Resumo objetivo:
Analistas avaliam que o fechamento parcial do Estreito de Ormuz, causado por ataques no Oriente Médio, não deve comprometer a segurança energética da China, maior importadora global de petróleo. Eles argumentam que o país pode contornar dificuldades de curto prazo diversificando suas fontes, aumentando as importações da Rússia e da Ásia Central, além de investir em produção interna e alternativas energéticas. Apesar da alta imediata nos preços do petróleo, o cenário não é de pânico, pois a oferta global permanece maior que a demanda, com estoques elevados.
Principais tópicos abordados:
1. Impacto no abastecimento chinês: A dependência chinesa de petróleo do Oriente Médio (40-45% das importações) e sua capacidade de mitigar riscos com diversificação de fornecedores.
2. Diversificação energética da China: Aumento das importações da Rússia, produção doméstica recorde e investimentos em alternativas (como carros elétricos) para reduzir a dependência externa.
3. Contexto do mercado global: Fechamento do Estreito de Ormuz e alta nos preços do petróleo, atenuada por um cenário de oferta mundial maior que a demanda e estoques elevados.
4. Impactos regionais diferenciados: Europa como a mais afetada pela crise no gás natural, enquanto EUA e China são menos vulneráveis devido à autossuficiência e reservas estratégicas.
Os ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã que levaram ao fechamento parcial do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da produção de petróleo mundial, não devem abalar a segurança energética chinesa, maior compradora global do produto. A opinião é de analistas no Brasil e na China ouvidos pela reportagem.
A China importa entre 11,1 milhões e 11,6 milhões de barris de petróleo por dia, produzindo menos da metade disso, cerca de 4,3 milhões de barris de petróleo bruto diariamente. Embora a produção interna tenha atingido níveis recordes e o país seja o quinto maior produtor mundial, ela atende apenas a uma parte da demanda total chinesa, que ultrapassa 16 milhões de barris diários, criando um déficit significativo de importações.
“As importações de petróleo da China provenientes do Oriente Médio, especificamente através do Estreito de Ormuz, representam de 40 a 45% do total, portanto, seu fechamento causará dificuldades de curto prazo para a China. No entanto, o país pode aumentar suas importações da Rússia e de países da Ásia Central”, disse o economista Ding Yifan, professor da Universidade de Línguas Estrangeiras de Pequim, ao Brasil de Fato.
Opinião semelhante foi externada pelo economista e analista internacional Giorgio Schutte, coordenador do Programa de pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC).
“Hoje o maior exportador de petróleo para a China é a Rússia, especialmente após o início da guerra com a Ucrânia e a má relação que se instalou entre Moscou e a Europa. Depois, Arábia Saudita e Iraque”, disse ele.
“Só depois vêm o Irã, Brasil e outros países produtores como Emirados Árabes Unidos, Angola e Kwait. A tendência é a China diversificar ainda mais essa carteira de vendedores, apostar no aumento de sua produção e investir em alternativas a essa matriz energética.”
Oferta maior que a demanda
O analista, que é também membro do Observatório de Política Externa do Brasil (OPEB), exemplifica este último ponto com o aumento do uso de carros elétricos. “Embora cerca de 60% da eletricidade chinesa venha do carvão – o que não torna os veículos exatamente verdes – esse carvão é chinês e, consequentemente, reduz a dependência do país ao fornecimento externo.”
O conflito crescente no Oriente Médio levou a uma alta na cotação global do petróleo e temores de uma inflação generalizada. Os mercados de energia sofreram na segunda-feira um choque global, com uma disparada dos preços do petróleo e do gás, já que a guerra no Oriente Médio ameaça uma região crucial para a produção e exportação de hidrocarbonetos.
O Estreito de Ormuz, uma área pela qual transita cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) mundial, está fechado, de fato, ao tráfego: as principais empresas marítimas suspenderam os deslocamentos na região devido à explosão do valor dos seguros.
No atual contexto, os preços do petróleo dispararam nesta terça-feira. Às 9h15 GMT (6h15 de Brasília), a cotação do Brent do Mar do Norte para entrega em maio subia 5,45%, a US$ 81,98 (R$ 425 ) por barril. O West Texas Intermediate (WTI) dos EUA para entrega em abril, avançava 5,32%, a US$ 75,02 (R$ 389). Ainda assim, Giorgio Schutte afirma que a economia global, e em particular a chinesa, não deve ser tão abalada.
