Resumo objetivo:
Lotes de imunoglobulina comprados para o SUS foram entregues à empresa Insight, investigada por lavagem de dinheiro ligada ao PCC, para quitar uma dívida da fornecedora Farma Medical. A carga, que deveria ser exportada para a China, está retida no Panamá e perde a validade em meados de 2025, com o Ministério da Saúde afirmando não ter responsabilidade sobre seu rastreamento após a saída do país.
Principais tópicos abordados:
1. Desvio e destino irregular de medicamentos: A imunoglobulina adquirida para o SUS foi repassada a uma empresa investigada por crime organizado e está retida no Panamá, prestes a vencer.
2. Relações comerciais e dívidas: A transferência da carga ocorreu para saldar uma dívida de R$ 30 milhões da fornecedora Farma Medical com a Insight.
3. Fiscalização e responsabilidade: Há uma disputa sobre quem conduziu a exportação, enquanto o Ministério da Saúde se isenta de fiscalizar a carga após sua saída do Brasil.
4. Conexões criminosas: A empresa que recebeu os medicamentos tem ligações diretas com investigações de lavagem de dinheiro do PCC.
Lotes de imunoglobulina comprados por uma fornecedora do Ministério da Saúde e interditados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) foram entregues à Insight Participações S.A., uma empresa investigada por suspeita de ocultar patrimônio e lavar dinheiro do crime organizado.
A imunoglobulina é uma droga feita à base do plasma sanguÃneo, indicada para pacientes com o sistema imunológico comprometido, inclusive em casos especÃficos associados ao HIV. O produto deveria ter sido exportado à China, mas está no Panamá e perde a validade de junho a julho deste ano.
A distribuidora Farma Medical, que foi contratada pelo ministério para fornecer a droga ao SUS, diz desconhecer o destino da carga e declara que a repassou à Insight para quitar uma dÃvida de cerca de R$ 30 milhões.
O Ministério da Saúde, porém, afirma que formalmente foi a Farma Medical que atuou no processo de exportação. Diz ainda que os lotes não podem voltar ao Brasil e que não cabe à pasta "fiscalizar ou acompanhar a movimentação da carga após sua saÃda do paÃs".
Como mostrou a Folha, Farma Medical tomou um empréstimo de R$ 30 milhões com a Insight para comprar o primeiro lote da imunoglobulina que seria fornecida ao SUS.
O plano era financiar todo o contrato de R$ 87,63 milhões, mas o ministério decidiu romper o acordo com a distribuidora após a Anvisa, em outubro de 2023, interditar o produto. O governo federal não fez pagamentos pelo remédio.
Em setembro de 2024, a Farma Medical assinou um "termo de quitação" do débito e cedeu a propriedade e direitos da carga, além de afirmar que a Insight poderia tomar todas as medidas necessárias, inclusive com a Anvisa e o ministério, para a exportação do remédio.
Fundador e diretor da Insight, Himad Abdallah Mourad, também assina o documento. Ele e a empresa foram alvos de busca e apreensão na Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025, que mirou a atuação do PCC (Primeiro Comando da Capital) na economia formal.
Himad é primo de Mohamad Hussein Mourad, que está foragido e é apontado como um dos lÃderes da organização criminosa. Em outubro, Himad ainda foi alvo da operação Octanagem, um desdobramento da Carbono Oculto que mirou postos de combustÃvel, sob suspeita de que os estabelecimentos estariam por trás de um esquema de adulteração de gasolina e lavagem de dinheiro.
A reportagem não conseguiu localizar Himad, e a Insight não respondeu a e-mails enviados desde quarta (25) com pedido de manifestação.
Documentos obtidos pela Folha mostram que uma atual fornecedora de insulina do SUS, a distribuidora Star Pharma, atuou no processo de exportação da imunoglobulina da Farma Medical ao realizar cotações de embarque em 2025, quando a Insight já havia recebido os direitos da carga.
Formalmente, porém, a documentação do Ministério da Saúde sobre a saÃda da droga do Brasil não cita a Insight ou a Star Pharma. Apenas a Farma Medical é mencionada. A DU-E (Declaração Ãnica de Exportação), que tem o ministério como exportador, cita embarque com a China como destino final.
Uma pessoa que acompanhou o trâmite da exportação afirma, sob reserva, que os lotes iriam para a China, onde a imunoglobulina foi produzida, mas o paÃs não autorizou a entrada da carga. Todo o medicamento, então, foi levado ao Panamá e segue no paÃs, segundo documento obtido pela reportagem.
Outras quatro pessoas que acompanharam o processo afirmam que a Star Pharma conduziu a exportação em nome da Insight, e que a estrutura da Farma Medical foi utilizada apenas para responder formalmente ao ministério.
Em nota, a Star Pharma disse que atuou na operação por meio de Emanuela Medrades, atual sócia da empresa, em "suporte técnico pontual na avaliação de alternativas regulatórias e logÃsticas para a carga" e dentro da legalidade.
Os cerca de 31 mil frascos, avaliados em R$ 30 milhões, ficaram no estoque do Ministério da Saúde de outubro de 2023 a março de 2025, quando a carga deixou o paÃs.
A Anvisa inicialmente mandou destruir o produto, que havia desembarcado no Brasil sem o controle adequado de temperatura. O medicamento é um produto biológico, deve ser mantido entre 2°C e 8°C em todo o trajeto.
A agência sanitária, porém, aceitou pedido da empresa para que a carga fosse devolvida ao fabricante chinês, o laboratório Harbin Pacific, sob argumento de que os lotes poderiam ser substituÃdos ou ressarcidos.
A imunoglobulina que seria entregue ao SUS não tinha registro da Anvisa. O ministério optou por essa compra excepcional sob o argumento de que não havia oferta da indústria regularizada no Brasil.
A Farma Medical não tinha contratos anteriores com o ministério e foi escolhida por um chamamento público de empresas, feito de emergência para evitar desabastecimento. A empresa representava a Prime Pharma LLC, dos Emirados Ãrabes, que receberia o pagamento no exterior.
Em nota, o Ministério da Saúde afirma que todo o processo de devolução "foi conduzido com a Farma Medical, representante da Prime Pharma LLC". A pasta afirma que o valor pago pelo governo para armazenar o produto no armazém da Saúde em Guarulhos está em "processo de restituição", sem informar qual foi a despesa.
O ministério ainda diz que atua "com rigor" na fiscalização e que aplicou uma multa de US$ 1,69 milhão na Prime Pharma LLC. A pasta não informa se o valor da multa já foi pago.