O governo de São Paulo avançou com a construção do novo Centro Administrativo no bairro dos Campos Elíseos, com previsão de conclusão para 2030, após a escolha do projeto arquitetônico vencedor. No entanto, o artigo levanta críticas e questionamentos sobre a falta de um projeto urbanístico integrado para o entorno, que aborde mobilidade, habitação diversificada e vitalidade fora do horário comercial. A reportagem também aponta a desconexão do empreendimento com os planos diretores municipais e questiona a eficiência de construir novos prédios em vez de reformar os já existentes no centro.
O Novo Centro Administrativo do Governo do Estado de São Paulo vai mesmo sair do papel. Semana passada, foi escolhido o consórcio responsável pela construção. A previsão é que as obras sejam concluÃdas até 2030.
O Governo Estadual tem caixa, intenção e anda rápido. Diante da inevitabilidade da ideia, vale a pena se perguntar: será que o novo empreendimento vai mesmo construir cidade e trazer urbanidade para o centro?
Para começar, é bom constatar que o movimento esteja sendo em direção ao centro e não para fora dele. A volta do governo para os Campos ElÃseos é uma boa escolha. O bairro já abrigou a sede do Governo Estadual no inÃcio do século 20, tem boa infraestrutura e oportunidades de transformação do território que sofreu com a cracolândia durante décadas.
A escolha do projeto se deu após um concurso organizado em conjunto com o IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil). O concurso gerou mais de 40 propostas. O projeto vencedor, do escritório Ãpera Quatro, tem fachadas ativas, integração entre os prédios, uma esplanada verde, porosidade e caminhabilidade.
Se o projeto arquitetônico do Centro Administrativo parece muito bem feito, está faltando o projeto urbanÃstico para o entorno.
O que vai existir em volta dos prédios administrativos? Como garantir que essa região não fique esvaziada à noite e aos finais de semana, como acontece na região da Berrini, por exemplo?
Como chegarão ao trabalho os 22 mil funcionários públicos, os 1.300 responsáveis pela administração e zeladoria e os milhares de visitantes? Todo mundo vai caminhar da estação da Luz até lá?
Como desestimular as pessoas a usarem o carro se o aumento de vagas de garagem foi um dos responsáveis pela revisão do projeto? Quantos dos funcionários alocados no Centro Administrativo vão realmente querer morar por ali e o que é preciso redimensionar para que isso aconteça (creches, escolas, centros de saúde etc)?
Mais do que em qualquer lugar, o centro precisa de diversidade e isso só se consegue com residências de todos os tipos desde as habitações de interesse social até os apartamentos de classe média. Como garantir a implementação de projetos previstos de habitação social diante da inevitável valorização dos imóveis? Como garantir que quem more na região não seja expulso?
Provavelmente essas questões estão ligadas à distância entre o projeto estadual e os planos municipais. O Plano Diretor de São Paulo, revisado em 2023 depois de milhares de horas de reuniões, audiências públicas, brigas na Câmara Municipal não faz nenhuma referência ao centro administrativo. O PIU (Plano de Intervenção Urbana) Setor Central, que discute o futuro do centro, também não. Essa distância traz questões práticas: como acomodar a nova demanda aos planos existentes, como os de habitação, do VLT ou as operações urbanas?
Chama a atenção o fato de que grande parte dos órgãos governamentais que serão trazidos para o centro já estão... no centro! Será que não teria sido mais eficiente reformar esses prédios (a Prefeitura tem um programa de estÃmulo ao retrofit) do que abandoná-los e construir tudo de novo? Quais serão os impactos no comércio do entorno do esvaziamento dos prédios atualmente ocupados pelos órgãos estaduais que mudarão de lugar?
E para terminar, há o Palácio dos Bandeirantes, que será mantido como residência do governador. Quando levou a sede para o Morumbi, em 1965, o então governador Ademar de Barros disse que a mudança levaria o governo para "um pouco fora do bulÃcio da cidade, para produzir mais". Não faz mais sentido esse distanciamento anacrônico. O governador poderia dar o exemplo, vir para o centro também e abrir mão do Palácio dos Bandeirantes. Como uma universidade, um hospital ou uma enorme área verde, o local serviria melhor à cidade do que hoje.