Resumo objetivo:
O governo de Tarcísio de Freitas nomeou e depois revogou a nomeação de Eduardo Anastasi para um cargo de assessor especial na Casa Civil. A decisão de recuar ocorreu após a Folha questionar o histórico do nomeado, que inclui ligação com o coronel Ubiratan Guimarães (líder da operação do Carandiru) e uma investigação por enriquecimento ilícito da qual foi absolvido.
Principais tópicos abordados:
1. A nomeação e a rápida revogação de um assessor polêmico pelo governo Tarcísio.
2. O histórico do assessor (Eduardo Anastasi), incluindo sua ligação com uma figura notória (Ubiratan Guimarães) e uma investigação passada sobre aumento patrimonial.
3. O contexto político da mudança na Casa Civil, visando melhorar relações para a reeleição.
4. A atuação do jornalismo como fator de controle, com a nomeação sendo revertida após questionamento da imprensa.
A gestão TarcÃsio de Freitas (Republicanos) planejou trazer de volta ao governo estadual um antigo assessor parlamentar do coronel Ubiratan Guimarães, que liderou a operação da PM no massacre do Carandiru em 1992, mas recuou da iniciativa após questionamento da Folha.
Eduardo Anastasi foi nomeado como assessor especial do novo secretário da Casa Civil, Roberto Carneiro (Republicanos), conforme a edição desta terça-feira (3) do Diário Oficial. Ele já foi alvo de investigação sob suspeita de enriquecimento ilÃcito, mas foi absolvido. No fim da tarde, após a reportagem pedir explicações, a gestão TarcÃsio anunciou que a publicação seria tornada sem efeito, sem explicar os motivos, e que ele não ocuparia mais esse cargo.
Assessor de Ubiratan Guimarães entre 2003 e 2006, Anastasi foi quem, segundo a polÃcia, encontrou o corpo do militar no apartamento do coronel, em 10 de setembro de 2006, quando Ubiratan foi assassinado âa companheira do militar foi denunciada e absolvida, e o caso nunca foi esclarecido.
TarcÃsio mudou o comando da Casa Civil paulista no fim de janeiro, com o objetivo de reduzir atritos com sua base e com prefeitos do interior do estado, que se queixavam de demora na liberação de convênios e repasses de verbas estaduais. Entre os deputados estaduais, há expectativa de que a nova equipe consolide o apoio da classe polÃtica paulista ao governador, que pretende disputar a reeleição em outubro. Anastasi seria assessor especial do setor da chefia de gabinete.
Em 2018, a PGE (Procuradoria-Geral do Estado) instaurou um procedimento disciplinar contra Anastasi e outros servidores, a partir de denúncia anônima encaminhada ao gabinete do governador Geraldo Alckmin (PSB), relacionada à sua atuação na Secretaria de Esportes. Ele trabalhou na pasta entre 2005 e 2013, chegando ao cargo de chefe de gabinete, e era o principal responsável pelos convênios com entidades esportivas.
A investigação, que teve trechos publicados no Diário Oficial do Estado à época, apurou que, entre 2006 e 2011, o patrimônio de Anastasi saltou de R$ 47 mil para R$ 684 mil â valores da época, equivalentes a cerca de R$ 1,5 milhão em valores atualizados. No ano seguinte, a PGE determinou a perda de cargo, punição máxima, para dois servidores, mas o absolveu, sem divulgação de detalhes.
Após deixar o governo estadual, Anastasi teve uma passagem de dez dias pela Prefeitura de São Paulo, durante a gestão Fernando Haddad (PT). Quando sua ligação com Ubiratan veio a público, Haddad demonstrou descontentamento e o assessor foi desligado.
Em seguida, trabalhou no Ministério do Trabalho durante o governo Michel Temer (MDB), no perÃodo em que a pasta foi chefiada por Helton Yomura, então filiado ao PTB â mesma legenda do militar assassinado. A gestão de Yomura foi marcada pela Operação Registro Espúrio, da PolÃcia Federal, que investigou um esquema de concessão fraudulenta de registros sindicais. O ministro foi afastado do cargo por decisão de Edson Fachin, do STF.
à época, Anastasi ocupava o cargo de secretário de Relações do Trabalho e chegou a determinar a suspensão de processos de autorização de novos sindicatos com suspeita de envolvimento no esquema investigado. Com a saÃda de Yomura, ele também deixou a pasta. A CGU (Controladoria-Geral da União) apurou o caso até 2024, determinando o afastamento de outros servidores do ministério suspeitos de receber vantagens indevidas.
A reportagem tentou localizar Anastasi, sem sucesso. à época em que foi investigado, ele afirmou que a apuração era antiga e que contava com um advogado para tratar do assunto.
No fim da manhã desta terça, a Folha pediu informações sobre a nova contratação e os critérios usados para a escolha.
"O governo pauta as nomeações pela capacidade técnica, cumprindo o que determinam as normas legais em vigor", informou a nota enviada em resposta, com o complemento: "Com relação a Eduardo Anastasi, cabe esclarecer que a nomeação foi tornada sem efeito."
A Folha confirmou com a equipe de comunicação da Casa Civil se ele não iria mais para o governo, e a resposta foi que não. Contudo, mesmo após insistência da reportagem, a assessoria não informou o motivo da desistência.