Resumo objetivo:
A popularidade de conteúdos sobre testosterona nas redes sociais promove níveis artificialmente elevados do hormônio, ignorando seus graves riscos à saúde. Especialistas alertam que níveis supra-fisiológicos, alcançados com esteroides anabolizantes, aumentam o perigo de trombose, problemas cardíacos, AVC e outros efeitos colaterais. A busca por esses níveis reflete uma associação distorcida entre testosterona alta e masculinidade idealizada, em um contexto de declínio natural dos níveis hormonais devido a fatores modernos.
Principais tópicos abordados:
1. A viralização de conteúdos que promovem níveis altos de testosterona e sua associação a uma ideia de masculinidade e performance.
2. Os graves riscos à saúde decorrentes de níveis supra-fisiológicos, como problemas cardiovasculares, trombose e efeitos colaterais.
3. O uso ilegal de esteroides anabolizantes para atingir esses níveis.
4. O declínio natural dos níveis de testosterona na população masculina e estratégias seguras para mantê-los.
A testosterona é o hormônio do momento nas redes sociais. VÃdeos sobre como conseguir nÃveis mais altos da substância e seus supostos benefÃcios chamam a atenção e impulsionam produtores de conteúdo, mas esse material desconsidera aspectos importantes de saúde.
Publicações de exames de testosterona livre, que mostram a disponibilidade do hormônio no sangue, são publicados com frequência. Eles expõem nÃveis muito além do que o corpo consegue produzir, que é de 350 a 1.000 ng/dL (nanogramas por decilitro). Há resultados de 2.000 a 12.000 ng/dL, o que pode ser considerado uma anomalia.
Para efeito de comparação, se um grama fosse do tamanho de um carro popular, um nanograma seria menor que um parafuso desse veÃculo. Um decilitro seria o equivalente a meio copo de requeijão de sangue â100 ml. Um adulto tem de quatro a seis litros de sangue.
Esses nÃveis muito altos geram riscos para a saúde, explica Bruno França de Resende, membro da Sociedade Brasileira de Urologia e urologista do Hospital Vera Cruz.
"A testosterona é um dos principais hormônios masculinos, mas em nÃveis supra fisiológicos, vai agir na medula óssea e deixar o sangue mais grosso, por exemplo. Isso aumenta o risco de trombose das pernas, infarto e AVC (acidente vascular cerebral)", explica o médico.
Outro problema é cardÃaco. Resende explica que o músculo do coração tem muitos receptores à substância. Portanto, "quanto mais [testosterona], maior ficará o coração, já que ela tem efeito anabólico".
Um coração maior leva a riscos de insuficiência cardÃaca e arritmia. "E, diferente dos músculos dos braços ou das pernas, o coração não volta a diminuir", diz o médico.
Há ainda danos menores, como o surgimento de espinhas por todo o corpo e pelos em locais incomuns. Não só: o uso prolongado pode causar calvÃcie e ginecomastia, crescimento anormal dos peitos nos homens âadquirindo formato feminino.
No imaginário de quem faz essas publicações, a testosterona cumpre uma função além da biológica. Ela é um sÃmbolo de masculinidade forte, potência sexual e destaque individual. à como se o homem com maior disponibilidade do hormônio fosse uma espécie de "macho alfa", o lÃder que domina, e, portanto, é melhor que os demais.
"Existem revisões que mostram redução do HDL, o colesterol bom, e aumento da pressão arterial com o uso crônico da testosterona", diz o médico George Mantese, especialista em saúde hormonal.
Alcançar nÃveis tão elevados do hormônio só é possÃvel com uma ajudinha externa, isto é, com esteróides anabolizantes. O mais popular chama-se durateston, uma mistura de propionato, fenilpropionato, isocaproato e decanoato de testosterona.
O fármaco é prescrito para tratar hipogonadismo (baixa testosterona). Deve-se ter uma receita para adquiri-lo, mas essas substâncias circulam de forma clandestina, com publicidade na internet.
EFEITO SUPER-HOMEM
Os adeptos da testosterona alta defendem que isso lhes confere super poderes.
São eles, por exemplo, transar todos os dias, trabalhar mais e cansar menos, ganhar autoestima e afastar perÃodos de tristeza.
Por associação, um homem com mais testosterona é mais "valente", bom de cama, proativo, para citar algumas das percepções, que ganham força com os ideais masculinistas. Com nÃveis superiores a 2.000 ng/dL, os músculos crescem mesmo sem estÃmulos.
Segundo Resende, estudos indicam redução global de testosterona nos homens nas últimas décadas. Esse fenômeno é associado a estresse, sedentarismo, sono irregular, consumo de ultraprocessados e à presença de microplásticos no organismo. "Os nÃveis de um homem de 50 anos, hoje, se assemelham a um de 70 do passado", diz o médico.
Essa redução explica em partes o culto ao hormônio, em um contexto de busca geral por performance.
Caso seu exame mostre Ãndices abaixo de 500 ng/dL, há estratégias para aumentá-los, diz Mantese.
- ExercÃcios fÃsicos: musculação e corrida ajudam a manter os nÃveis e, eventualmente, aumentá-los.
- Emagrecimento: a redução de gordura corporal ajuda em elevações significativas do hormônio.
- Sono: dormir bem garante a manutenção dos nÃveis.
- Estresse: excesso de cortisol é associado à menor produção de testosterona. Portanto, reduzir os nÃveis de estresse ajuda a manter os Ãndices.
- Alimentação: produtos como azeite, peixes e fibras podem ajudar. Comer pouca gordura, por outro lado, pode reduzir os Ãndices.
- Vitamina D: estudos observacionais sugerem nÃveis menores em pessoas com deficiência do nutriente. São, contudo, associações, ou seja, não cravam relação de causa e consequência.
Embora alguns suplementos prometam elevação rápida da produção hormonal, isso raramente acontece em grandes percentuais. Mantese diz que suplementar pode ser uma opção: se não elevar, também não oferece riscos. Porém, a suplementação não exclui a necessidade das demais práticas.