Resumo objetivo:
Uma nova pesquisa publicada na revista Nature revela que a maioria dos estudos científicos sobre elevação do nível do mar subestima a altura atual da água costeira, usando métodos que comparam elevação do terreno com modelos baseados no campo gravitacional da Terra (geoide). Isso faz com que os níveis costeiros reais estejam, em média, 20 a 30 cm mais altos do que o indicado em mapas e modelos, com discrepâncias ainda maiores em regiões como o Sudeste Asiático. O erro não invalida as conclusões sobre a taxa de elevação, mas distorce o ponto de partida para prever impactos futuros, afetando estimativas sobre populações e áreas em risco.
Principais tópicos abordados:
1. Subestimativa dos níveis costeiros atuais: Métodos científicos amplamente utilizados têm calculado erroneamente a altura real do mar junto ao litoral.
2. Impacto nas estimativas de risco: Centenas de milhões de pessoas a mais vivem perto do oceano do que se pensava, especialmente em regiões complexas como o Sudeste Asiático.
3. Falha metodológica: A maioria dos estudos (cerca de 90%) baseia-se apenas no modelo geoide, ignorando fatores locais como correntes e marés.
4. Relevância para políticas públicas: A imprecisão afeta projeções usadas por governos para planejamento contra inundações e mudanças climáticas.
Uma nova pesquisa revelou que cientistas que estudam a elevação do nÃvel do mar têm usado métodos que subestimam o quão alta a água já está. Um dos resultados é que centenas de milhões de pessoas a mais em todo o mundo já vivem perigosamente perto do oceano em elevação do que pesquisadores ocidentais haviam estimado anteriormente.
O novo artigo, publicado nesta quarta-feira (4) na revista Nature, apontou que a grande maioria dos estudos cientÃficos cometeu esse erro. Os nÃveis costeiros do mar estão, em média, de 20 a 30 centÃmetros mais altos do que muitos mapas e modelos das costas do mundo indicam, segundo a pesquisa.
As discrepâncias são muito maiores em certas regiões, incluindo o Sudeste Asiático e nações do PacÃfico, onde a dinâmica oceânica é mais complexa. Lá os nÃveis costeiros do mar estão até vários metros mais altos do que comumente estimado.
As novas descobertas não significam, porém, que esses estudos estejam errados em suas conclusões mais amplas sobre a taxa de elevação do nÃvel do mar ou os danos que ela pode causar.
Os nÃveis costeiros estão subindo à medida que o mundo aquece. O que as novas descobertas significam é que os cientistas frequentemente trabalharam a partir de um ponto de partida errado ao calcular quais terras e populações podem ser afetadas no futuro. Em termos mais simples, eles estavam subestimando onde os nÃveis costeiros do mar já estão.
Isso importa à medida que governos e formuladores de polÃticas recorrem à ciência para entender quanta terra âe quantas pessoasâ podem ser afetadas conforme o mundo aquece e os oceanos sobem, disse Katharina Seeger, pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de Pádua (Itália), que liderou o estudo enquanto trabalhava em seu doutorado na Universidade de Colônia (Alemanha).
"Eu não esperava que a discrepância fosse tão imensa", disse.
à difÃcil imaginar não poder confiar em um mapa em uma era em que GPS e as imagens de satélite são tão prevalentes. Mas o novo estudo identificou um problema de longo alcance no método que pesquisadores frequentemente usam para entender as costas e como elas podem mudar em um clima em aquecimento.
O estudo verificou 385 outros artigos revisados por pares e descobriu que menos de 1% havia avaliado corretamente onde os nÃveis do mar estão hoje. O problema começa com um método de décadas que compara medições de elevação do terreno baseadas em satélite com algo que os cientistas conhecem como "modelo geoide", que é uma técnica para estimar o nÃvel médio do mar com base no campo gravitacional da Terra.
Esse método já foi considerado de ponta e comumente ensinado em programas de pós-graduação, disse Philip Minderhoud, autor sênior do artigo e professor associado que estuda subsidência de terras e elevação do nÃvel do mar na Universidade de Wageningen (PaÃses Baixos) e no Deltares, instituto cientÃfico na Holanda.
No entanto, outros satélites e instrumentos podem medir o nÃvel real do mar e revelar diferenças locais de fatores como correntes, ventos e marés, que também podem influenciar os nÃveis, mas não estão incluÃdos no modelo de campo gravitacional. Os cientistas podem estimar o nÃvel do mar com mais precisão quando ambas as peças do quebra-cabeça são combinadas corretamente.
Mas, em grande parte, o novo estudo afirmou, esse não tem sido o caso. Cerca de 90% dos trabalhos que Minderhoud e Seeger verificaram dependiam apenas do método de mapear os nÃveis do mar com o campo gravitacional da Terra. Outros 9% dos estudos, a maioria dos quais são relativamente recentes, usaram ambos os tipos de dados, mas aparentemente falharam em combiná-los corretamente.
Robert Kopp, cientista de clima e nÃvel do mar na Universidade Rutgers, em Nova Jersey (EUA), que não esteve envolvido no estudo, disse que o trabalho aborda uma questão técnica que importará muito mais para cientistas do que para tomadores de decisão em nÃveis locais.
"Em geral, pessoas que estão expostas a inundações de maré alta sabem onde o oceano está", disse Kopp.
Cientistas há muito dizem que a elevação do nÃvel do mar afetará muitas pessoas, e o novo estudo não muda isso, afirmou também.
No entanto, de uma perspectiva global, as descobertas indicam que centenas de milhões de pessoas a mais âparticularmente em Vietnã, Filipinas, Indonésia, Maldivas e outras nações do Sudeste Asiático e do PacÃficoâ estão vivendo mais perto do nÃvel do mar do que amplamente assumido por especialistas e formuladores de polÃticas ocidentais.