Resumo objetivo:
Os Estados Unidos, através de contatos do presidente Donald Trump, estão incentivando e oferecendo apoio (como cobertura aérea, armas e treinamento) a grupos curdos iranianos exilados no Iraque para que abram uma nova frente contra o regime do Irã. Caso se concretize, esse plano pode escalar o conflito para uma guerra civil no Irã e desestabilizar a região, alarmando países vizinhos como Turquia, Iraque e Síria, que se opõem ao fortalecimento dos curdos.
Principais tópicos abordados:
1. A estratégia dos EUA de apoiar grupos curdos iranianos para pressionar o regime do Irã.
2. Os riscos de escalada para uma guerra civil e a instabilidade regional que isso geraria.
3. A rejeição de países vizinhos (Turquia, Iraque e Síria) a essa aliança.
4. O histórico ambíguo de intervenções americanas semelhantes, com exemplos no Afeganistão e na Síria.
Com os Estados Unidos instigando lideranças curdas a abrirem um novo front contra o regime dos aiatolás, a guerra no Irã pode ganhar uma nova dimensão.
Já vimos isso "funcionar", com o apoio americano militar e financeiro aos curdos da SÃria na luta contra o Estado Islâmico, levando à derrota, em 2019, da facção extremista que chegou a controlar um território maior que o Reino Unido.
Mas já vimos dar bem errado, quando a CIA financiou os mujahideen no Afeganistão contra os soviéticos e aliados entre 1979 e 1992. Os americanos conseguiram derrotar os soviéticos e marcar pontos na Guerra Fria, mas o conflito deixou como herança um Estado falido, a volta do Talibã e condições para a ascensão de grupos terroristas como a Al Qaeda.
Caso os curdos iranianos realmente se tornem as "botas no terreno" na guerra dos EUA e Israel contra o regime do Irã, o conflito corre o risco de descambar para uma guerra civil.
O presidente Donald Trump, em ligações nesta semana para lÃderes curdos no Irã e no vizinho Iraque, ofereceu "ampla cobertura aérea dos EUA", segundo o Washington Post, e outros tipos de apoio para que curdos iranianos assumam o controle de partes do oeste do Irã. Eles estão entre os maiores opositores do regime e são um dos principais alvos da violenta repressão do Estado.
Um dos lÃderes com quem Trump teria conversado é Mustafa Hijri, lÃder do Partido Democrático do Curdistão Iraniano (PDKI), a mais antiga sigla de oposição curda. O PDKI faz parte de uma aliança de seis partidos anunciada em 22 de fevereiro, uma semana antes da eclosão da guerra, para, segundo eles, trabalhar em conjunto para "derrubar a República Islâmica do Irã". Os partidos instaram os curdos iranianos a abandonar suas bases e retirar seu apoio à s "forças armadas e repressivas do regime".
Segundo relato do Washington Post, as conversas de Trump com os lÃderes curdos trataram da possibilidade de fazer uma ofensiva terrestre a partir do território iraquiano, onde os dissidentes estão baseados. E os grupos teriam pedido inteligência, armas e treinamento dos EUA, além de uma zona de exclusão aérea.
A CIA estaria contribuindo com grupos curdos iranianos exilados no Iraque há meses. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, negou que haja um plano em curso. Ela disse a jornalistas que "qualquer reportagem sugerindo que o presidente concordou com tal plano é falsa".
Segundo o Wall Street Journal, Trump ainda não tomou uma decisão final sobre o assunto.
Caso o plano se concretize, vai mexer num vespeiro regional. Uma aliança com os curdos será uma péssima notÃcia para os lÃderes da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, do Iraque, Mohammed Shia al-Sudani, e da SÃria, Ahmed al-Sharaa.
Alguns grupos curdos iranianos são próximos ao PKK, o partido dos trabalhadores curdos da Turquia, considerado terrorista, e dos curdos sÃrios, em guerra permanente com o governo turco. Erdogan combate grupos do PKK no Curdistão iraquiano, que passaria a estar envolvido em uma guerra que, em tese, favorece aliados do partido.
O presidente da SÃria, alinhado à Turquia, luta para unificar seu território e tampouco quer fortalecimento dos curdos iranianos e sÃrios.
