o curso de uma guerra dentro do Irã.
As relações do Irã com outros paÃses também não resultaram em apoio concreto, mesmo daqueles unidos por sua animosidade em relação ao que consideram imperialismo ocidental. "à um rude despertar para aqueles que acreditavam que havia um eixo antiocidental emergente", disse Sinan Ulgen, ex-diplomata turco e diretor do EDAM, uma entidade com sede em Istambul.
Referindo-se à Rússia, China, Irã e Coreia do Norte, ele disse: "Agora você vê que isso não significa nada para esses quatro paÃses quando eles estão sob cerco do Ocidente".
A maioria dos paÃses que mantêm laços com o Irã o faz por necessidade estratégica, geográfica ou econômica, o que lhes dá poucos motivos para se sacrificar quando o Irã é atacado, disseram especialistas. Agora, essas relações podem não protegê-los.
O Ministério da Defesa da Turquia não especificou o alvo do mÃssil balÃstico iraniano que as defesas da Otan abateram na quarta. Mas um alto oficial militar dos EUA e um oficial ocidental disseram que ele tinha como alvo a Base Aérea de Incirlik, no sul da Turquia, que abriga um contingente da Força Aérea dos EUA e outras forças da Otan.
Os destroços das munições que derrubaram o mÃssil caÃram a cerca de 48 km da base. Os funcionários falaram sob condição de anonimato porque não estavam autorizados a falar com jornalistas.
As forças armadas iranianas negaram em um comunicado na quinta que tivessem disparado um mÃssil contra a Turquia, afirmando que respeitavam a soberania do paÃs. A Turquia compartilha uma fronteira de 483 km com o Irã, tem laços diplomáticos e comerciais de longa data com o paÃs vizinho e também tentou evitar a guerra.
Ulgen caracterizou a abordagem da Turquia em relação ao Irã como enraizada na história e motivada pela proximidade e pelo "respeito relutante". "Não somos amigos do Irã, não concordamos em muitas coisas, mas temos que coexistir neste espaço geográfico", disse ele.
Apesar de seus laços cordiais com o presidente Donald Trump, o presidente Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, chamou os ataques dos EUA e de Israel ao Irã de "clara violação do direito internacional". Na segunda-feira (2), ele disse nas redes sociais que estava "triste" com a morte do lÃder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.
Autoridades turcas estão trabalhando para impedir a guerra, não porque amam os lÃderes iranianos, mas porque temem que a instabilidade no Irã possa se espalhar para a Turquia, como aconteceu durante conflitos anteriores no Iraque e na SÃria. A queda do governo em Teerã pode ser ainda pior, disse Ulgen.
"O tipo de instabilidade que uma mudança de regime poderia criar poderia ser uma ordem de magnitude maior do que vimos na SÃria e no Iraque", disse ele.
A Ãndia também se envolveu com o Irã como um importante ator na região e para buscar vantagens econômicas, de acordo com Kabir Taneja, diretor executivo da Observer Research Foundation Middle East, com sede em Dubai, nos Emirados Ãrabes Unidos.
"Definitivamente, não havia sobreposição no que diz respeito à visão de mundo", disse ele. "Sempre foi uma relação muito transacional, mas funcional e útil para Nova Délhi."
A Ãndia exporta arroz, produtos agrÃcolas e farmacêuticos para o Irã e investiu pesadamente no porto de Chabahar, na costa sul do Irã, para garantir uma rota de exportação para a Ãsia Central que contornasse o Paquistão, seu principal rival.
Os laços com o Irã não impediram a Ãndia de se tornar o maior comprador de armas de Israel, com as compras indianas representando 34% das vendas totais de Israel entre 2020 e 2024, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo.
Em visita a Israel poucos dias antes da guerra, o primeiro-ministro Narendra Modi, da Ãndia, discursou no Knesset israelense, recebeu uma honraria parlamentar e assinou acordos comerciais com seu homólogo israelense, Binyamin Netanyahu.
O exercÃcio de equilÃbrio da Ãndia entre Israel, Irã e outros paÃses significava que ela se manteria afastada da guerra no Irã, disse Taneja. "A polÃtica externa indiana é clara nessa questão, que não se intromete nos assuntos alheios", afirmou.
Outros paÃses que têm relações com o Irã e também hospedam as forças armadas dos EUA se tornaram alvos à medida que o Irã revida.
O Irã disparou drones e mÃsseis contra o Qatar, com o qual compartilha um campo de gás; contra os Emirados Ãrabes Unidos, um importante parceiro comercial; e contra Omã, um mediador fundamental nas negociações com os EUA que buscavam evitar a guerra.
O Irã recebeu pouco apoio dos paÃses parceiros que compartilham sua hostilidade em relação ao Ocidente. A Coreia do Norte condenou a guerra, mas pouco mais fez, e a postura da Venezuela mudou desde que os Estados Unidos derrubaram o presidente Nicolás Maduro em janeiro.
A China continua sendo o maior parceiro comercial do Irã, principalmente porque compra mais de três quartos do petróleo iraniano, que obtém com um desconto significativo devido às sanções dos EUA.
A China pediu moderação, criticou o assassinato de Khamenei como "inaceitável" e nomeou um enviado para mediar. à improvável que desafie diretamente os Estados Unidos, disseram analistas, para não perturbar uma frágil diminuição de tensões antes da esperada visita de Trump à China em abril.
A Rússia tem sido o aliado mais próximo do Irã na resistência contra o Ocidente há mais de uma década. "Há um alinhamento crescente e uma insatisfação com a ordem global e o sistema de alianças dos EUA", disse Hanna Notte, diretora do programa Eurásia do Centro James Martin para Estudos de Não Proliferação.
A cooperação militar entre a Rússia e o Irã cresceu durante o conflito na SÃria, onde ambos os paÃses apoiaram o presidente Bashar Assad antes de ele ser deposto em dezembro de 2024. A invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia solidificou ainda mais a relação, pois a Rússia precisava da tecnologia iraniana de drones, que utilizou contra a Ucrânia.
Em janeiro de 2025, a Rússia e o Irã assinaram um importante tratado de cooperação que aprofundou seus laços de defesa, mas não incluiu a exigência de defender um ao outro em caso de ataque militar. A Rússia forneceu alguns equipamentos militares ao Irã, mas seu apoio tem sido limitado, disse Notte, em parte porque a Rússia não queria complicar sua relação com Israel.
Agora que o Irã está em guerra, a Rússia provavelmente manterá sua polÃtica de evitar conflitos militares diretos com Israel e os Estados Unidos no Oriente Médio, disse Notte. Isso provavelmente limitará a contribuição da Rússia a defender o Irã nas Nações Unidas e em outros fóruns internacionais.
"Os russos têm defendido os iranianos de forma bastante agressiva", disse Notte sobre a diplomacia da Rússia. "Mas isso não ajuda muito o Irã nesta situação."