Resumo objetivo:
A Rússia, por meio de seu chanceler Serguei Lavrov, condenou veementemente os ataques dos EUA e Israel contra o Irã, alertando para uma perigosa escalada no Oriente Médio. Lavrov defendeu a legitimidade do programa nuclear iraniano, negou haver provas de desenvolvimento de armas nucleares pelo país e fez um apelo pelo fim imediato das hostilidades e pela solução diplomática das divergências. Analistas apontam que, apesar da forte retórica, a Rússia deve limitar sua atuação ao plano diplomático, devido ao seu envolvimento na guerra na Ucrânia.
Principais tópicos abordados:
1. Condenação russa aos ataques: A Rússia classifica as ações dos EUA e Israel como agressão e pede o fim imediato das hostilidades.
2. Defesa do programa nuclear iraniano: A Rússia contesta as justificativas para o conflito, afirmando não haver evidências de que o Irã busque armas nucleares.
3. Chamado à diplomacia: Enfatiza-se a necessidade de resolver as divergências por meios diplomáticos e multilaterais, criticando-se o enfraquecimento do direito internacional e do papel da ONU.
4. Análise geopolítica: Discute-se o impacto do conflito, a falta de legitimidade das ações norte-americanas e a posição limitada da Rússia, devido ao seu comprometimento na guerra da Ucrânia.
A Rússia acendeu o alerta em relação à escalada do conflito no Oriente Médio, após os ataques dos EUA e Israel contra o Irã. Na última terça-feira (3), o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, declarou que a ambição dos Estados Unidos de controlar outros países não se limitará à Venezuela, Irã e Cuba.
O chanceler também acrescentou que as ações da Casa Branca podem fortalecer as forças pró-nucleares no Irã e nos países vizinhos, destacando a legitimidade do Irã de desenvolver seu programa nuclear.
“Ouvimos falar regularmente sobre os objetivos desta guerra, mas ainda não vemos nenhuma evidência de que o Irã estivesse desenvolvendo armas nucleares — precisamente o que serviu como principal, senão única, justificativa para a guerra. Há confirmação da AIEA, bem como de oficiais de inteligência profissionais americanos, de que o Irã não produziu, nem tentou produzir armas nucleares”, afirmou.
A Rússia vem condenando de maneira veemente o que chamou de agressão dos EUA e de Israel contra o Irã, após os ataques que se iniciaram em 28 de fevereiro. A diplomacia russa defendeu o fim das hostilidades, por todas as partes, para garantir a segurança das pessoas e da infraestrutura civil. E fez um apelo para a resolução das divergências por meio da diplomacia.
Segundo Lavrov, Moscou se manifesta “de forma categórica e resoluta a favor da cessação imediata das hostilidades por todas as partes”. “E como primeiro passo incondicional, fazer todo o possível para pôr fim a quaisquer ações que resultem em vítimas civis, seja no Irã, onde mais de 150 meninas foram mortas em um ataque a uma escola, seja em qualquer outro país do Golfo Pérsico”, acrescentou.
Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor de Relações Internacionais da UFRJ, Fernando Brancoli, ao analisar os impactos geopolíticos do conflito no Oriente Médio, aponta que a guerra na região representa “uma exacerbação de uma atuação norte-americana que abandonou por completo qualquer grau de legitimidade dentro de uma estrutura multilateral”.
“Se algumas semanas atrás falávamos do sequestro do Maduro como uma ação sem nenhum tipo de respaldo internacional, a atuação agora no Irã se replica dentro desse contexto. Apesar de os Estados Unidos e Israel argumentarem ou afirmarem que a ação é uma resposta a um provável ataque iraniano, até mesmo as mensagens vindas por parte da presidência dos Estados Unidos e da Secretaria de Estado são um pouco incongruentes. Já falaram que, na verdade, era uma resposta a um possível ataque israelense que geraria um ataque iraniano. Agora já se fala em mísseis balísticos. A coisa está um pouco confusa”, afirma.
