Resumo objetivo:
A notícia analisa os reais interesses por trás dos bombardeios dos EUA ao Irã, indo além do discurso oficial de "libertar o povo". Segundo o analista entrevistado, o objetivo estratégico é neutralizar o Irã como potência regional que desafia a influência americana e ameaça aliados como Israel, controlando rotas comerciais e energéticas vitais. A reportagem também critica a retórica religiosa utilizada para justificar a guerra e alerta para a concentração de poder no presidente Trump, enfraquecendo o Congresso e a democracia.
Principais tópicos abordados:
1. Interesses geopolíticos dos EUA: Neutralizar o Irã como potência regional, controlar rotas estratégicas e conter sua influência.
2. Discurso seletivo e retórica religiosa: A justificativa de "libertar" o povo é vista como seletiva, com uso de narrativas religiosas para desumanizar o inimigo e motivar tropas.
3. Concentração de poder e erosão democrática: Crítica ao "presidencialismo imperial" de Trump e ao enfraquecimento do Congresso, criando um precedente perigoso de autocratização.
Enquanto Donald Trump anuncia ao mundo que os bombardeios contra o Irã visam “libertar o povo iraniano de um regime opressor”, a realidade da população foi outra. O analista internacional e doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Herinque Gomes, avalia no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato que a análise histórica e estratégica mostra que há interesse dos Estados Unidos em neutralizar Teerã como potência regional.
“A minha análise é de que o objetivo dessa operação militar conjunta é neutralizar as forças militares e infraestruturas, principalmente nucleares do Irã, para neutralizar a potencial ameaça desse país.”
Ele explica a importância estratégica do país que está no eixo entre Europa e Ásia, é a ponte entre a Ásia Central, o Oriente Médio e o coração da Ásia. A rota terrestre para a Índia e a China passa pelo Irã. Além disso, controla o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo comercializado globalmente.
O analista lembra que o discurso contra o regime islâmico é seletivo, citando a Arábia Saudita que também é uma monarquia absolutista de viés religioso, mas é aliada dos EUA. “O problema do Irã é que ele desestabiliza a Pax Americana na região. Financia o Hamas, o Hezbollah e os houthis, o que prejudica os planos dos EUA e de Israel de expandir sua influência e conter a China.”
Uma organização que defende a liberdade religiosa nas Forças Armadas denunciou que os soldados escutam que Trump é um enviado de Jesus Cristo para causar o Armagedom no Irã.
“Não é novidade. Bush já usou o termo ‘cruzada’ após o 11 de setembro. Esse discurso serve para ‘outrificar’ o inimigo, transformá-lo no estereótipo do muçulmano terrorista, facilitando a operação militar. O soldado vai para o combate sem ter que pensar em direitos humanos ou ética”, relembra.
O analista aponta três fatores que explicam essa retórica. “Primeiro, o nacionalismo cristão, que prega que os EUA são um país cristão e devem traduzir essa ótica na política externa. Segundo, a influência da direita religiosa, que vê Israel como continuação direta do Israel bíblico e, portanto, todos os inimigos de Israel são inimigos do cristianismo. Terceiro, uma teologia escatológica que acredita que a guerra no Oriente Médio vai desencadear os eventos do fim do mundo.”
Sobre a possibilidade de diálogo diplomático, Gomes é taxativo “ele já estava sendo sabotado”, já que acordo nuclear de 2015 foi rompido por Trump em 2018. O Irã voltou a enriquecer urânio. “Na semana passada, houve uma última tentativa de negociação em Genebra, mas Trump já havia prometido atacar antes mesmo da reunião.”
O Congresso dos EUA e a concentração de poder
Gomes analisa a derrota no Senado da resolução que limitaria os poderes de guerra do presidente Donald Trump. “A Constituição dos EUA determina que o presidente só pode declarar guerra com aval do Congresso. Mas há brechas: ataques iminentes ou emergência nacional, e a possibilidade de iniciar uma operação e notificar o Congresso em até 48 horas, que tem 60 dias para ratificar.”
Para ele, a decisão reflete um fenômeno mais amplo em que Parlamentos no mundo todo “estão perdendo poder”. E acrescenta que “Trump concentra cada vez mais poder, num fenômeno de ‘presidencialismo imperial’. O Congresso, controlado pelo Partido Republicano, se tornou imagem e semelhança de Trump.”
Gomes alerta para o precedente perigoso. “Isso é mais um capítulo no processo de autocratização e recrudescimento da democracia nos Estados Unidos. E cria um precedente perigoso para o resto do mundo, porque outros líderes que desejam acumular poder podem querer mimetizar o que tem acontecido lá.”
Para ouvir e assistir
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