Resumo dos pontos principais:
Gana celebrou 69 anos como o primeiro país da África Subsaariana a conquistar a independência, liderado por Kwame Nkrumah, cujo discurso e visão pan-africanista inspiraram outros movimentos de libertação no continente. Após um golpe de Estado apoiado pela CIA em 1966, o país entrou em um ciclo de instabilidade e dependência financeira do FMI, segundo análise de um ativista socialista. Atualmente, o governo ganense busca liderar uma iniciativa na ONU para declarar o tráfico transatlântico de escravos como o maior crime contra a humanidade, reafirmando seu papel histórico na defesa da soberania africana.
Principais tópicos abordados:
1. A independência de Gana e o legado de Kwame Nkrumah.
2. O golpe de Estado de 1966 e seus impactos político-econômicos.
3. A atual dependência do país em relação ao FMI.
4. A iniciativa diplomática para reconhecer o tráfico de escravos como crime histórico.
5. A visão do movimento socialista sobre a conscientização popular e o futuro do país.
Há 69 anos, Gana tornava-se o primeiro país da África Subsaariana — ao sul do deserto do Saara — a conquistar a independência dos colonizadores europeus. O processo de libertação do domínio britânico contou com forte envolvimento popular e teve como líder o professor, intelectual socialista-marxista Kwame Nkrumah (1909-1972) que, em 6 de março de 1957, fez um discurso emblemático e inspirador para outras nações da região.
“Nós vamos criar a nossa própria personalidade e identidade”, declarou Kwame Nkrumah, no discurso de libertação, em Acra, capital do país. Anos depois, em 1966, Nkrumah foi derrubado por um golpe de Estado apoiado pela CIA, a agência de inteligência do Estados Unidos, e o país entrou em um período de instabilidade política e econômica.
“A boa notícia é que os trabalhadores do nosso país estão se conscientizando. Estão acordando para a realidade e exigindo emancipação”, celebra Ibrahim Huzaif Badar, membro do Movimento Socialista de Gana (SMG, na sigla original), em entrevista ao Brasil de Fato.
Integrante do movimento há cerca de quatro anos, o ativista político falou sobre a atual situação econômica do país e sobre o legado de Nkrumah.
“Kwame Nkrumah declarou, na ocasião [da independência], que o homem negro é capaz de gerir os seus próprios assuntos. Essa declaração inspirou outros países africanos e os fez acreditar que poderiam lutar pela sua independência”, destaca.
Em mais uma ação de defesa dos direitos humanos e afirmação da soberania dos povos africanos, o atual presidente de Gana, John Dramani Mahama, informou que seu país apresentará, à Organização das Nações Unidas (ONU), um projeto de resolução para declarar o tráfico transatlântico de escravos como “o maior crime já cometido contra a humanidade”. A declaração foi reiterada em fevereiro de 2026, em entrevista coletiva à imprensa local.
“Não se trata apenas de Gana ser uma líder regional. Trata-se de Gana liderar um esforço que busca corrigir um erro histórico. Assim como Kwame Nkrumah liderou os esforços para a luta de libertação do continente africano, Gana está, mais uma vez, liderando os esforços para corrigir um erro histórico”, avalia o integrante do movimento socialista.
Confira a entrevista completa ao Brasil de Fato.
Como está Gana, 69 anos após a independência?
A história de Gana, 69 anos após a independência, é marcada por altos e baixos. Os aspectos positivos vieram logo após a independência. Foi ali que Kwame Nkrumah implementou sua visão de pan-africanismo [movimento político, filosófico e social que defende a união entre os povos africanos], sua visão de soberania, sua visão de autossuficiência, sua visão de industrialização, emancipando os trabalhadores e o povo do nosso país, gerando empregos. Estávamos no caminho do crescimento, no caminho da prosperidade.
Infelizmente, esse caminho foi interrompido por um golpe de Estado articulado pela CIA, que derrubou Nkrumah. Desde então, entramos em um ciclo de dependência do Fundo Monetário Internacional (FMI). Recebemos ajuda, estabilizamos os indicadores e, de repente, mergulhamos em dívidas impagáveis que nos forçam a voltar ao FMI. Temos uma dívida que nunca conseguiremos pagar completamente e, sem outra opção, teremos que recorrer ao FMI. E esse tem sido o nosso ciclo, desde a independência.
A boa notícia é que os trabalhadores do nosso país estão se conscientizando. Estão acordando para a realidade e exigindo emancipação. Estão fazendo reivindicações. Não tenho dúvidas de que, cedo ou tarde, voltaremos às ideias do nosso pai fundador, Kwame Nkrumah. Este é o único caminho para o crescimento e a prosperidade de Gana e do Sul Global.
