Resumo objetivo:
O artigo traça a trajetória de Josef Stalin, líder da União Soviética por quase três décadas, destacando seu papel na Revolução de Outubro, na industrialização do país e na vitória aliada sobre a Alemanha Nazista. Simultaneamente, aponta que seu governo foi marcado por autoritarismo, repressão política e conservadorismo, resultando em um legado ambivalente que varia conforme as narrativas ideológicas. O texto também aborda sua origem humilde, formação marxista e atuação militante no Partido Operário Social-Democrata Russo.
Principais tópicos abordados:
1. A atuação de Stalin na Revolução de Outubro e sua liderança na União Soviética.
2. Os avanços (como o status de superpotência) e as contradições de seu governo (autoritarismo e repressão).
3. Seu papel central na derrota do fascismo na Segunda Guerra Mundial.
4. A influência de narrativas ideológicas na avaliação de seu legado.
5. Detalhes biográficos sobre sua juventude e ingresso no movimento socialista.
Josef Stalin: a trajetória do “homem de aço” Líder da União Soviética promoveu a tese do 'socialismo em um único país', que pregava o fortalecimento do processo revolucionário dentro do Estado Há 73 anos, em 5 de março de 1953, falecia Josef Stalin. Ativo na agitação operária desde a juventude, ele ajudou a arquitetar o movimento insurgente que culminou com a Revolução de Outubro e dirigiu a União Soviética por quase três décadas. Poucos personagens foram tão influentes quanto Stalin na construção do curso da história do século 20. Seu legado é dos mais significativos e ambivalentes. Sob sua liderança, a União Soviética atingiu o status de superpotência, elevando significativamente o padrão de vida de seus habitantes e englobando quase um terço do planeta Terra em sua esfera de influência. Stalin também foi responsável por coordenar o combate aos movimentos fascistas europeus e teve papel fundamental para a derrota da Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, seu governo, desenvolvido em meio às dificuldades internas e externas próprias do processo revolucionário, foi marcado por episódios de autoritarismo, repressão política e, em alguns momentos, por retrocessos e recrudescimento do conservadorismo. Mais do que um reflexo do seu contexto atribulado e de sua personalidade complexa e contraditória, a caracterização de Stalin como ícone da luta antifascista e, simultaneamente, como um suposto ditador cruel e sanguinário costuma depender dos interesses políticos e ideológicos que embasam as narrativas — não raramente eivadas de revisionismo, suposições, rumores ou extrapolações. A história, afinal, é escrita pelos vencedores, que estabelecem seus próprios parâmetros. Churchill, paradoxalmente rival e aliado de Stalin, costumava repetir: “a história será gentil comigo, pois pretendo escrevê-la eu mesmo”. Ele tinha razão. Para azar da fortuna crítica de Stalin, o capitalismo venceu a batalha das narrativas. Da juventude à militância no POSDR Josef Stalin nasceu em uma família pobre de Gori, na Geórgia, então parte do Império Russo. A data exata de seu nascimento é objeto de debate. Na União Soviética, o aniversário de Stalin era oficialmente celebrado em 21 de dezembro, mas documentos oficiais da era czarista apontam que ele teria nascido no dia 18 de dezembro de 1878. Stalin era filho de Ekaterine Geladze e Besarion Djugachvili, sapateiro e operário em uma fábrica de calçados. Sua infância foi bastante atribulada. Além das privações materiais, ele sofria agressões do pai, alcoólatra e violento. Farta do comportamento do marido, Ekaterine deixou a casa e levou Stalin consigo. Mãe e filho encontraram abrigo na casa do padre Christopher Charkviani. Ekaterine passou a trabalhar como lavadeira e empregada doméstica e se esforçou para garantir que o filho estudasse. Em 1894, agraciado com uma bolsa de estudos, Stalin se matriculou no Seminário Teológico de Tbilísi, onde se destacou por seu desempenho acadêmico. Durante os estudos, ingressou em um clube de leitura de textos proibidos, onde teve o primeiro contato com as obras de Karl Marx. Tornou-se admirador das ideias socialistas e passou a frequentar reuniões de organizações operárias e grupos marxistas. Stalin ingressou no Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) em 1901, dedicando-se a organizar greves, manifestações e reuniões para explicar o pensamento socialista aos trabalhadores. Ele teve papel de destaque na Revolução de 1905, a vigorosa insurreição popular que eclodiu no Império Russo após um massacre de grevistas pelas tropas do czar Nicolau II — o chamado “Domingo Sangrento”. O revolucionário georgiano liderou esquadrões de combatentes bolcheviques, comandou a tomada de arsenais, desarmou as forças policiais