“O preço do petróleo não aumentou tanto, não foi a US$ 100, US$ 140, não é cenário de pânico. Isso porque já já há dois anos a produção mundial é muito maior do que a demanda. Não apenas a China, mas todos os países estão com grandes reservas.”
Schutte explica que a região mais afetada pela crise atual é a Europa, que viu os preços do gás natural dispararem depois que a empresa estatal de energia do Catar, a QatarEnergy, anunciou a interrupção da produção de gás natural liquefeito (GNL) devido aos ataques iranianos contra as instalações de duas unidades de processamento. Já os EUA também pouco sofreriam, já que “mais que dobraram sua produção desde 2007, tornando-se praticamente autossuficientes”.
E o Brasil nisso?
Janeiro de 2026 viu o aumento de 13,3% das exportações brasileiras de petróleo para a China, em janeiro, na comparação com o mesmo mês de 2025, a 2,6 milhões de barris por dia, maior volume em quase três anos. Nesse cenário, o país surge como parceiro estratégico chinês, não apenas como fornecedor de petróleo, mas também pelo compartilhamento tecnológico.
“A China está envolvida de várias formas com o petróleo brasileiro. Eles são os maiores vendedores de equipamentos para a Petrobrás, que é a empresa que obteve mais empréstimos relacionados a petróleo da dos bancos de desenvolvimento chinês”
“Os chineses estão muito interessados em aprender a extrair petróleo do mar, como o pré-sal. Eles esperam conseguir fazer isso no Mar da China e, assim, diminuir sua vulnerabilidade”, afirma.
Outro país que pode se tornar fornecedor de petróleo à China é o Canadá. O recente encontro do presidente chinês Xi Jinping com o primeiro-ministro canadense Mark Carney, país que detém cerca de 10% das reservas comprovadas de petróleo do mundo.
Durante sua visita à China — a primeira de um primeiro-ministro canadense desde 2017 — Carney afirmou, no dia 16, que uma nova parceria com a China traria resultados históricos, expressando confiança em “progressos imediatos e sustentados na agricultura, agronegócio, energia e finanças”.
Disputa geopolítica
O veículo de mídia de Hong Kong, The Standard, afirmou que “enquanto os EUA buscam controlar os fluxos de petróleo e os governos por meio de sanções e ameaças militares, a China tem a oportunidade de liderar por meio da inovação e da cooperação.
“Como o uso de combustíveis fósseis continuará dominante por enquanto, a China deve fortalecer os laços com países ricos em recursos naturais, ao mesmo tempo que acelera sua transição para energia limpa.”
Não foram poucas as análises que sugeriram que tanto o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e a tutela do petróleo do país sul-americano, como os ataques atuais ao Irã seriam parte da estratégia dos Estados Unidos para prejudicar seu principal rival comercial. Giorgio Schutte discorda.
“A intenção de Trump é reduzir a presença chinesa na América Latina, mas não creio que seja por meio de reduzir o fornecimento de petróleo, porque a Venezuela vendia pouco para Pequim, não era relevante.”
“Agora os ataques ao Irã, uma nação asiática como a China, mandam um recado muito claro dos EUA sobre quem ainda manda no mundo.”
Guerra de narrativas
Ao Brasil de Fato, o professor da Escola de Relações Internacionais e Assuntos Públicos da Universidade de Fudan. Shen Yi afirma que condicionar o crescimento econômico chinês à oferta de “petróleo barato” iraniano e venezuelano, como sugerem certas análises, é “bastante ridículo”.
“Infraestrutura crítica, cadeias de suprimentos completas, eficiência de governança e uma oferta de mão de obra de alta qualidade são os fatores-chave para o crescimento econômico da China, e não algum suposto petróleo barato”, explica ele.
“Mais importante ainda”, afirma Shen, “o aumento nos preços globais do petróleo bruto causado pelas ações dos EUA no Oriente Médio também afeta os próprios Estados Unidos”.
“Os EUA não são um exportador puro de recursos; sua produção e consumo domésticos são igualmente sensíveis aos preços do petróleo. Em contraste, a capacidade do governo chinês para a governança econômica é superior à do governo dos EUA”, conclui.