O governo do Iraque, xiita, é alinhado ao Irã. Na quarta-feira (4), o conselheiro de segurança nacional do Iraque, Qasim al-Araji, afirmou que o Iraque não permitirá que grupos "se infiltrem ou cruzem a fronteira iraniana para realizar atos terroristas a partir do território iraquiano".
Mas há uma mobilização clara entre os exilados iranianos no Curdistão iraquiano. O Irã, inclusive, atacou uma base dos EUA na região, o aeroporto internacional, instalações de petróleo e gás, e pelo menos duas bases usadas por combatentes curdos iranianos no local.
Os curdos iraquianos, caso auxiliem os irmãos iranianos, arriscam-se a desestabilizar suas relações frágeis com o governo central em Bagdá. O presidente do Curdistão do Iraque, Nechirvan Barzani, afirmou nesta quinta-feira (5) que a região "não fará parte dos conflitos".
Será difÃcil dizer não aos americanos.
E os curdos iranianos, o que têm a ganhar? Os curdos estão escaldados, uma vez que foram rifados pelos americanos em inúmeras ocasiões. A última vez foi com as forças curdas do norte da SÃria, instrumentais para a derrota do Estado Islâmico.
Após a queda do ditador sÃrio Bashar al-Assad em dezembro de 2024, o governo Trump se aproximou do novo lÃder da SÃria, al-Sharaa, um ex-integrante da Al Qaeda. Ao lado da Turquia, os EUA e a Arábia Saudita passaram a apoiar o objetivo do novo governo sÃrio de unificar a SÃria e acabar com a autonomia de Rojava, a região curda.
Tom Barrack, enviado especial de Trump para a região, não mediu palavras: ele afirmou que o objetivo da aliança dos americanos com os curdos sÃrios havia "em grande parte expirado". EUA e Arábia Saudita fecharam diversos acordos de exploração de petróleo e gás com o novo governo.
O resultado veio em janeiro deste ano. As forças de al-Sharaa avançaram contra os curdos e retomaram várias das áreas de maioria árabe que estavam sob poder da SDF. Rojava perdeu boa parte da autonomia. Os curdos se sentiram traÃdos.
Com os objetivos de Trump para a guerra no Irã mudando a cada minuto, lideranças curdas afirmam ser necessário ter algum tipo de garantia em troca de se transformarem em aliado israelo-americano contra o regime dos aiatolás âpor exemplo, negociar uma autonomia ou independência de sua região.
"Os curdos já viram esse filme antes, já tivemos alianças desequilibradas com grandes potências. Todas as vezes, quando as prioridades geopolÃticas mudaram, os curdos pagaram por isso, enfrentando retaliação de governos regionais", diz Hiwa Osman, jornalista curdo e ex-assessor do ex-presidente iraquiano Jalal Talabani.
Do ponto de vista da estratégia americana, há diferenças importantes entre a guerra no Irã e o conflito contra o Estado Islâmico na SÃria.
Os curdos sÃrios tinham um território muito menor para defender e uma tarefa muito mais simples ânão era um paÃs de 90 milhões de habitantes. Ainda assim, precisaram de anos para cumprir a missão, com apoio de caças americanos, bilhões em armamentos e forças especiais americanas no terreno.
Além disso, os curdos são apenas cerca de 9% da população iraniana e não é certeza que receberiam apoio amplo em áreas não curdas âou seja, grande potencial para conflitos étnicos.
A Operação Ciclone dos EUA no Afeganistão, durante a invasão soviética e subsequente inÃcio da guerra civil, de 1979 a 1992, oferece outras lições construtivas para uma nova aventura americana.
Na época, a CIA, em parceria com os serviços de inteligência do Paquistão, financiou campos de treinamento de extremistas islâmicos e armou milÃcias para combater tropas estrangeiras (da União Soviética) que apoiavam o governo comunista afegão.
Um dos mujahideen árabes que se juntaram à "guerra santa" contra o governo apoiado pelos soviéticos foi Osama bin Laden. Embora não fosse diretamente financiado pela CIA, ele era próximo dos extremistas bancados pela agência americana, que auxiliaram na criação da Al Qaeda.
Após a retirada das tropas soviéticas em 1989, a guerra civil tomou conta do paÃs e matou mais dezenas de milhares âcom armas fornecidas pelos EUA e pela União Soviética.
Washington está mirando na parceria bem-sucedida com os curdos na SÃria, mas pode acabar com os rastros de destruição deixados por sua intervenção no Afeganistão.