e combateu os cossacos e os milicianos das Centenas Negras, ambos a serviço do czar. Diante da cisão do POSDR em duas facções — mencheviques e bolcheviques — Stalin se perfilou ao segundo grupo, seguindo a liderança de Lenin. Ele assegurou a primazia dos bolcheviques na seção local do POSDR e ajudou a levantar fundos para as atividades revolucionárias. Em 1912, Stalin aceitou o convite de Lenin para compor o Comitê Central Bolchevique. Nesse mesmo ano, tornou-se editor do jornal “Pravda”, que seria convertido em órgão oficial do partido. Em 1913, publicou “O Marxismo e o Problema Nacional e Colonial”, um de seus textos mais conhecidos. Stalin sofreu múltiplas prisões e condenações ao exílio nas primeiras décadas do século 20. O mais longo desses exílios se estendeu de 1913 a 1917, quando o revolucionário ficou confinado no campo de Kureika, em uma região remota da Sibéria. Revolução de Outubro, Guerra Civil e criação da URSS As dificuldades econômicas decorrentes da Primeira Guerra Mundial intensificaram o descontentamento popular com o regime czarista, agravando a pobreza, a escassez de alimentos e inflação. A crise atingiu seu ápice em março de 1917, quando eclodiu a Revolução Russa. A intensificação das greves, os gigantescos protestos eclodindo em todo o país e a perda do apoio dos militares forçaram o czar Nicolau II a abdicar do trono. Com a queda do monarca, instalou-se um governo republicano provisório, dominado por conservadores e liberais. Visando disputar o comando do processo revolucionário ao lado dos comunistas, Stalin chegou a Petrogrado em março de 1917. Ele reassumiu o comando do “Pravda” e foi nomeado representante dos bolcheviques no Comitê Executivo do Soviete de Petrogrado. Após o retorno de Lenin à Rússia, Stalin apoiou as chamadas “Teses de Abril”, pregando a transformação da insurreição democrático-burguesa em uma revolução socialista. Ele foi um dos principais organizadores da Jornadas de Julho, uma onda de protestos que pretendia derrubar o governo provisório e transferir o poder aos sovietes. Ao lado de Yakov Sverdlov, Stalin assumiu interinamente a direção do partido enquanto Lenin estava refugiado na Finlândia. Nesse meio tempo, ele ajudou a preparar a sublevação armada da Revolução de Outubro. Em novembro de 1917, os bolcheviques chegaram ao poder. Com o triunfo da insurreição, Stalin se tornou um dos mais importantes dirigentes do governo revolucionário. Ele assumiu o cargo de Comissário do Povo no Ministério das Nacionalidades, formulando políticas de apoio à autodeterminação dos grupos étnicos e suprimindo as medidas chauvinistas de “russificação” implementadas pelo czarado. Stalin também serviu como líder político e militar em várias frentes da Guerra Civil Russa. Atuou como estrategista e comandou a severa repressão às forças contrarrevolucionárias em Tsarítsin (futura cidade de Stalingrado). Serviu também como comandante da Frente de Lviv durante a Guerra Polonesa-Soviética. Em 1919, foi condecorado com a Ordem do Estandarte Vermelho por suas contribuições militares. Em 1922, Stalin supervisionou a criação da União Soviética e atuou para neutralizar a oposição de alguns grupos étnicos à nova federação. Nesse mesmo ano, ele assumiu o cargo de Secretário-Geral do Partido Comunista, no qual permaneceria até o fim da vida. Enquanto Stalin concentrava mais poderes, Lenin padecia das consequências de um acidente vascular que o deixou profundamente debilitado. Entre 1922 e 1923, Lenin teria ditado para sua esposa, Nadejda Krupskaia, uma série de notas manifestando preocupação com o autoritarismo de Stalin — o chamado “Testamento de Lenin”. As notas, entretanto, não são consensualmente reconhecidas como autênticas e muitos historiadores as atribuem à própria Krupskaia. Líder da União Soviética A morte de Lenin em janeiro de 1924 culminou na intensificação das disputas internas sobre os rumos do governo. Fundador da chamada “Oposição de Esquerda”, Leon Trotsky organizaria a resistência interna contra Stalin, tentando impedi-lo de assumir o comando da União Soviética. Trotsky se aliou a Grigori Zinoviev, Lev Kamenev e Alexander Shliapnikov para criar uma frente unificada de oposição ao líder georgiano. Não obstante, Stalin conseguiu fortalecer sua base de apoio no Comitê Central, isolando e derrotando um a um seus potenciais concorrentes. A frente oposicionista foi decisivamente suplantada em 1927 e Trotsky foi expulso do Partido Comunista. Em agosto de 1940, Trotsky seria assassinado por um agente do governo soviético no México. Consolidado como líder da União Soviética, Stalin adotaria a tese do “socialismo em um único país”, que pregava o fortalecimento do processo revolucionário dentro do Estado soviético, em detrimento