O filme "A vida secreta de meus três homens", de Letícia Simões, é um trabalho híbrido que usa as histórias do avô, do pai e do padrinho da diretora como ponto de partida para investigar memórias familiares e violências históricas do Nordeste e do Brasil. Através de uma mescla de documentário, ficção e ensaio com atores representando essas figuras, o objetivo declarado é "fabular a partir dessas violências", explorando temas como ditadura, opressão e identidade. A obra se constrói de forma lúdica e poética, embaralhando deliberadamente os limites entre fato e invenção, memória e representação.
Principais tópicos abordados:
* A natureza híbrida e experimental do filme (documentário, ficção, ensaio).
* A investigação de violências históricas e sociais do Brasil através de histórias pessoais.
* O processo criativo de fabulação a partir da memória e da realidade.
* A dissolução deliberada das fronteiras entre fato e ficção, representação e depoimento.
Cinema: A tênue linha entre o fato e a fábula
Em A vida secreta de meus três homens, a história do avô, pai e padrinho da cineasta, vividos por atores, é o ponto de partida para escavar segredos e traçar um painel da brutalidade no Nordeste. O objetivo confesso: “fabular a partir dessas violências”
Publicado 05/03/2026 às 18:16
Por José Geraldo Couto, no Blog do IMS
Um dos filmes mais estimulantes da temporada é o inclassificável A vida secreta de meus três homens, de Letícia Simões, que entra em cartaz nesta quinta-feira em poucos e selecionados cinemas.
Híbrido de documentário, memórias, ficção, ensaio e poesia, a obra tem como eixo as relações da diretora com três homens que moldaram sua experiência e seu imaginário: o avô Arnaud, que ainda adolescente participou do bando de Lampião; o pai, Fernando, que serviu como delator do famigerado SNI da ditadura militar; e o “padrinho” Sebastião, fotógrafo gay negro amigo de seu avô.
Cada um desses fantasmas é encarnado por um ator (respectivamente, Guga Patriota, Giordano Castro e Murilo Sampaio), com quem Letícia (encarnada pela sempre ótima Nash Laila) dialoga. Essas conversas, desenroladas nos mais variados cenários, geralmente com fundo infinito de cores marcantes (azul, marrom, vermelho, violeta), são entremeadas com todo tipo de imagem: fotos antigas, trechos de filmes domésticos (reais ou forjados), animação, etc.
Essa colagem heterogênea, que poderia resultar numa ego trip, acaba por compor algo totalmente diverso: um vívido mapa histórico, social, cultural e afetivo do país, que a certa altura a narradora/diretora/protagonista define como “um pesadelo com ótimos cenários”.
Ao escavar as origens de cada um de seus homens, Letícia traça um painel das violências que deram forma ao Brasil, em especial ao Nordeste. Do massacre de nações indígenas inteiras às ditaduras contemporâneas, dos êxodos forçados à opressão das ditas minorias, tudo atravessa a história desses homens e seus antepassados. O intuito expresso da diretora é “fabular a partir dessas violências”.
Um espírito lúdico, e sobretudo poético, preside essa composição heterogênea. Há um constante jogo de surpresas e deslocamentos. O mais velho dos personagens – o ex-cangaceiro Arnaud, que morreu com Alzheimer quando Letícia ainda era criança – é representado pelo mais jovem dos atores, Guga Patriota, caracterizado como um cabeludo que se veste de mulher. Letícia, aliás a narradora, aliás a atriz Nash Laila, diz que sempre intuiu no avô uma natureza feminina. A fabulação molda a memória, tudo é misto de fato e invenção.
A própria diretora se põe em cena ocasionalmente, respondendo a questões dos atores, o que contribui para um embaralhamento entre depoimento e encenação. Os atores são tão bons na construção de suas personas que, mesmo com o desnudamento do processo de representação, transmitem uma emoção genuína.
O que parece confessional é “soprado” às vezes pela narratora/diretora, como na cena em que Sebastião recorda o dia em que foi atacado brutalmente com seu amado numa praia de Salvador. Ouvimos a narradora dizer as frases que ele repete. Mesmo assim, as lágrimas brotam reais, como se ele “chegasse a sentir que é dor a dor que deveras sente”. A ideia subjacente a esse processo de encenação talvez seja a de que todo homem negro gay carrega dentro de si a dor da violência sofrida por um dos seus (ou por milhões dos seus).
Assim, alguns dos diálogos são quase como psicodramas temperados pelo humor e pelo espírito de jogo. Num deles, Letícia/narradora/Laila confronta o pai delator citando uma cena da série Família Soprano. De repente, a atriz cai no choro, em seguida corrige a postura e volta a rir. O que estava previsto nesse movimento? O que foi improvisado? Houve algum nervo tocado pelo diálogo no íntimo de Nash Laila? Nunca saberemos – e pouco importa. O que vale é mesmo esse jogo entre memória e ficção, realidade e representação, e parece que o elenco e a equipe incorporaram esse espírito por completo.
Letícia Simões, que nasceu na Bahia e estudou em Londres, em Cuba e no Rio de Janeiro, é antes de tudo poeta, não só porque é autora de livros de poesia, mas porque essa é a substância de seu trabalho audiovisual. Três de seus longas anteriores – Bruta aventura em versos, Tudo vai ficar da cor que você quiser e O chalé é uma ilha batida de vento e chuva – compõem uma trilogia sobre poesia brasileira. E é um impulso poético que comanda sua orquestração de imagens e sons, misturando registros, experimentando associações, surpreendendo sempre. Cinema impuro, pulsante, para quem está cansado de só ver na tela histórias ilustradas.
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