Gana foi o primeiro país da África Subsaariana a conquistar a independência. Qual é a relevância desse fato histórico?
Sim, Gana foi o primeiro país a conquistar a independência na África subsaariana. Este fato histórico é muito importante porque não marcou apenas a independência de Gana, mas influenciou pesadamente a libertação de outros países. A independência de Gana foi um símbolo de possibilidade e mostrou que outras nações poderiam seguir o nosso exemplo.
Na ocasião, Kwame Nkrumah declarou que “o homem negro é capaz de gerir seus próprios assuntos”. Essa afirmação, por si só, inspirou o continente. Fez com que outros países africanos acreditassem que poderiam lutar e governar a si mesmos. Foi um momento definidor.
Como esse processo de emancipação influenciou os outros países africanos?
Mais do que uma inspiração, Gana influenciou diretamente as lutas de resistência. Como disse Nkrumah: “A independência de Gana não tem sentido, a menos que esteja ligada à libertação total do continente africano”.
Ele apoiou movimentos de libertação em toda a África — na África do Sul, no Zimbábue e em muitos outros lugares — oferecendo suporte ideológico, político e prático para garantir que esses países fossem libertados.
Como mensurar a importância do legado de Kwame Nkrumah para os dias de hoje?
A importância de Nkrumah deve ser medida por sua ideologia. Tudo o que ele previu aconteceu. Ele alertou que, se não nos uníssemos, os colonizadores voltariam em novas formas. Em seu livro, Neocolonialismo: Último Estágio do Imperialismo (1965), ele detalhou como as potências pretendiam manter influência sobre os africanos. Vemos isso hoje. Olhar para sua visão e sua personalidade é a única forma de medir a importância de sua memória.
Nkrumah tinha a visão de uma África unida, com um banco central único, um exército comum e uma moeda única, permitindo o comércio e a livre circulação entre nós. Para ele, este era o único caminho para o desenvolvimento. As teorias de desenvolvimento propostas a nós não servem aos interesses da África, pois não tivemos a “oportunidade” de lucrar com 500 anos de tráfico negreiro ou de colonizar outros países por décadas.
Precisamos de nossa própria estrutura de desenvolvimento, uma estratégia pan-africana. Embora esse processo tenha sido interrompido, o povo africano está começando a acordar e a exigir respostas. Um dia, retornaremos às ideias de Nkrumah.
Gana irá apresenta uma resolução à ONU declarando a escravidão o “maior crime contra a humanidade”. Qual é o significado dessa campanha e o que ela revela sobre Gana como líder regional?
É uma decisão histórica que demonstra a liderança de Gana e deve ser apoiada por todo o Sul Global. O tráfico transatlântico de escravos não apenas roubou recursos; ele impediu o desenvolvimento do povo africano.
Não levaram apenas braços para o trabalho; levaram nossos intelectuais, médicos, advogados e engenheiros. Profissionais qualificados que poderiam ter construído Gana foram forçadas a construir outros países de graça. Isso retardou nosso progresso. É assim que precisamos encarar.
Precisamos entender o tipo de marginalização, o tipo de opressão que sofremos como povo. E essa memória deve nos inspirar a reafirmar nossa soberania. Novamente, esta é uma oportunidade para redefinirmos todo o cenário global. Precisamos redefinir a arquitetura de governança do mundo, do espaço global.
Precisamos ter uma voz, como povo africano, porque toda a arquitetura global foi construída sem a presença do povo africano. E agora, esta resolução deve nos lembrar que nós também existimos e também merecemos uma voz nesses espaços. E acredito que esta campanha é muito significativa.
É um marco que nos ajudará a contar a nossa história e nos motivará a lutar para garantir um mundo melhor. Gana está apresentando esta resolução, mas não se trata apenas de Gana ser a líder original. Trata-se de Gana liderar o esforço de uma luta africana mais ampla.
Não se trata apenas de Gana ser uma líder regional. Trata-se de Gana liderar um esforço que busca corrigir um erro histórico. Assim como Kwame Nkrumah liderou os esforços para a luta de libertação do continente africano, Gana está, mais uma vez, liderando os esforços para corrigir um erro histórico.
Trata-se de como Gana pode influenciar e ajudar a moldar o continente africano no cenário global, todo o Sul Global. E, portanto, acho que esse é um dos aspectos mais significativos desta campanha.