Resumo objetivo:
A popularidade das canetas de emagrecimento no Brasil esconde riscos, pois seu uso tem se desviado da indicação clínica (diabetes tipo 2 e obesidade) para atender a pressões estéticas e à gordofobia. Esse uso indiscriminado, impulsionado por um mercado desregulamentado, expõe as pessoas a efeitos colaterais graves — como náuseas e vômitos — que impactam significativamente a vida cotidiana, além de representar uma "medicalização do corpo saudável".
Principais tópicos abordados:
1. Uso desviado das canetas de emagrecimento: Medicamentos indicados para condições específicas são usados por pressão estética e gordofobia.
2. Críticas sociais e estruturais: Pressão pela magreza, lucro conjunto das indústrias alimentícia e farmacêutica, e acesso desigual a alimentos saudáveis.
3. Riscos à saúde: Efeitos colaterais graves do uso indiscriminado e perigos do mercado desregulamentado (substâncias de origem desconhecida).
4. Discrepância entre estudos clínicos e experiência real: O que é classificado como efeito "moderado" na pesquisa pode ser devastador na prática.
Com promessa de resultados rápidos e forte presença nas redes sociais, as canetas já são comuns no Brasil. O sucesso, porém, mascara os efeitos colaterais do medicamento e o faz passar por produto milagroso.
“Essas novas tecnologias têm indicação clínica para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, baseada em estudos que mostram bons resultados em perda de peso, melhoras metabólicas e cardiovasculares. Mas o uso deve ser feito dentro dessas indicações, após avaliação cuidadosa por um médico capacitado” aponta Fernanda Scagliusi, nutricionista e professora da Universidade de São Paulo (USP), ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
O problema, segundo ela, é o desvio dessa indicação, já que hoje em dia “vivemos numa sociedade em que nenhuma gordura é permitida, nunca se é magro suficiente” e a nutricionista acrescenta que para as mulheres “a pressão estética pela magreza é ainda maior.”
A professora explica que muitas pessoas que buscam esses medicamentos não têm indicação clínica, mas são movidas pela gordofobia. “É um sistema estrutural de violência contra pessoas gordas. Todas nós, no Brasil, estamos submetidas a essa pressão. Somos bombardeados por redes sociais, profissionais de saúde, influencers, sempre dizendo que a magreza é melhor, é saudável, que a pessoa magra é disciplinada, capaz, tem sucesso.”
“O capitalismo faz uma máquina perfeita. Ele nos vende alimentos de péssima qualidade a preços baixos, enquanto os alimentos saudáveis são caros e inacessíveis para grande parte da população. Esse mesmo sistema nos estimula a comer e, por outro lado, a ficar magros”, critica.
Segundo a Scagliusi, tanto a indústria alimentícia quanto a farmacêutica lucram juntas e “quem perde é a saúde da população”. Acrescenta que é a “medicalização do corpo saudável para atender padrões ideais.”
A nutricionista alerta para os perigos do uso indiscriminado. “Há uma diferença enorme entre os efeitos colaterais dos estudos clínicos, feitos com substâncias reconhecidas e aprovadas pela Anvisa, e o que vemos no mercado desregulamentado – farmácias de manipulação, vendas online, substâncias cuja procedência e pureza são desconhecidas.”
Mesmo os efeitos considerados “moderados” pelos estudos podem ser devastadores. “Nossas pesquisas qualitativas mostram que náuseas, vômitos, tonturas e fadiga têm impacto real na vida das pessoas. Se você passa o dia vomitando, não consegue se alimentar, não consegue trabalhar. Muitas pessoas queriam fazer atividade física, mas se sentiam tão fracas e apáticas com o remédio que não conseguiam.”
Ela conclui com uma reflexão sobre a necessidade de ponderar os resultados dos estudos clínicos com a vivência real. “É muito importante ouvir o que as pessoas têm a dizer sobre sua experiência com esses medicamentos. O que os estudos chamam de ‘moderado’ pode ser absolutamente devastador na vida de alguém.”
Para ouvir e assistir
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