Resumo objetivo:
No sexto dia do conflito, o Irã demonstrou uma resposta militar organizada e descentralizada, atingindo bases dos EUA na região após um ataque americano que visava "decapitar" sua liderança. O analista entrevistado alerta que o maior risco não é a guerra convencional, mas uma possível escalada nuclear, que poderia desencadear uma corrida armamentista. Ele também destaca que os EUA subestimaram a preparação iraniana, que se estruturou em um "mosaico defensivo" após um ataque anterior.
Principais tópicos abordados:
1. A resposta militar eficaz e descentralizada do Irã aos ataques dos EUA e Israel.
2. O alerta sobre o risco de escalada nuclear e a perda do medo global em relação a armas atômicas.
3. A análise da estratégia iraniana de aprendizado com conflitos anteriores e a crítica à ação "precipitada" dos EUA.
4. A situação política delicada do presidente dos EUA, Donald Trump, pressionado entre a guerra e sua base antibelicista.
O sexto dia da guerra imposta por Estados Unidos e Israel contra o Irã chega com um balanço que surpreendeu os estrategistas do Pentágono. Longe de colapsar com a morte do líder supremo Ali Khamenei, o Irã demonstrou uma capacidade de resposta organizada, descentralizada e eficaz, atingindo bases militares americanas em toda a região e obrigando Washington a repensar sua estratégia.
Para analisar os desdobramentos do conflito, o Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato entrevistou Héctor Luis Saint Pierre, professor titular de Segurança Internacional do Programa San Tiago Dantas, que fez um alerta contundente: o verdadeiro perigo não está na guerra convencional, mas na possibilidade de uma escalada nuclear.
“Eu entendo que foi uma ação bastante precipitada por parte dos Estados Unidos. Não precipitada em termos estratégicos, porque estava calculada já faz um tempo. Calculada também a traição que já fizeram durante a batalha dos 12 dias, em junho do ano passado — estavam em plena negociação quando fizeram o bombardeio”, aponta Pierre.
Ele lembra que, desta vez, o Irã estava novamente negociando e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, manifestou que estava muito próximo de um acordo, “muito mais favorável para os Estados Unidos do que o acordo de Obama e também assegurou que na segunda-feira estaria assinado. Mas eles imaginaram que poderiam repetir o episódio de junho: decapitar.”
O professor explica que Washington não imaginava que Teerã estudaria a operação de junho e aprenderia com ela. “Primeiro, constitucionalmente, há uma substituição dos quadros políticos e militares. Segundo, do ponto de vista estratégico, elaboraram um desenho de descentralização do comando e controle — um regime em rede que chamaram de ‘mosaico defensivo’.”
“O bombardeio norte-americano começou às 9h e às 9h45 acabou. Quase que imediatamente, todo o sistema defensivo de mosaicos começou a bombardear bases militares estadunidenses. Atingiram o comando central da Quinta Frota, radares importantes, e enviaram uma mensagem clara: manter bases militares na região é um risco.”
Saint Pierre menciona ainda indícios de guerra eletrônica. “Aparentemente, conseguiram cegar os aviões norte-americanos e israelenses, obrigando a maioria a bombardear de fora do território.”
Sobre a capacidade militar iraniana, o analista é enfático. “Eles se prepararam. Foram traídos em junho e não seriam enganados duas vezes. Têm lançadores móveis espalhados pelo território, túneis, e estima-se que no começo da guerra tinham cerca de 10 mil mísseis de diferentes categorias. Muitos analistas apontam que ainda não usaram os mísseis principais, os mais eficientes.”
Por sua vez, Saint Pierre vê Trump numa situação delicada: “Ele entrou numa ratoeira. Se se retirar sem nenhuma vitória, perde as eleições de meio de mandato e a moral em relação à sua própria base, que é antibelicista. A base dele quer comércio, negócios. E negócio não se faz em guerra.”
O professor faz um alerta grave que é a escalada para um nível nuclear. “Se, por desespero, Israel ou os Estados Unidos lançassem uma bomba tática — uma bomba pequena, mas com capacidade de destruição equivalente a 13 ou 14 bombas de Hiroshima — isso não acabaria no Irã. Iniciaria uma corrida nuclear.”
Ele lamenta que a humanidade tenha perdido o medo da guerra nuclear. “Na Guerra Fria, todo mundo estava em pânico. Havia o medo da destruição mútua assegurada, que impedia o uso. Hoje não há medo. E o perigo é real.”
Diante desse cenário, Saint Pierre duvida da participação europeia nessa guerra e cada país pode se preparar para pensar estrategicamente sozinho. Já a Turquia, ele relembra que ao mesmo tempo é aliada dos EUA e tem uma relação tensa com Israel.
Para ouvir e assistir
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