dos princípios internacionalistas adotados nos primeiros anos pós-revolução. Em abril de 1929, Stalin abandonou a Nova Política Econômica (NEP) — conjunto de medidas estabelecidas por Lenin que levaram à restauração parcial da iniciativa privada e da economia de mercado, visando reconstituir a capacidade produtiva da União Soviética. Em substituição à NEP, Stalin implementou a política de planos quinquenais, iniciando os processos de planificação da economia, industrialização em larga escala e coletivização das terras. Ele também atuaria fortemente para esmagar a classe dos kuláks — latifundiários e proprietários rurais abastados que pressionavam pelo retorno da economia de mercado. O rápido processo de industrialização e as grandes obras de infraestrutura permitiram que a União Soviética prosperasse economicamente enquanto o mundo capitalista mergulhava na grande recessão dos anos trinta. O país também registrou importantes avanços sociais na universalização dos serviços públicos, na expansão da rede de ensino e na criação do sistema universal de saúde, resultando em uma elevação sem precedentes do padrão de vida da população. A luta travada contra os kuláks, os erros cometidos durante o processo de coletivização das terras e as condições climáticas desfavoráveis causaram a interrupção da produção de alimentos e afetaram severamente a safra de 1932. Tal conjuntura acabou contribuindo para a Grande Fome Soviética, com consequências desastrosas nas regiões produtoras de grãos, sobretudo a Ucrânia, o Cáucaso do Norte e o Cazaquistão, vitimando até três milhões de pessoas. A situação seria explorada por Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler, que passou a responsabilizar o governo soviético pela crise famélica, alegando que Stalin teria causado propositalmente a fome com o objetivo deliberado de exterminar a população ucraniana — gênese da tese do “Holodomor”. A década de 1930 foi marcada simultaneamente por avanços sociais e pelo recrudescimento do autoritarismo. A constituição promulgada em 1936 consolidava uma série de direitos civis, incluindo a igualdade de gênero e a criminalização do racismo. Por outro lado, o direito ao aborto foi revogado e várias políticas emancipatórias foram enfraquecidas. O fortalecimento dos regimes fascistas na década de 1930 impôs graves desafios à União Soviética, que passou a ver sua existência ameaçada. Stalin trataria de reforçar a coesão das instituições estatais. Apoiado pela cúpula do Partido Comunista, ele iniciaria uma verdadeira devassa visando neutralizar os infiltrados e debelar eventuais complôs, tentativas de golpe e planos de sabotagem. O assassinato de Serguei Kirov em 1934 foi o ponto inicial da onda de expurgos. Centenas de milhares de pessoas foram presas e executadas. A ação dos aparelhos repressores tornou-se cada vez mais autônoma e paranoica, fugindo do controle do Estado e resultando em um grande número de abusos e punições injustas. A situação chegou a tal ponto que Nikolai Yezhov, o próprio chefe da NKVD, seria executado em função dos abusos da repressão. A devassa prosseguiria até 1938, atingindo dirigentes do Partido Comunista, membros do Komintern e oficiais do Exército Vermelho — incluindo Mikhail Tukhachevsky, o comandante das tropas soviéticas, condenado como colaborador dos nazistas. A Segunda Guerra Mundial e a reconstrução No plano externo, a União Soviética buscou promover o socialismo através da Internacional Comunista e apoiou a criação das frentes antifascistas durante a década de 1930. Após fracassar na tentativa de criar uma aliança militar antinazista com a França e o Reino Unido, o governo soviético assinaria o Pacto Molotov-Ribbentrop, visando ganhar tempo para se preparar para o confronto com o Terceiro Reich. Em 1941, já durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha Nazista invadiu a União Soviética durante a Operação Barbarossa — uma das campanhas militares mais violentas da história, responsável pela morte de cinco milhões de civis. Respondendo à ofensiva alemã, Stalin assumiu a presidência do Comitê de Defesa do Estado, conclamou a população a resistir à invasão nazista e coordenou uma brilhante contraofensiva, que obrigou os invasores ao recuo em todas as frentes no Cáucaso, na Europa Oriental e na Europa Central. Em março de 1945, as tropas do Exército Vermelho invadiram a Alemanha e tomaram Berlim, levando Adolf Hitler ao suicídio e forçando os nazistas à rendição incondicional, encerrando a Segunda Guerra Mundial na Europa. Capitaneado por Stalin, o Exército Vermelho foi responsável por matar 8 de cada 10 soldados nazistas que tombaram na guerra. Apesar do elevado custo da vitória, que ceifou a vida de quase 27 milhões de cidadãos soviéticos, Stalin