Resumo objetivo:
O fechamento do Estreito de Ormuz após ataques ao Irã elevou o preço do petróleo, impactando principalmente a Europa. A especialista Clarissa Forner aponta que, embora os EUA tenham relativa segurança energética devido ao xisto, uma escalada do conflito pode afetar setores como alimentos e consumo, gerando problemas econômicos internos e para aliados.
Principais tópicos abordados:
1. Impacto geopolítico e econômico do fechamento do Estreito de Ormuz no preço do petróleo.
2. Análise das contradições da política externa de Trump, incluindo gasto militar e o distanciamento do "America First".
3. Cenário político interno dos EUA, com as eleições de meio período como possível contrapeso às ações de Trump.
4. Remilitarização europeia e tensões na OTAN, questionadas pela retórica de Trump.
Com o fechamento do Estreito de Ormuz após os ataques de Israel e Estados Unidos no Irã, o preço do petróleo disparou, atingindo principalmente a Europa. “A Europa depende consideravelmente do petróleo que vem do Oriente Médio e tende a ser uma das regiões mais afetadas”, aponta Clarissa Forner, professora de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), no Conexão BdF 2ª Edição da Rádio Brasil de Fato.
Forner destaca a chamada “Revolução do Xisto” que traz uma certa tranquilidade para os EUA. “Os Estados Unidos se beneficiam em alguma medida da descoberta de reservas de petróleo e gás dentro do próprio país, o que dá uma relativa tranquilidade. Mas essa tranquilidade é limitada.”
No entanto, caso o conflito se estenda é possível gerar problemas para além do petróleo, podendo afetar outras coisas como: alimentos, preços de consumo de forma geral. “Para Trump, isso já é um problema. A alta pode afetar vários setores da economia norte-americana e também gerar problemas para aliados da região.”
Sobre a afirmação de Trump de que a indústria bélica trabalha em regime de urgência, Forner faz ponderações já que não há um consenso sobre o gasto militar como impulsionador da economia. “Hoje, a indústria bélica se tornou muito intensiva em tecnologia. O fato de gerar empregos não se estende para toda a sociedade. Estamos falando de empregos de alta intensidade tecnológica, que não vão se estender para todos os setores, ou vão beneficiar um espaço muito pequeno da sociedade.”
A professora lembra que Trump se elegeu prometendo combater o complexo industrial-militar. “Na verdade, estamos vendo ele ir pelo caminho contrário. Ele impulsiona cada vez mais o gasto militar, pressionando essa indústria a produzir mais, contrariando bastante a promessa inicial de campanha.”
“Há uma percepção não só nesse eleitorado trumpista, mas das pessoas que acompanham política norte-americana de forma geral, de que essa ação se desvia bastante do que tem sido o modo como o próprio Trump tem elencado os objetivos dessa administração”, aponta a professora
Para muitos apoiadores de Donald Trump, a guerra parece servir mais a Tel Aviv do que aos estadunidenses — uma subversão do lema “America First” [ América em primeiro lugar] que orientou a campanha do presidente.
Forner explica que a base trumpista possui diferentes graus de questionamento ou de apoio, mas, no geral, há muita dúvida. “Não há necessariamente uma contrariedade ao uso da força militar — a demonstração de força faz sentido para a lógica do trumpismo. O que não faz sentido são as intervenções de longo prazo, o que eles chamam de ‘nation building‘, como no Iraque ou Afeganistão.”
Em novembro, o governo Trump enfrentará as eleições de meio período, o que pode mudar esse cenário no qual os democratas no Congresso tem dificuldades em frear o líder da Casa Branca levando adiante certas votações. “A correlação de forças não os favorece. Temos uma maioria republicana, e mesmo que possa ser fragmentada entre moderados e trumpistas, ainda é uma maioria republicana.”
“Para os democratas, essas eleições são muito importantes para que o discurso possa ser convertido em ações práticas, para trazer um contrapeso para essas ações do Trump”, acrescenta.
Paralelamente, a movimentação da remilitarização europeia também é preocupante, segundo a professora. “Foi investido décadas na construção de um arranjo de paz regional, mas o que observamos nos últimos anos é um investimento maciço desses países em suas indústrias bélicas, até na dimensão nuclear.”
“A guerra da Ucrânia trouxe um fortalecimento da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte], mas movimentos recentes de Trump questionam a aliança e o próprio valor estratégico que a Europa tem para os Estados Unidos. Os documentos são anormalmente claros nesse sentido. Considerando toda a construção dessa aliança desde o século 20, essa mudança de tom é bastante significativa”, observa.
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.