De acordo com o pesquisador, a atuação dos EUA e de Israel no Irã “é uma materialização ainda mais explícita de uma realidade internacional onde o direito internacional e a tentativa de solução que passe por uma dimensão multilateral estão cada vez mais enfraquecidos”. “O papel da ONU, imaginando agora no conflito entre Israel, o Irã e os Estados Unidos, é praticamente nulo”, completa.
Neste contexto, a Rússia, apesar das condenações veementes dos ataques por parte dos EUA e Israel, e Irã ser um importante parceiro de Moscou, não deve exercer um papel mais direto neste conflito, considerando os esforços militares e financeiros voltados para a guerra da Ucrânia. Para o professor de Relações Internacionais da UFRJ, Fernando Brancoli, a condenação russa não deve passar do plano diplomático.
“A Rússia tem feito movimentações basicamente diplomáticas. […] A Rússia já se encontra envolvida em um conflito com a Ucrânia, onde parte importante e relevante das suas Forças Armadas e da sua economia está dedicada a esse espaço de violência. Então, acho que tem muito pouco que a Rússia possa fazer”, afirma.
Ao mesmo tempo, Brancoli destaca que a Rússia olha com muita atenção para conflito, na medida em que os EUA, que é o principal apoiador ucraniano no que diz respeito a armamentos, treinamento e financiamento, já estejam deslocando suas forças e equipamentos para o teatro de operações do Oriente Médio. “Isso acontece, por exemplo, com baterias antiaéreas da Coreia do Sul, que são norte-americanas, estavam instaladas na Coreia do Sul e já estão sendo mobilizadas para o Oriente Médio”, explica.
Mas a relação entre o conflito no Oriente Médio e a guerra da Ucrânia vai além da posição estratégica russa em relação ao Irã e pode ter desdobramentos geopolíticos mais amplos. A Ucrânia, sendo forte aliada dos EUA, já manifestou prontidão para fornecer ajuda a Washington, com seus especialistas de combate a drones, considerando o acúmulo de experiência de Kiev no combate a esses equipamentos na guerra com a Rússia.
Ao expressar disposição no apoio de especialistas ucranianos, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, ressaltou que seu foco imediato é a proteção contínua do território ucraniano e que o este apoio aconteceria desde que a defesa das cidades ucranianas permaneça como prioridade.
“E é por isso que todos estão interessados em nossa experiência. Somos um país normal, muito sensato, que está em estado de guerra. Não podemos simplesmente entregar armas das quais temos escassez. Aliás, todos entendem isso. Pessoas sensatas entendem isso. Conhecimento, experiência. Eles sabem que podem vir aqui – receberam esses sinais. Para se valer de nossa experiência em como proteger a população civil. Isso é absolutamente possível”, disse Zelensky.
Ao mesmo tempo, o presidente reconheceu que os riscos podem aumentar, em caso de um conflito prolongado no Oriente Médio. “De qualquer forma, se houver hostilidades prolongadas no Oriente Médio, isso certamente afetará o fornecimento [de armas]. Tenho certeza disso”, disse Zelensky.
Mas, enquanto Kiev se coloca como parceira estratégica, o avanço das tensões no Oriente Médio ocorre justamente em um momento de possível reconfiguração do cenário internacional, o que pode alterar o foco político e militar dos Estados Unidos e impactar diretamente o apoio à Ucrânia.
Além da mobilização de equipamento, financiamento e atenção para o Oriente Médio, o próprio cenário interno dos EUA, nas discussões no Congresso, será muito mais dedicado à guerra com o Irã ao longo das próximas semanas. De acordo com o professor de Relações Internacionais, Fernando Brancoli, há também um efeito midiático que pode pesar contra os interesses do presidente ucraniano.
“Parte importante da estratégia ucraniana e europeia, de maneira expansiva no que diz respeito ao conflito com a Rússia, se relaciona à manutenção constante da atenção da população europeia e da imprensa internacional a esse conflito. Tudo o que a Ucrânia não deseja é que o conflito fique na página três ou quatro dos jornais e se fale mais em relação ao Irã, até mesmo porque a pressão para apoio ucraniano mudaria”, completa.