Resumo objetivo:
O texto é um desabafo sobre um bloqueio criativo e uma crise de autenticidade na escrita. A autora lista indicações culturais que poderiam compor uma coluna intelectual, mas confessa que seu corpo e mente se recusam a produzir esse tipo de conteúdo distante. Ela conclui que a verdadeira necessidade é escrever de forma visceral sobre sua própria mágoa e desamparo, rejeitando a sofisticação fria em favor de um grito pessoal e autêntico.
Principais tópicos abordados:
1. Conflito entre autenticidade e sofisticação intelectual: A tensão entre a expectativa de um texto "elegante" e o impulso interior para uma expressão dramática e pessoal.
2. Bloqueio criativo e recusa corporal: A descrição de uma greve física e mental que impede a escrita intelectualizada.
3. A busca por uma voz autêntica: A rejeição de convenções sociais (na escrita e nas amizades) e a defesa de um expressar-se cru, ligado às origens e às emoções profundas.
4. Crítica às relações superficiais: O cansaço com amizades frouxas e o anseio por laços profundos, leais e visceralmente solidários.
Sugiro a leitura do livro "O Adversário", de Emmanuel Carrère. Aproveito o embalo e indico "Outras Vidas Que Não a Minha", do mesmo autor. Indico também "Servir aos Super-Ricos" da socióloga Alizée Delpierre. Comecei a ler, recentemente, "A Ameaça Interna", de Vladimir Safatle, e "Matrescência", de Lucy Jones. Está na minha pilha o "Hipocritões e Olhigarcas", de Rui Tavares. Todos esses livros dariam belas colunas; todas as citações me encheriam de pose e me protegeriam de dizer algo sobre mim.
Contudo, mais uma vez meu cérebro está em greve, minhas mãos estão em greve. Não é para arrotar intelecções e finezas que você escreve! à para gritar quando te machucam! Esse foi o pacto feito na infância (e, se você não honrá-lo, eu vou te deixar com tendinites e enxaquecas).
Eu frequento ambientes que rejeitam textos exagerados, dramáticos e autorreferentes. Dizem que é coisa de gente sem instrução, sem elegância, sem maturidade âcoisa de pobre. Tento então escrever como essas pessoas dizem que me fará bem e fará bem ao meu trabalho. Não sai nada. Meu corpo, minha mente, meu estômago, todos se negam.
Recordo uma cena em que minha avó chega da feira com a minha mãe. Eu devia ter uns oito anos. Minha mãe ficava morta de vergonha porque minha avó sempre arrumava confusão e falava palavrões, e todos olhavam para elas. Minha avó, magoadÃssima, responde: "Se me roubam, eu grito mesmo, mas se você sente vergonha, melhor não estar do meu lado".
Quero falar sobre o filme "Jovens Mães", dos irmãos Dardenne. Como eles conseguiram fazer uma obra sobre esperança exibindo âcom tanta cruezaâ a essência do desamparo? Quero falar sobre o filme "Valor Sentimental". Não é lindo que a irmã que não está tão psiquicamente arrebentada seja historiadora e por isso pôde organizar melhor seu romance familiar?
Digo ao meu analista que não trabalho para mim, que nunca sei direito o quanto faço e o quanto ganho. Do meio dos escombros (está difÃcil fazer análise com a sua casa em obras), ele emerge: "Quem é o seu âcapoâ"?
Quero falar sobre o arrebatamento que senti vendo Leona Cavalli em "Senhora dos Afogados": o exagero é a única arte que importa. Quero falar sobre o tesão que senti vendo "Rivalidade Ardente". Quero entender por que é no apaziguamento pós-agressividade (e não na negação dela) que consigo realmente amar.
Nada disso importa. Meu corpo inteiro grita: quero escrever sobre o tamanho da minha mágoa. Quero contar sobre o rombo que está em meu peito. Danem-se os filmes, os livros, o mundo inteiro que desfila suas agendas bem longe da feira em que minha avó berra para não ser enganada. Quero me esgoelar com a força do desamparo de uma garotinha solitária pelos cantos na hora do recreio, desesperada por relações profundas e viscerais. Eu tentava, tentava, tentava, e a amizade verdadeira sempre me escapava.
Quero dizer como estou farta de amizades frouxas, ingratas e superficiais, uma após a outra após a outra. Eu estou tão disposta, eu aposto tanto. Eu cansei dos memes engraçadinhos que recebo dos amigos insones. Danem-se as amizades de meme (e de merda) que fazemos pela vida. Eu quero amigos que segurem minhas mãos e digam: "Eu sou seu irmão, eu sou sua irmã, quem te maltrata me maltrata, quem te eleva me eleva, estou com você até o fim". Se me roubarem na feira, eu vou gritar. Se você sentir vergonha, melhor não estar do meu lado.