Resumo objetivo:
O artigo argumenta que guerras não são eventos súbitos, mas sim construídas por retórica política, desinformação e pelo enfraquecimento das instituições multilaterais de prevenção. Ele cita como exemplos recentes a crise em Gaza e o bombardeio a uma escola no Irã, além de lembrar a invasão do Iraque baseada em informações falsas, para ilustrar como a violência se normaliza e vidas são desvalorizadas. Por fim, critica o abandono dos compromissos humanitários internacionais, mostrando que conflitos prolongados e interferências externas deixam populações inteiras em sofrimento permanente e esquecidas.
Principais tópicos abordados:
1. A construção gradual dos conflitos através de retórica, desinformação e enfraquecimento institucional.
2. O fracasso ou abandono dos compromissos e normas humanitárias internacionais.
3. A normalização da violência e a hierarquização do valor da vida.
4. Exemplos concretos de crises atuais e passadas (Gaza, Irã, Iraque, Síria, Afeganistão) e suas consequências humanitárias duradouras.
5. Os efeitos devastadores e prolongados das interferências externas e das guerras nas populações civis.
Guerras não são súbitas; são construÃdas. Crescem na retórica polÃtica, amadurecem na desinformação e ganham força quando instituições multilaterais criadas para preveni-las se enfraquecem. Conflitos se consolidam quando a opinião pública passa a aceitar a escalada da violência como inevitável e a definição de que algumas vidas valem menos do que outras deixa de ser velada. Gaza materializou essa lógica. A tragédia em Minab, no sul do Irã, é a confirmação mais recente.
Em 2016, no quinto ano da guerra na SÃria, a ONU realizou em Istambul a primeira Cúpula Mundial Humanitária. A Agenda para a Humanidade, proposta pelo secretário-geral da organização à época, Ban Ki-moon, estabeleceu cinco responsabilidades centrais: prevenir e encerrar conflitos; respeitar as regras da guerra; não deixar ninguém para trás; trabalhar de maneira diferente para reduzir necessidades humanitárias; e investir na proteção da humanidade.
A ideia era marcar um ponto de inflexão sobre como o mundo responde a guerras e crises humanitárias. Prestes a completar uma década, esse compromisso parece ter sido abandonado.
A escalada militar contra o Irã anuncia a chegada de uma nova crise humanitária. O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu uma investigação independente sobre o bombardeio a uma escola feminina em Minab, no sul do paÃs, que matou mais de 170 crianças e funcionários.
Ao comentar ataques israelenses contra centros religiosos e polÃticos na cidade de Qom, o presidente Donald Trump afirmou que todas as pessoas que Washington imaginava para uma eventual liderança no Irã já estariam mortas. Quando o premiê Binyamin Netanyahu afirma que Israel pretende matar o novo lÃder supremo iraniano, perde ainda mais força o argumento de que a guerra seria para impedir o avanço do programa nuclear do paÃs persa.
A história recente reúne justificativas semelhantes. Em março de 2003, EUA e Reino Unido invadiram o Iraque sob o argumento de que o paÃs possuÃa armas de destruição em massa. Elas jamais foram encontradas. Grande parte da mÃdia e da opinião pública reforçou essa narrativa. O resultado foi um paÃs devastado e politicamente instável.
Em 2019, estive no Oriente Médio com uma colega jornalista, como enviadas do Jornal da Cultura. Chegamos primeiro ao Irã, em meio a ameaças públicas de ataque feitas por Trump em seu primeiro mandato. Em um tuÃte, ele advertiu que um confronto poderia significar "o fim oficial do Irã" e chegou a anunciar uma ofensiva âcancelada minutos antes de ser executada. Em Teerã e Qom, porém, a vida cotidiana contrastava com as manchetes de guerra. FamÃlias faziam piqueniques nos parques e peregrinos continuavam chegando aos santuários.
Depois do Irã seguimos para Iraque e LÃbano, onde o ciclo de vida do sofrimento humano traduzia claramente a lógica de deixar alguns povos para trás. No Iraque, em Bagdá, Najaf e Karbala, oito anos após a retirada das tropas americanas, os sinais de destruição apareciam em cada detalhe, da infraestrutura à s histórias das pessoas, marcadas pelo caos polÃtico, econômico e social e pela ascensão do Daesh, conhecido no Ocidente como Estado Islâmico. No LÃbano, a realidade nos campos de refugiados palestinos e sÃrios imprimia sua própria mensagem. Guerras prolongadas e deslocamentos forçados não impedem o mundo de seguir o seu curso, sem olhar para trás.
Os iranianos devem decidir o futuro do seu paÃs sem interferências externas. Os paÃses vizinhos ao Irã são exemplos do preço dessa interferência. Atribui-se ao ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan uma máxima muito usada no contexto de desastres: o sofrimento de uma população, após uma tragédia, começa, de fato, quando a última emissora se retira de cena. Um dia, o mundo parou diante das imagens de Cabul tomada pelo Talibã. Hoje, não se discute o destino dos afegãos nem das crianças expostas à prática do "bacha bazi", conhecida como "dança dos meninos". Quantos lÃderes internacionais condenaram e pediram investigação do assassinato das crianças em Minab?
Zygmunt Bauman foi certeiro ao dizer que o destino dos choques é cair no véu da normalidade. Com mais de 120 conflitos armados no mundo, segundo o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, as tragédias humanitárias parecem se misturar com o fluxo trivial dos acontecimentos cotidianos.
TENDÃNCIAS / DEBATES
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.