Resumo objetivo:
O artigo relata a decisão do ministro Gilmar Mendes que concedeu habeas corpus e libertou da prisão preventiva o médico Roger Abdelmassih, acusado de 56 estupros. O autor também responde a uma crítica indireta do advogado Juca, que sugeriu que a Folha perde furos para concorrentes, e relembra um caso de 1997 envolvendo uma reportagem sua sobre a Construtora Beter, cliente de Juca. Por fim, o autor defende o direito de defesa, mas afirma que, se fosse advogado, não defenderia figuras como Abdelmassih ou golpistas.
Principais tópicos abordados:
1. A libertação de Roger Abdelmassih por decisão judicial.
2. A troca de críticas veladas entre o autor e o advogado Juca sobre jornalismo e ética profissional.
3. A defesa do direito de escolha e da independência jornalística, com um posicionamento pessoal sobre os limites da atuação advocatícia.
Citei na FolhaJus desta semana decisão de Gilmar Mendes que tirou da prisão preventiva o médico Roger Abdelmassih, acusado de ter cometido 56 estupros contra 39 mulheres que eram suas pacientes. O habeas corpus foi pedido pelos advogados Márcio Thomaz Bastos e José Luis Oliveira Lima (Juca).
O texto já estava pronto quando li o comentário de Juca sobre o que mais o irrita no jornal: "Eu gosto tanto da Folha, que o que mais me irrita nesse jornal é quando ela toma um furo do concorrente".
Não acredito que os furos tomados pela Folha tirem o sono de leitores. No caso, leitores de, pelo menos, dois jornais.
O advogado lembrou que, durante um almoço com a direção do jornal na época do mensalão, sugeriu a Otavio Frias Filho (morto em 2018) contratar Fausto Macedo, de O Estado de S. Paulo.
"Ele dá semanalmente furo no jornal", disse.
O meu blog e a coluna do Fausto, de quem sou amigo, eram vitrines concorrentes e leais.
O artifÃcio de Juca, ao ressuscitar um fato antigo, sugere uma crÃtica enviesada a meu trabalho.
Juca é um criminalista conhecido. Em 2008, ele me ligou para cumprimentar pela entrevista com Joaquim Barbosa ("Enganou-se quem esperava um negro submisso no STF", disse o ministro).
O telefonema de Juca me sensibilizou. Dez anos antes, tive a impressão de que ele duvidara de minha palavra.
Em 1997, publiquei que a Comissão de Valores Mobiliários questionou a Construtora Beter S/A (empresa cliente de Juca) para explicar a doação, no ano anterior, de R$ 163,9 mil à campanha do prefeito Celso Pitta, sucessor de Paulo Maluf.
O acionista Olyntho Muniz Dantas reclamou na CVM que a contribuição ao candidato do PPB não teve prévia autorização do Conselho de Administração. A suspeita era de caixa dois.
Registrei: "O jornal tomou conhecimento da reclamação de Dantas a partir de ata de assembleia publicada pela Beter e obteve informações adicionais junto à CVM e à Bovespa".
Dantas confirmou o fato e recusou-se a conceder entrevista. A Beter não quis comentar.
Soube que um diretor da Beter revelou a um fiscal da CVM que a empresa desconfiava que eu teria recebido um dossiê. Ou sido remunerado.
A Beter ajuizou queixa-crime contra Olyntho, rejeitada pela 1ª Vara Criminal do Fórum Regional de Pinheiros. A empresa propôs ação indenizatória contra Olyntho por danos morais na 5ª Vara CÃvel da Capital.
Sustentei em juÃzo o que escrevera.
Duas coisas "não me irritam" no jornal. A liberdade para escolha dos assuntos e a retaguarda jurÃdica para o exercÃcio de meu ofÃcio.
O direito de defesa é sagrado. Como diz Hugo Leonardo, ex-presidente do Instituto de Defesa do Direito de Defesa, "o advogado criminal jamais deve ser julgado pela defesa de um cidadão".
Mas, se eu fosse advogado, não aceitaria ser patrono de um general golpista, defensor de torturadores. Nem de um médico estuprador de pacientes, que, em sua clÃnica de fertilização artificial, destruiu a vida de várias famÃlias e o sonho de terem filhos.
Ainda temos o direito de escolher o que mais incomoda.