A farmacêutica Novo Nordisk anunciou um programa piloto para oferecer o medicamento Wegovy (semaglutida) em três centros da rede pública de saúde do Brasil, combinado com um protocolo multidisciplinar de cuidado. O objetivo é gerar evidências clínicas, econômicas e sociais sobre o tratamento da obesidade grave no SUS para embasar futuras decisões de incorporação, já que atualmente nenhum remédio para controle de peso é fornecido pelo sistema. No entanto, há uma divergência entre o anúncio da empresa e a informação de um dos centros listados, que nega a existência de uma parceria firmada.
Principais tópicos abordados:
1. O lançamento de um programa piloto de acesso ao medicamento Wegovy no SUS.
2. O objetivo de gerar dados para subsidiar a possível incorporação futura da tecnologia.
3. A contradição sobre a efetiva parceria com um dos centros de saúde mencionados.
4. O contexto da obesidade no Brasil e a falta de medicamentos para essa finalidade no SUS.
A farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk anunciou, nesta quarta-feira (4), um programa de acesso ao Wegovy (semaglutida injetável) em três centros da rede pública de saúde do Brasil. A iniciativa global em parceria com o governo da Dinamarca, que também abrange ilhas do PacÃfico e a própria Dinamarca, prevê a oferta do remédio combinada a um protocolo multidisciplinar de cuidado durante pelo menos dois anos.
No paÃs, a farmacêutica divulgou a parceria envolve os três nÃveis da administração pública: o Grupo Hospitalar Conceição (GHC), instituição federal em Porto Alegre, e o Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (Iede), na cidade do Rio de Janeiro. Um terceiro centro, de nÃvel municipal, ainda será escolhido.
No entanto, a Fundação Saúde do Estado do Rio de Janeiro, gestora do Iede, informou à Folha que não há qualquer parceria firmada entre a unidade e a Novo Nordisk. A instituição diz que fez uso de liraglutida no tratamento ambulatorial de cerca de 200 pacientes com obesidade extrema e que há um processo licitatório em andamento para aquisição da semaglutida.
"O perfil de paciente do Iede, para esse tratamento, é de pessoa com obesidade grave e o protocolo da unidade contempla pacientes com Ãndice de massa corporal acima de 50 kg/m2", afirma. "à a equipe médica que avalia o uso ou não, de acordo com perfil de cada paciente"
O programa da Novo Nordisk foi apresentado ao Ministério da Saúde, que acompanhará os resultados da implementação, mas não integra a parceria. Os pacientes atendidos serão aqueles já vinculados às instituições, e cada centro definirá seus próprios critérios para a escolha de cada participante. Ou seja, a população geral não poderá se inscrever voluntariamente para o projeto.
Além do fornecimento do medicamento, a farmacêutica se compromete a capacitar profissionais de saúde, apoiar a gestão do cuidado e financiar o monitoramento independente dos dados, conduzido por parceiros técnicos e acadêmicos. A meta é reunir evidências clÃnicas, econômicas e sociais sobre o tratamento da obesidade grave no SUS (Sistema Ãnico de Saúde) que possam embasar decisões de incorporação de tecnologias na rede pública.
Atualmente, nenhum medicamento destinado ao controle de peso está incorporado ao SUS. Em agosto de 2025, a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias) rejeitou os pedidos de inclusão da semaglutida e liraglutida. Na época, o Ministério da Saúde afirmou que o impacto financeiro estimado seria de R$ 8 bilhões por ano.
O Atlas Mundial da Obesidade 2025 mostra que 1 a cada 3 brasileiros é obeso e que 68% da população tem sobrepeso. O mesmo levantamento de 2026, focado em crianças e adolescentes, mostra que cerca de 38% de brasileiros de 5 a 19 anos vivem atualmente com sobrepeso ou obesidade.
A Novo Nordisk argumenta que o tratamento precoce e integral da obesidade pode reduzir complicações dispendiosas para o sistema de saúde, como cirurgias cardÃacas, diálise e internações. A empresa afirma que pretende expandir o modelo para outras populações em situação de vulnerabilidade social ao redor do mundo, a partir dos dados gerados nesta fase piloto.
Em comunicado à Folha, a SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), diz que a notÃcia foi recebida com entusiasmo na instituição, que tem se dedicado à conscientização da obesidade como doença crônica, que precisa de tratamento multidisciplinar e tratamento medicamentoso à longo prazo.
"Apesar de termos avançado para as opções de tratamento, nenhuma medicação é disponibilizada no SUS", afirma. "Saber que agora centros do Brasil, que podem fazer parte de um projeto que poderá ser replicado em todo Brasil é o inÃcio para uma nova era."