Resumo objetivo:
Indígenas com deficiência enfrentam barreiras extras no ensino superior, como falta de acessibilidade física, apoio insuficiente e preconceito, o que ameaça sua permanência nas universidades. Os relatos de Ynathari Ampak, que sofreu discriminação mas concluiu o curso com apoio pontual, e de Kanhu Haka, que interrompeu os estudos pela falta de um monitor e de acessibilidade, ilustram essas dificuldades. Embora haja 534 indígenas com deficiência matriculados no ensino superior, especialistas alertam que os dados podem ser subnotificados.
Principais tópicos abordados:
1. Barreiras enfrentadas: falta de acessibilidade, apoio insuficiente e preconceito.
2. Relatos pessoais: experiências de duas estudantes indígenas com deficiência.
3. Resposta institucional: posicionamento das universidades sobre os casos.
4. Dados quantitativos: número de indígenas com deficiência no ensino superior e limitações na coleta de dados.
Além dos desafios enfrentados por estudantes indÃgenas no ensino superior, aqueles com deficiência lidam com obstáculos extras, como falta de acessibilidade, apoio insuficiente e preconceito, que ameaçam a permanência na universidade.
Quando um professor falou para Ynathari Ampak que ele havia se formado para dar aula para pessoas "normais" e não para alguém como ela, a vontade de desistir da graduação foi forte. IndÃgena xavante e pataxó, Ynathari entrou no curso de biologia da Unimontes (Universidade Estadual de Montes Claros) em 2019, por meio de cotas para indÃgenas.
Diagnosticada com transtorno do espectro autista e dislexia, ela conta que tirava boas notas, mas precisava de ajuda com as leituras. Em determinado momento do curso, encontrou uma professora que a acolheu, adaptando as aulas às suas necessidades.
"à importante mostrar que nós existimos e que a educação indÃgena é diferente por conta da própria cultura. Para quem sai do seu território e vem para a universidade, é muito diferente. Isso impacta o indÃgena sem deficiência, imagine o com deficiência", diz Ynathari, que concluiu a graduação em 2024, aos 40 anos.
Já Kanhu Haka, 28, indÃgena da etnia kamayurá, não conseguiu terminar seus estudos na UnB (Universidade de BrasÃlia). Ela tem distrofia muscular de Duchenne, uma condição genética que causa perda progressiva dos movimentos.
Em 2022, entrou no curso de ciência polÃtica por meio de um processo seletivo especial para candidatos indÃgenas, mas não encontrou condições de acessibilidade adequadas âuma mesa maior para acomodar a cadeira de rodas e alguém para auxiliá-la nas aulas. Em 2024, decidiu tentar frequentar o curso com a ajuda da irmã âque, algum tempo depois, não conseguiu mais acompanhá-la.
A solicitação de um monitor foi feita formalmente, e a resposta positiva veio por email, em outubro do mesmo ano. "Mas ele nunca chegou", afirma.
Kanhu mora a 50 minutos da UnB. O deslocamento ocorria inicialmente por ônibus, mas depois passou a ser feito por veÃculo particular, pago com uma bolsa permanência que recebia da universidade.
"Usava o recurso só para isso. Mas, no carro, eu não podia levar minha cadeira automatizada, porque ela é grande, precisava tirar as baterias e desmontá-la. Para facilitar, levava uma cadeira mais simples, mas aà precisava que alguém ajudasse a empurrar. E não tive esse apoio do setor de acessibilidade."
A jovem não desistiu do ensino superior, mas agora pensa em ingressar na modalidade a distância. "Cursar uma universidade era um sonho. Vou continuar tentando."
Procurada, a UnB informou que buscou alternativas para atender à s demandas da aluna, mas que "não teria sido possÃvel efetivar esses apoios por limitações administrativas, indisponibilidade de candidatos à tutoria e dificuldades de contato com a estudante". A universidade disse que permanece à disposição para retomar o diálogo com Kanhu para que ela continue sua trajetória acadêmica.
Em nota, a Unimontes afirmou que não houve registro formal ou denúncia apresentada à coordenação relacionada a situações de preconceito por parte de docentes e que "as demandas de cunho acadêmico encaminhadas à época pela aluna foram acolhidas e direcionadas ao setor responsável".
Ynathari e Kanhu fazem parte do universo de 534 indÃgenas com deficiência matriculados no ensino superior brasileiro em 2024, segundo dados do mais recente Censo do Ensino Superior, do Inep. O número inclui instituições públicas (203, sendo 167 em federais, 33 em estaduais e 3 em municipais) e privadas (331). Brasil vive paradoxo entre avanço de terapias e barreiras de acesso
Mas esse volume pode não refletir a real dimensão desse grupo. Para a professora Chantal Medaets, da Unicamp, embora a coleta realizada pelo Censo tenha melhorado nos últimos dez anos, a falta de informação relativa à raça, cor e origem étnica ainda existe.
"Para o conjunto de estudantes indÃgenas, esses números variam. Como as instituições também são responsáveis por repassar esses dados, a qualidade dessa informação é muito variável", afirma a docente, que coordena o Obiques (Observatório de IndÃgenas e Quilombolas no Ensino Superior).
"A meu ver, o maior problema é a subnotificação de dados de estudantes indÃgenas de modo geral. Precisamos ter esses dados para entender melhor como o universo dos estudantes indÃgenas se distribui, o que inclui a questão da deficiência", ressalta.
Em 2025, somente em duas universidades federais da região Norte, havia 108 indÃgenas com deficiência matriculados, segundo dados fornecidos pelas próprias instituições à reportagem. Na Ufam (Universidade Federal do Amazonas), eram 20 estudantes inscritos na graduação. Na UFT (Universidade Federal do Tocantins), 88 dos 538 estudantes indÃgenas matriculados tinham algum tipo de deficiência.
"Temos uma equipe multidisciplinar de acessibilidade em cada campus. Muitas vezes são alunos que ainda não possuem laudo, que não informam a deficiência na matrÃcula ou que nem entram pela cota. Quando eles já estão aqui, é que a equipe identifica a deficiência", diz Maria Santana, reitora da UFT.
O MEC (Ministério da Educação) não comentou as possÃveis discrepâncias nos dados. Em nota, a pasta informou que atua em três frentes principais para a permanência de estudantes indÃgenas com deficiência no ensino superior: o Programa Incluir, que financia núcleos de acessibilidade nas universidades; o fomento à s licenciaturas interculturais e à criação da Universidade Federal IndÃgena; e o Programa de Bolsa Permanência para indÃgenas e quilombolas.
Ainda de acordo com o MEC, os investimentos em assistência estudantil cresceram, passando de R$ 1,4 bilhão, em 2021, para R$ 2,7 bilhões, em 2025. No ano passado, por meio do Programa de Bolsa Permanência, foram ofertadas 17,3 mil bolsas para estudantes indÃgenas e quilombolas, o dobro do registrado em 2022 (8,6 mil).
Esta reportagem é resultado do laboratório de jornalismo de dados de educação e cultura, promovido pela Folha e pela Fundação Itaú em outubro de 2025.