saiu do conflito politicamente fortalecido e apto a demandar compensações. O líder georgiano conseguiu expandir o território soviético, anexando os estados bálticos, e impôs o domínio da União Soviética sobre a Europa Central e Oriental, expandindo sua área de influência. Também foi responsável por coordenar esforços para a modernização da indústria e o desenvolvimento da tecnologia soviética nos anos 40, nomeadamente através da criação dos bem sucedidos programas espacial e nuclear. Ainda em 1949, a União Soviética passou a contar com armas nucleares. Stalin também liderou os esforços de reconstrução do país no período pós-guerra até sua morte, ocorrida em 5 de março de 1953. A desconstrução de Stalin e o “leilão do genocídio comunista” A vitória de Stalin sobre os nazistas na Segunda Guerra Mundial criou um constrangimento para os países ocidentais. O socialismo tinha agora um trunfo importante — ter derrotado o maior genocida da história, adulado e elogiado por muito tempo por liberais e ícones do capitalismo, incluindo nomes como Winston Churchill, Henry Ford e William Hearst. Havia uma maneira eficiente de desconstruir a imagem de Stalin e neutralizar o impacto simbólico da vitória soviética sobre o nazismo: reescrever a história, transformando Stalin em um genocida ainda pior do que Hitler. Em um ambiente intoxicado pelo anticomunismo, pelo macarthismo e pelo temor da “Ameaça Vermelha”, imprensa, mídia, indústria do entretenimento e vários dos aparelhos ideológicos ocidentais ficaram imbuídos da tarefa de “adaptar criativamente” a história. Logo começaram a se multiplicar as pesquisas e publicações acadêmicas de historiadores liberais e conservadores acusando Stalin de cometer genocídios, em uma escala que se torna cada vez mais monumental. Nos Estados Unidos e na Europa, as universidades são tomadas por um frenesi, uma corrida revisionista eufórica rumo à construção de um mega-vilão “sob demanda”. Jonathan Brent, da Universidade de Yale, acusaria Stalin de assassinar mais de 20 milhões de pessoas, uma cifra que seria endossada pelo historiador britânico Robert Conquest. Rudolph Joseph Rummel, da Universidade do Havaí, alcançou novos patamares, elaborando a incrível cifra de 43 milhões de mortos. Mas é Norman Davies, autor de “Europa, Uma História”, o vencedor do “leilão do genocídio comunista”, acusando Stalin de matar quase 60 milhões de pessoas. A enorme variação das estimativas de vítimas — indo de 600 mil a 60 milhões de mortos — é um indicativo da falta de critérios minimamente padronizados e da ausência de uma metodologia confiável para calcular esses dados. Os números muito altos, em especial, podem ser desmentidos com uma simples análise dos dados demográficos disponíveis. Os censos soviéticos demonstram que, durante a década de trinta — período dos grandes expurgos e das crises famélicas — a população da União Soviética aumentou em mais de 20 milhões de pessoas, passando de 148 milhões de habitantes em 1926 para 168 milhões de habitantes em 1939. Esse dado, por si só, já torna matematicamente impossíveis as estimativas mais histéricas de cômputos acima dos sete dígitos. Essas cifras de dezenas de milhões de mortes costumam ser embasadas por um truque estatístico, por meio do qual se traça uma linha de crescimento demográfico imaginária a partir da taxa de natalidade anterior à ascensão de Stalin ao governo soviético, comparando-a em seguida com a população real. A diferença entre as grandezas, alega-se, equivaleria ao número de mortos. Esse truque carece de sentido, pois é embasado no cálculo de pessoas que nunca existiram e na presunção de que a taxa de natalidade soviética deveria permanecer imutável, mesmo após o processo de industrialização e períodos de conflitos civis internos e guerras externas, tipicamente caracterizados por reduções expressivas das taxas de natalidade. Outros levantamentos, como o apresentado na obra O Livro Negro do Comunismo, são baseados na inflação proposital e na distorção de conceitos, incluindo como “vítimas de Stalin” até mesmo combatentes nazistas e soldados soviéticos mortos por Adolf Hitler. Dois coautores de O Livro Negro do Comunismo, Jean-Louis Margolin e Nicolas Werth, acusaram o editor da obra, Stéphane Courtois, de distorcer e manipular deliberadamente os dados para atingir a cifra de 20 milhões de mortos pelo regime soviético. Estudos mais recentes, baseados em fontes primárias oriundas dos arquivos soviéticos abertos ao público nas últimas décadas, têm confirmado que as cifras estratosféricas de mortes atribuídas a Stalin não possuem base factual, levando até mesmo historiadores críticos ao comunismo, tais como J. Arch Getty, a revisarem narrativas demonizantes herdadas da Guerra Fria.